O que é O que é Câncer de pâncreas?
O câncer de pâncreas é uma neoplasia maligna que se origina nas células do pâncreas, um órgão localizado atrás do estômago, responsável pela produção de enzimas digestivas e hormônios como a insulina. Na minha prática diária no SUS e em clínicas populares, vejo esse diagnóstico muitas vezes chegar tarde, porque os sintomas iniciais são vagos — dor nas costas, perda de peso sem causa, cansaço. O paciente geralmente procura o posto de saúde com queixas de “má digestão” ou “síndrome do intestino irritável”, e a suspeita só surge quando aparece a icterícia (pele e olhos amarelados).
No Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de pâncreas é o 14º tipo mais frequente, mas é um dos mais letais: para cada ano, estimam-se cerca de 11 mil novos casos, com uma taxa de mortalidade muito próxima ao número de diagnósticos. Isso reflete o diagnóstico tardio e a agressividade do tumor. Na realidade do SUS, o acesso a exames de imagem como tomografia computadorizada e a biópsia guiada pode demorar semanas, o que atrasa o início do tratamento. O CFM e as sociedades médicas recomendam que, diante de qualquer suspeita clínica, o paciente seja encaminhado com urgência para um serviço de oncologia.
É fundamental que o clínico geral tenha um alto índice de suspeição, especialmente em pessoas acima de 50 anos com diabetes de início recente, histórico de pancreatite crônica ou tabagismo pesado. Apesar da gravidade, há manejo paliativo e, em casos selecionados, cirurgia com intenção curativa. O papel da atenção primária é identificar sinais precoces e evitar que o paciente se perca no sistema.
Como funciona / Características
O pâncreas é dividido em cabeça, corpo e cauda. O câncer de pâncreas mais comum, o adenocarcinoma ductal, surge no revestimento dos ductos que transportam as enzimas digestivas. Esse tumor cresce silenciosamente e costuma invadir vasos sanguíneos e linfáticos antes mesmo de dar sintomas. Na clínica, isso significa que, quando o paciente sente dor ou emagrece, muitas vezes já há metástases no fígado, gânglios ou peritônio.
Um exemplo típico do meu consultório: Dona Maria, 62 anos, chega com urina escura, fezes claras e coceira na pele. Ela havia ido ao curandeiro e tomado chá para “limpar o fígado”. O exame clínico revela icterícia, e a palpação abdominal mostra uma vesícula distendida (sinal de Courvoisier). Solicito uma ultrassonografia na UBS, que mostra dilatação das vias biliares e uma massa na cabeça do pâncreas. Esse é o cenário clássico do tumor que obstrui o ducto biliar comum.
Outra característica importante é a relação com o diabetes. Muitos pacientes desenvolvem hiperglicemia meses antes do diagnóstico, porque o tumor secreta substâncias que prejudicam a ação da insulina. Na rotina das clínicas populares, sempre oriento: um diabetes que surge em adulto magro, sem histórico familiar, merece investigação pancreática. O CA 19-9 é um marcador tumoral usado no acompanhamento, mas não serve para rastreamento, pois pode estar elevado em pancreatites e colestase.
Tipos e Classificações
Na prática clínica brasileira, classificamos o câncer de pâncreas principalmente pela histologia e pela localização. Os tipos são:
- Adenocarcinoma ductal (90% dos casos): mais agressivo, com pior prognóstico. Geralmente localizado na cabeça (60-70% dos casos), causando icterícia obstrutiva precoce.
- Tumores neuroendócrinos pancreáticos (TNEP): mais raros (1-2%), podem ser funcionantes (produzem hormônios como insulina, glucagon) ou não funcionantes. Têm evolução mais lenta e melhor prognóstico.
- Outros tipos: carcinoma de células acinares, pancreatoblastoma (raro em adultos), neoplasias císticas mucinosas e tumores sólidos pseudopapilares.
A classificação por estadiamento segue o sistema TNM (Tumor, Nódulo, Metástase) da UICC, adotado pelo SUS nos laudos de patologia. Para o clínico, o mais relevante é separar os tumores em ressecáveis, borderline ressecáveis, localmente avançados e metastáticos. Essa divisão define a conduta: cirurgia de Whipple (pancreaticoduodenectomia) para os ressecáveis, quimioterapia neoadjuvante para os borderline, e paliação para os metastáticos. Na rede pública, o acesso à cirurgia é restrito a centros de referência em oncologia, e o tempo de espera pode ser um desafio.
Quando procurar um médico
Oriento meus pacientes a procurarem atendimento na Unidade Básica de Saúde (UBS) ou no clínico geral sempre que surgirem os seguintes sinais, especialmente se persistirem por mais de duas semanas:
- Icterícia (pele e olhos amarelados) sem dor abdominal intensa, acompanhada de urina escura e fezes claras (como massa de vidraceiro).
- Perda de peso inexplicada — mais de 5% do peso corporal em 6 meses, sem dieta ou exercício.
- Dor abdominal ou nas costas que piora ao deitar ou após comer, muitas vezes descrita como “queimação” ou “aperto”.
- Diabetes de início recente em pessoa com mais de 50 anos, sem excesso de peso.
- Sintomas digestivos vagos — indigestão, náuseas, saciedade precoce, esteatorreia (fezes gordurosas, malcheirosas).
- Trombose venosa inexplicada (como trombose em veias superficiais ou profundas sem causa aparente) — associação paraneoplásica conhecida.
Na clínica popular, muitas vezes o paciente chega já com metástases. Por isso, reforço: não ignore a icterícia indolor. O médico da UBS deve solicitar exames simples como ultrassonografia abdominal e dosagem de bilirrubinas, amilase, CA 19-9, e encaminhar rapidamente para um serviço de referência se houver suspeita. O SUS garante o acesso a tomografia computadorizada e biópsia por agulha fina guiada por ecoendoscopia nos centros habilitados, mas a demora pode ser reduzida com um encaminhamento bem justificado.
Termos Relacionados
- Icterícia obstrutiva: amarelamento da pele e mucosas causado pela obstrução do ducto biliar pelo tumor. É o sinal mais comum nos tumores de cabeça de pâncreas.
- CA 19-9: marcador tumoral usado para monitorar resposta ao tratamento, mas não para diagnóstico precoce. Pode estar elevado também em pancreatite e colestase.
- Cirurgia de Whipple (pancreaticoduodenectomia): procedimento cirúrgico padrão para tumores ressecáveis da cabeça do pâncreas. Retira a cabeça do pâncreas, duodeno, parte do estômago e vesícula biliar.
- Pancreatite crônica: inflamação prolongada do pâncreas que aumenta o risco de câncer, especialmente em pacientes alcoólatras e tabagistas.
- Metástase hepática: disseminação do tumor para o fígado, comum no diagnóstico inicial. Piora o prognóstico e contraindica cirurgia curativa.
- Ecoendoscopia: exame que combina endoscopia com ultrassom para visualizar o pâncreas e guiar biópsia. É o padrão-ouro para diagnóstico citológico.
- Quimioterapia paliativa: tratamento com medicamentos para controlar o crescimento tumoral e aliviar sintomas, quando a cura não é possível. No SUS, usa-se gencitabina ou esquemas combinados.
- Neoadjuvância: quimioterapia ou radioterapia aplicada antes da cirurgia para reduzir o tumor e aumentar as chances de ressecção completa.
Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de pâncreas
O câncer de pâncreas tem cura?
Sim, há chance de cura quando o tumor é diagnosticado precocemente e pode ser completamente removido por cirurgia. Infelizmente, menos de 20% dos pacientes são candidatos à cirurgia no momento do diagnóstico. Quando a doença está restrita ao pâncreas e sem invasão de grandes vasos, a cirurgia de Whipple seguida de quimioterapia pode levar à remissão completa. Porém, mesmo após a cirurgia, a taxa de recidiva é alta. Por isso, enfatizo a importância de não ignorar os sinais iniciais.
Quais são os primeiros sintomas do câncer de pâncreas?
Os sintomas iniciais são vagos: dor abdominal ou nas costas tipo queimação, perda de apetite, cansaço, perda de peso, e às vezes desconforto após as refeições. O sintoma mais característico é a icterícia indolor (pele amarela, urina escura, fezes claras), que aparece quando o tumor está na cabeça do pâncreas. Atenção: muitos pacientes confundem com problema no fígado ou na vesícula. Na dúvida, procure um médico.
Como é feito o diagnóstico pelo SUS?
O diagnóstico começa na UBS com ultrassonografia e exames de sangue (bilirrubinas, enzimas pancreáticas, CA 19-9). Se houver suspeita, o médico encaminha para um centro de referência em oncologia, onde será feita tomografia computadorizada com contraste e, se necessário, ecoendoscopia com biópsia. O tempo de espera varia conforme a região, mas a Lei dos 60 dias (Lei 12.732/2012) garante que o paciente oncológico inicie o tratamento em até 60 dias


