O que é Câncer de útero?
O câncer de útero, também chamado de câncer do colo do útero (quando se origina na parte mais baixa, próxima à vagina) ou câncer do corpo do útero (endométrio), é uma doença na qual células anormais crescem de forma descontrolada no tecido uterino. Na minha rotina no SUS e em clínicas populares, atendo mulheres que muitas vezes só descobrem o problema quando os sintomas já estão avançados — justamente porque o rastreamento não foi feito antes. O tumor mais comum no Brasil é o câncer do colo do útero, fortemente ligado à infecção persistente pelo HPV (papilomavírus humano).
Segundo dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer), o câncer de colo do útero é o terceiro mais incidente entre as mulheres brasileiras, com cerca de 17 mil casos novos por ano. É também a quarta causa de morte por câncer em mulheres no país. Mas há uma boa notícia: é um dos tumores mais preveníveis, pois o Papanicolau (preventivo) consegue detectar lesões precursoras antes que virem câncer. No SUS, esse exame é oferecido gratuitamente nas UBS, e desde 2014 o Ministério da Saúde incorporou a vacina contra o HPV para meninas e meninos.
Na prática de clínica popular, vejo que a maior barreira é o acesso à informação e ao exame. Muitas pacientes relatam vergonha, medo ou falta de tempo para fazer o preventivo. Outras, de regiões mais afastadas, dependem de mutirões ou campanhas sazonais. O resultado é que uma doença evitável ainda mata cerca de 6.600 brasileiras por ano (INCA 2023). Por isso, reforço sempre a importância de conversar sobre saúde íntima sem tabu e de procurar a unidade de saúde mais próxima.
Como funciona / Características
O câncer de útero se desenvolve lentamente. No colo do útero, começa com alterações celulares chamadas neoplasia intraepitelial cervical (NIC) — lesões precursoras que podem regredir ou evoluir para câncer invasivo ao longo de 5 a 10 anos. Essa janela de tempo é a oportunidade de ouro para o rastreamento. Já no câncer de endométrio (corpo do útero), o crescimento é geralmente mais rápido e costuma se manifestar com sangramento anormal, especialmente na pós-menopausa.
No consultório, uma situação típica: chega uma paciente de 45 anos, três filhos, nunca fez preventivo. Relata sangramento vaginal depois da relação sexual há alguns meses, corrimento com odor e dor pélvica. Ao exame, o colo está ulcerado, sangra ao toque. Peço uma colposcopia e biópsia. O diagnóstico confirma carcinoma invasivo. Essa história se repete com frequência nas clínicas populares, onde muitas mulheres só vêm quando o sintoma já incomoda. O tratamento depende do estágio: desde cirurgia (conização, histerectomia) até radioterapia e quimioterapia.
Outro aspecto importante: o câncer de útero não é hereditário na maioria dos casos. Os principais fatores de risco são a infecção persistente por HPV (especialmente os subtipos 16 e 18), tabagismo, múltiplos parceiros sexuais, início precoce da vida sexual, uso prolongado de anticoncepcionais orais, baixa imunidade e falta de exames preventivos. No câncer de endométrio, os fatores incluem obesidade, diabetes, hipertensão e reposição hormonal sem progesterona.
Tipos e Classificações
Na prática clínica, usamos a classificação baseada na localização e no tipo histológico:
- Câncer de colo do útero (cervical): representa cerca de 90% dos casos. O tipo mais comum é o carcinoma de células escamosas (originado no epitélio escamoso do colo). O segundo mais frequente é o adenocarcinoma (originado nas glândulas endocervicais).
- Câncer do corpo do útero (endométrio): geralmente é um adenocarcinoma endometrioide, e ocorre mais frequentemente em mulheres acima de 50 anos, especialmente na pós-menopausa.
- Outros tipos raros: sarcomas uterinos, carcinomas de pequenas células, tumores neuroendócrinos, entre outros.
A classificação por estádio clínico segue o sistema FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia), usado mundialmente e adotado no Brasil. Vai do estádio I (doença limitada ao colo/útero) ao IV (metástases para órgãos distantes). O estadiamento é fundamental para definir o tratamento e o prognóstico. No SUS, o acesso a exames de imagem como ressonância e tomografia pode ser demorado, mas é garantido por protocolos do Ministério da Saúde.
Vale destacar que, graças ao rastreamento, o Brasil tem conseguido diagnosticar mais casos em estádios iniciais (I e II) nas regiões com maior cobertura de preventivo, como Sul e Sudeste. Nas regiões Norte e Nordeste, ainda há predomínio de diagnósticos tardios (III e IV).
Quando procurar um médico
Você deve procurar um ginecologista ou um clínico geral na UBS se apresentar algum destes sinais de alerta:
- Sangramento vaginal anormal: fora do período menstrual, após a relação sexual (sangramento de contato), durante a menopausa ou após a menopausa.
- Corrimento vaginal: com odor, amarelado, esverdeado ou com sangue.
- Dor pélvica: dor na parte baixa do ventre, que pode ser contínua ou durante a relação sexual.
- Alterações urinárias ou intestinais: em estádios avançados, o tumor pode comprimir bexiga ou reto, causando dor ao urinar, prisão de ventre ou sangramento nas fezes.
- Perda de peso, cansaço, febre: sintomas gerais que podem surgir em fases mais avançadas.
Importante: o câncer de útero em estágio inicial não costuma dar sintomas. Por isso, mulheres de 25 a 64 anos devem fazer o preventivo (Papanicolau) a cada três anos, mesmo sem queixa. No SUS, o exame é feito nas Unidades Básicas de Saúde. Se você nunca fez ou está atrasada, agende uma consulta. O diagnóstico precoce salva vidas.
Se você tem fatores de risco (HPV, imunossupressão, múltiplos parceiros, tabagismo), converse com seu médico sobre a necessidade de um acompanhamento mais frequente. A vacina contra o HPV está disponível no SUS para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos, e também para pessoas imunossuprimidas até 45 anos (em alguns casos).
Termos Relacionados
- HPV (Papilomavírus Humano): Vírus sexualmente transmissível responsável por praticamente todos os casos de câncer de colo do útero. A infecção persistente pelos tipos oncogênicos (16 e 18) é o principal fator de risco.
- Papanicolau (preventivo): Exame ginecológico que coleta células do colo do útero para identificar lesões precursoras do câncer. Gratuito no SUS e recomendado a cada 3 anos.
- Colposcopia: Exame que amplia a visão do colo do útero, permitindo biópsia de áreas suspeitas. É o passo seguinte quando o preventivo dá alterado.
- Conização: Procedimento cirúrgico que remove um cone de tecido do colo, usado tanto para diagnóstico quanto para tratamento de lesões precursoras e câncer inicial (estádio IA).
- Histerectomia: Retirada cirúrgica do útero, podendo incluir colo, ovários e trompas, dependendo do estádio. É o tratamento principal para câncer invasivo em estádios iniciais.
- Radioterapia e Quimioterapia: Usadas em estádios mais avançados ou quando a cirurgia não é possível. A radioterapia pode ser externa ou braquiterapia (interna). A quimioterapia geralmente à base de cisplatina.
- INCA (Instituto Nacional de Câncer): Órgão do Ministério da Saúde responsável pela política de controle do câncer no Brasil. Produz dados epidemiológicos e diretrizes de rastreamento.
- Rastreamento: Ação de saúde pública para detectar precocemente uma doença em pessoas assintomáticas. No Brasil, o rastreamento do câncer do colo do útero é feito pelo Papanicolau.
Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de útero
O câncer de útero tem cura?
Sim, quando diagnosticado precocemente, o câncer de útero tem altas chances de cura. Em estádios iniciais (I e II), a taxa de cura pode chegar a mais de 90% com cirurgia ou radioterapia. Em estádios avançados, o tratamento visa controlar a doença e melhorar a qualidade de vida, mas a cura é mais difícil. Por isso a importância do rastreamento.
O HPV sempre causa câncer de útero?
Não. A maioria das infecções por HPV é temporária e desaparece sozinha sem causar lesões. Apenas as infecções persistentes (que duram anos) por tipos oncogênicos (especialmente HPV 16 e 18) podem evoluir para lesões precursoras e, eventualmente, para câncer. Usar preservativo e tomar a vacina reduzem muito o risco.
O exame preventivo (Papanicolau) dói?
Pode causar um leve desconforto, mas não costuma ser doloroso. O médico insere um espéculo (instrumento de plástico ou metal) para visualizar o colo do útero e coleta uma amostra com uma escovinha. A sensação é de pressão. O exame dura menos de 5 minutos e é fundamental para a sua saúde.
Quem tem maior risco de desenvolver câncer de útero?
Os principais fatores de risco são: infecção por HPV, início precoce da vida sexual, múltiplos parceiros, tabagismo, uso prolongado de anticoncepcionais, baixa imunidade (HIV, transplante, etc.) e falta de exames preventivos regulares. Para o câncer de endométrio, obesidade, diabetes e reposição hormonal sem progesterona aumentam o risco.
Como é o tratamento do câncer de útero?
Depende do tipo, estadiamento e condições da paciente. No colo do útero, as opções incluem cirurgia (conização, histerectomia), radioterapia (externa e braquiterapia) e quimioterapia. No endométrio, a histerectomia com remoção dos anexos é o padrão, podendo ser seguida de radioterapia. O tratamento é definido em equipe multidisciplinar (ginecologista, oncologista, radioterapeuta). No SUS, o atendimento é feito em hospitais habilitados (CACON).
O câncer de útero pode ser hereditário?
Minoria dos casos. A maioria é esporádica. Exceções incluem a síndrome de Lynch (câncer de endométrio e cólon), que é hereditária. Se houver histórico familiar de câncer de útero ou cólon, seu médico pode indicar aconselhamento genético. Mas, de modo geral, a prevenção com vacina contra HPV e Papanicolau é eficaz para a maioria das mulheres.
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