O que é O que é Câncer de vagina?
O câncer de vagina é um tumor maligno que se origina nas células da vagina – o canal muscular que liga o útero ao exterior do corpo. No meu dia a dia como clínico geral no SUS e em clínicas populares do Nordeste, atendo muitas mulheres que chegam com queixas de sangramento anormal, corrimento com mau cheiro ou dor pélvica, sem saber que esses sintomas podem estar relacionados a essa doença.
É importante deixar claro: o câncer de vagina é considerado raro, representando cerca de 1 a 2% de todos os cânceres ginecológicos. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), são estimados aproximadamente 1.500 novos casos por ano no Brasil, com maior incidência em mulheres acima dos 60 anos. Ele é menos comum que o câncer de colo do útero, mas não menos grave – e, infelizmente, muitas vezes é diagnosticado tardiamente por falta de informação ou acesso a exames preventivos.
Na prática clínica, percebo que a maioria das pacientes nunca ouviu falar desse tipo de câncer. Muitas confundem os sintomas com infecções vaginais comuns, como candidíase ou vaginose bacteriana, e só procuram ajuda quando o quadro já está avançado. O principal fator de risco é a infecção persistente pelo HPV (papilomavírus humano), especialmente os tipos 16 e 18. Outros fatores incluem tabagismo, histórico de câncer de colo do útero, lesões pré-cancerosas na vagina (chamadas VAIN) e imunossupressão.
O SUS oferece atendimento para diagnóstico e tratamento, mas a fila para exames como colposcopia e biópsia pode ser longa em algumas regiões. Por isso, é tão importante que a mulher conheça os sinais e busque a unidade básica de saúde assim que notar algo fora do comum. O diagnóstico precoce é a chave para aumentar as chances de cura, que podem chegar a mais de 80% em estágios iniciais.
Como funciona / Características
O câncer de vagina se desenvolve quando células saudáveis da parede vaginal sofrem mutações e começam a se multiplicar de forma descontrolada. Esse processo leva meses ou anos. No início, a doença pode ser assintomática, o que dificulta o diagnóstico. Com o tempo, ela pode causar sintomas que a paciente nota no dia a dia.
Em consultas de rotina, já atendi pacientes que relatavam sangramento após a relação sexual, corrimento vaginal aquoso ou com sangue, dor durante a relação (dispareunia) e, em casos mais avançados, dor na região pélvica, inchaço nas pernas (linfedema) ou até sangramento urinário. Muitas mulheres acham que “é coisa da idade” ou “uma infecçãozinha”, e só procuram o médico quando a dor fica intensa.
O diagnóstico começa com o exame ginecológico de rotina, que inclui a inspeção visual da vagina e do colo do útero. Se houver suspeita, o médico pede uma colposcopia (exame com uma lente de aumento) e, se necessário, uma biópsia (retirada de um fragmento do tecido). O SUS disponibiliza esses exames, mas muitas vezes a paciente precisa aguardar alguns meses. Em clínicas populares, costumamos encaminhar para serviços de referência em oncologia, como o Hospital do Câncer ou centros regionais de alta complexidade.
O tratamento depende do estágio da doença. Para casos iniciais, pode ser feita cirurgia (remoção do tumor ou da vagina inteira – vaginectomia) ou radioterapia. Quando o câncer já se espalhou, usa-se quimioterapia e radioterapia combinadas, ou até imunoterapia em alguns casos. O importante é que a paciente tenha acompanhamento multiprofissional: oncologista, fisioterapeuta, psicólogo e assistente social, pois o tratamento pode afetar a função sexual, a autoestima e a qualidade de vida.
Tipos e Classificações
O câncer de vagina é classificado principalmente pelo tipo de célula de origem. Os mais comuns são:
– Carcinoma de células escamosas (cerca de 80% dos casos): origina-se nas células planas que revestem a vagina. Está fortemente associado ao HPV e é mais comum no terço superior da vagina.
– Adenocarcinoma (cerca de 10%): surge nas células glandulares, mais frequente em mulheres que foram expostas ao dietilestilbestrol (DES) durante a gestação – um medicamento usado no passado para evitar aborto, mas que hoje é proibido.
– Melanoma (raro): origina-se nos melanócitos (células que produzem pigmento). É mais agressivo e de difícil tratamento.
– Sarcoma (muito raro): surge nos tecidos conjuntivos, como músculos ou vasos sanguíneos.
Além do tipo histológico, os médicos usam o estadiamento (classificação por estágio) para definir o tratamento e o prognóstico. A classificação mais usada no Brasil é a da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO), que vai do estágio I (tumor limitado à vagina) ao estágio IV (disseminação para órgãos distantes). No SUS, o estadiamento é feito com exames de imagem (tomografia, ressonância) e, quando possível, PET-CT.
Há também as lesões pré-cancerosas chamadas de neoplasia intraepitelial vaginal (VAIN), que são classificadas em graus (VAIN 1, 2 e 3) de acordo com a profundidade da alteração celular. O diagnóstico e tratamento dessas lesões podem prevenir a evolução para câncer invasivo.
Quando procurar um médico
A regra de ouro é: qualquer sintoma anormal na região genital merece atenção médica. No consultório, sempre oriento minhas pacientes a procurarem a unidade de saúde o mais rápido possível se apresentarem:
– Sangramento vaginal após a relação sexual, entre os períodos menstruais ou depois da menopausa.
– Corrimento vaginal com mau cheiro, de cor amarelada, esverdeada ou com sangue.
– Dor ou desconforto durante a relação sexual.
– Coceira ou ardência persistentes na vagina ou na vulva.
– Dor pélvica (na parte baixa da barriga) sem causa aparente.
– Inchaço nas pernas que não melhora com repouso.
Mesmo sem sintomas, mulheres acima de 25 anos devem realizar o exame preventivo (Papanicolau) anualmente, conforme recomendação do Ministério da Saúde. A paciente pode agendar na UBS mais próxima. Se houver qualquer achado suspeito na vagina durante o preventivo, o médico solicitará uma colposcopia.
Em clínicas populares, dou prioridade a mulheres com histórico de HPV, tabagismo, imunossupressão (como HIV ou uso de corticoides) ou que já tiveram câncer de colo do útero. Lembro sempre: não ignore o sangramento pós-menopausa – muitas pacientes acham que é normal, mas é um dos principais sinais de alerta.
Termos Relacionados
- HPV – Papilomavírus humano, infecção sexualmente transmissível que é a principal causa de câncer de vagina, colo do útero e ânus. A vacina contra HPV está disponível no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos.
- Câncer de colo do útero – Tumor maligno na parte inferior do útero, mais comum que o câncer de vagina. Ambos compartilham fatores de risco, como HPV e tabagismo.
- Neoplasia intraepitelial vaginal (VAIN) – Lesões pré-cancerosas na vagina que podem evoluir para câncer se não tratadas. São detectadas por biópsia.
- Colposcopia – Exame que usa um microscópio especial para examinar a vagina e o colo do útero com mais detalhes. Essencial para diagnosticar lesões suspeitas.
- Biop sia – Retirada de um pequeno fragmento de tecido para análise em laboratório. É o único exame que confirma o diagnóstico de câncer.
- Vaginectomia – Cirurgia para remover parte ou toda a vagina. Pode ser necessária no tratamento do câncer localizado.
- Radioterapia – Tratamento com radiação para destruir células cancerígenas. Pode ser usada como alternativa ou complemento à cirurgia.
- Linfedema – Inchaço nos membros inferiores devido à obstrução dos vasos linfáticos, comum após remoção de linfonodos ou radioterapia na região pélvica.
Perguntas Frequentes sobre O que é Câncer de vagina
O câncer de vagina tem cura?
Sim, tem cura, especialmente quando descoberto no início. As chances de cura podem ultrapassar 80% nos estágios iniciais (I e II). O tratamento é feito no SUS, com cirurgia, radioterapia e quimioterapia, dependendo do caso. Quanto mais cedo a paciente procurar ajuda, maiores as chances de sucesso.
Quais são os principais fatores de risco?
O principal é a infecção persistente pelo HPV, especialmente tipos 16 e 18. Outros fatores incluem tabagismo, histórico de câncer de colo do útero, lesões pré-cancerosas na vagina (VAIN), imunossupressão (como HIV ou uso de medicamentos que baixam a imunidade) e idade avançada (maioria dos casos ocorre após os 60 anos).
Como é feito o diagnóstico no SUS?
O diagnóstico começa com o exame ginecológico de rotina na Unidade Básica de Saúde. Se houver suspeita, a paciente é encaminhada para um serviço de referência, onde fará colposcopia e biópsia. O material da biópsia é analisado por um patologista. O resultado pode levar de 15 a 30 dias, dependendo da região. O tratamento é realizado em hospitais de alta complexidade credenciados pelo SUS.
Como prevenir o câncer de vagina?
A principal forma de prevenção é a vacinação contra o HPV, disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos, e também para alguns grupos de risco (como pessoas com HIV). Além disso, o uso de preservativo reduz o risco de infecção por HPV. Exames ginecológicos regulares, como o preventivo e a colposcopia, ajudam a detectar lesões pré-cancerosas antes que virem câncer. Parar de fumar também reduz o risco.
O tratamento afeta a vida sexual?
Pode afetar, sim. Cirurgias que removem parte da vagina ou a radioterapia na região pélvica podem encurtar ou estreitar o canal vaginal, causando dor ou dificuldade na relação sexual. Mas existem técnicas de reabilitação, como o uso de dilatadores vaginais e fisioterapia pélvica, que ajudam a recuperar a função. Muitas mulheres conseguem manter uma vida sexual satisfatória após o tratamento, especialmente com acompanhamento adequado. Converse com seu médico sobre suas preocupações.
Há diferença entre câncer de vagina e câncer de vulva?
Sim, são doenças diferentes. O câncer de vagina ocorre dentro do canal vaginal. O câncer de vulva afeta a parte externa da genitália feminina (lábios, clitóris, abertura da vagina). Ambos


