sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Câncer de reto

O que é O que é Câncer de reto?

O câncer de reto é um tumor maligno que se origina no reto, a porção final do intestino grosso, que liga o cólon ao ânus. Ele se forma quando células normais da mucosa retal sofrem mutações genéticas e passam a se multiplicar de forma descontrolada, dando origem a um crescimento anormal que pode invadir tecidos vizinhos e se espalhar para outras partes do corpo (metástases). No Brasil, o câncer de reto é um dos tumores mais frequentes do aparelho digestivo. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimam que, para cada ano do triênio 2023‑2025, surjam cerca de 20.000 novos casos de câncer colorretal (que inclui cólon e reto), com uma incidência ligeiramente maior em homens do que em mulheres. A maioria dos diagnósticos ocorre em pessoas acima dos 50 anos, mas tenho visto, nos meus 15 anos de clínica, um aumento preocupante em pacientes mais jovens, especialmente a partir dos 40 anos.

Na rotina de uma clínica popular ou do SUS, o câncer de reto aparece com frequência em pacientes que chegam com queixas de sangramento anal, alteração do hábito intestinal ou dor abdominal baixa. Muitos confundem os sintomas com hemorróidas ou prisão de ventre e demoram meses para buscar ajuda. O diagnóstico precoce é um grande desafio, pois a falta de acesso a exames como a colonoscopia, as filas de espera e o desconhecimento da população sobre os sinais de alerta retardam o tratamento. No contexto do SUS, os protocolos do Ministério da Saúde preconizam o rastreamento oportuno e o encaminhamento ágil para centros de oncologia, mas, na prática, a distância entre a atenção primária e os hospitais de referência ainda é uma barreira.

O câncer de reto tem uma relação direta com hábitos de vida: dieta rica em carnes vermelhas processadas, baixo consumo de fibras, obesidade, tabagismo e consumo excessivo de álcool. Também podem influenciar fatores hereditários, como a síndrome de Lynch e a polipose adenomatosa familiar. Infelizmente, ainda é comum o paciente chegar ao consultório já com doença avançada, quando as chances de cura diminuem. Por isso, reforço sempre a importância da prevenção e da atenção aos primeiros sintomas.

Como funciona / Características

O câncer de reto geralmente começa como um pólipo adenomatoso – uma pequena protuberância benigna na mucosa do reto. Com o tempo, esse pólipo pode sofrer transformações genéticas e se tornar maligno, crescendo para dentro da luz intestinal ou infiltrando a parede do órgão. As células cancerosas se multiplicam de maneira desordenada, formando uma massa tumoral que pode ulcerar, sangrar e obstruir parcial ou totalmente o canal retal.

No dia a dia do consultório, atendo casos como o de um senhor de 58 anos, motorista de aplicativo, que relatava “hemorróidas” há seis meses, com sangramento vermelho vivo ao evacuar e sensação de não conseguir esvaziar completamente o intestino. Ao exame de toque retal – um procedimento simples e rápido que faço na própria clínica –, percebi uma lesão endurecida, irregular, que sangrava ao toque. Na mesma consulta, encaminhei para colonoscopia via SISREG. O resultado mostrou um adenocarcinoma de reto médio, estágio II. Ele nunca havia feito nenhum exame de prevenção. Histórias como essa são muito comuns: pacientes que ignoram os sintomas por vergonha ou por acharem que é algo simples.

O câncer de reto pode causar sintomas como sangramento retal (geralmente vermelho vivo), diarreia ou constipação persistente, sensação de evacuação incompleta (tenesmo), fezes mais finas que o normal (em formato de fita), dor abdominal, cólicas, emagrecimento sem causa aparente e anemia. Quando o tumor invade tecidos próximos, pode haver dor pélvica, náuseas, fadiga e, em casos mais avançados, obstrução intestinal. A progressão é lenta, mas silenciosa; muitos pacientes só procuram ajuda quando o quadro já está complicado.

Além da colonoscopia com biópsia, exames de imagem como a ressonância magnética de pelve e a tomografia computadorizada ajudam a avaliar a extensão local e a presença de metástases, principalmente no fígado e nos pulmões. O sangue oculto nas fezes é um teste de rastreamento, mas não substitui a colonoscopia completa.

Tipos e Classificações

O tipo histológico mais comum (cerca de 90% dos casos) é o adenocarcinoma, que se origina nas células glandulares da mucosa retal. Outros tipos, mais raros, incluem tumores carcinoides, linfomas, sarcomas e melanomas anorretais. A classificação mais importante para o tratamento e o prognóstico é o estadiamento TNM, adotado pelo SUS e pela maioria dos serviços de oncologia no Brasil:

  • T (Tumor): descreve a profundidade de invasão na parede do reto e se atinge órgãos vizinhos.
  • N (Linfonodos): indica se há comprometimento de linfonodos regionais.
  • M (Metástases): informa se o tumor se espalhou para órgãos distantes.

Essa classificação divide o câncer de reto em estádios (I, II, III, IV). Quanto mais baixo o estádio, melhores as chances de cura. No Brasil, a maioria dos diagnósticos ainda é feita em estádios II e III, o que reforça a necessidade de rastreamento precoce.

Outra classificação prática é quanto à localização no reto: reto alto (próximo ao cólon sigmoide), reto médio e reto baixo (próximo ao ânus). A localização interfere na escolha do tratamento cirúrgico e na possibilidade de preservação do esfíncter anal. Para tumores do reto baixo, por exemplo, muitas vezes é necessária uma cirurgia que resulta em ostomia definitiva (bolsa de colostomia).

Quando procurar um médico

Procure um médico (clínico geral, proctologista ou gastroenterologista) se você apresentar qualquer um dos seguintes sinais de alerta:

  • Sangramento retal: sangue vermelho vivo ou escuro nas fezes, no papel higiênico ou no vaso sanitário. Não assuma que é hemorróida sem antes descartar outras causas.
  • Alteração persistente do hábito intestinal: diarreia, constipação ou sensação de evacuação incompleta que dura mais de duas semanas.
  • Fezes finas ou deformadas: se as fezes ficam constantemente em formato de fita ou lápis.
  • Dor abdominal ou cólicas: principalmente se associadas a inchaço e desconforto.
  • Perda de peso inexplicada: emagrecer sem fazer dieta.
  • Anemia: cansaço excessivo, palidez, falta de ar – pode ser sinal de sangramento crônico.
  • Nódulo ou massa no ânus ou reto: sentido ao se tocar ou durante o banho.

No SUS, a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS). O médico da família ou clínico pode realizar o exame de toque retal – que é indolor e feito em segundos – e solicitar a colonoscopia se houver suspeita. Não espere o sangramento sumir sozinho. Diagnóstico precoce muda a história da doença.

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