sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Carcinoma de células escamosas

O que é O que é Carcinoma de células escamosas?

No meu dia a dia como clínico geral no SUS e em clínicas populares, atendo muitos pacientes com lesões de pele que, à primeira vista, parecem “uma casquinha” ou “uma ferida que não fecha”. Quando essa lesão endurece, sangra com facilidade e não cicatriza em semanas, um dos diagnósticos que precisamos considerar é o carcinoma de células escamosas (CCE) — também chamado de carcinoma espinocelular ou epidermoide. Trata-se do segundo tipo mais comum de câncer de pele no Brasil, responsável por cerca de 20% a 25% dos tumores cutâneos malignos. Ele se origina nas células escamosas, que formam a camada mais superficial da pele, e tem um comportamento mais agressivo que o carcinoma basocelular: pode crescer rapidamente, invadir tecidos vizinhos e até dar metástases.

O Brasil é um país tropical com alta exposição solar, o que coloca a população em risco. Dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer) mostram que o câncer de pele não melanoma (onde o CCE se inclui) é o mais frequente entre os brasileiros, com cerca de 180 mil novos casos por ano. A maioria dos pacientes que atendo são trabalhadores rurais, pescadores, pedreiros e pessoas que passaram a vida expostas ao sol sem proteção adequada. Além da radiação UV, outros fatores de risco comuns na nossa realidade são: cicatrizes antigas de queimadura, lesões crônicas (úlceras de perna), exposição a produtos químicos e infecção pelo HPV (em regiões genitais). No entanto, também vejo casos em pacientes com pele negra, principalmente em áreas de inflamação crônica ou em mucosas.

O carcinoma de células escamosas pode aparecer em qualquer parte do corpo, mas é mais frequente em áreas fotoexpostas: face, orelhas, lábio inferior, dorso das mãos, antebraços e couro cabeludo (em homens calvos). Na prática clínica, quando um paciente chega com uma “feridinha que não sara” há mais de quatro semanas, já acendo o alerta. A suspeita é confirmada por biópsia, procedimento acessível pelo SUS (Sistema Único de Saúde), e o tratamento precoce evita complicações graves.

Como funciona / Características

Imagine a pele como uma parede com várias camadas. As células escamosas estão na camada mais externa (epiderme) e vão se renovando naturalmente. No carcinoma de células escamosas, ocorre uma mutação no DNA dessas células, levando a um crescimento desordenado e descontrolado. A partir daí, forma-se um tumor que pode se apresentar de diferentes maneiras: uma placa áspera e avermelhada (semelhante a uma lixa), um nódulo endurecido, uma úlcera com bordas elevadas ou uma crosta que sangra ao toque.

No consultório, explico ao paciente usando uma analogia: “É como se uma fábrica dentro da sua pele recebesse uma ordem errada para produzir células sem parar, formando um ‘caroço’ que insiste em crescer”. Ao contrário de lesões benignas, como verrugas ou calos, o CCE não melhora com pomadas caseiras ou hidratação. O tumor pode invadir estruturas mais profundas (derme, gordura, músculo) e, se não for tratado, pode se espalhar para linfonodos regionais (ínguas) ou órgãos distantes — embora isso seja menos comum no início.

Uma característica importante que observo na rotina da clínica popular é que muitos pacientes negligenciam a lesão inicial por acharem que é “coisa de pele”, resultado de “bichinho” ou alergia. O tempo médio entre o aparecimento e a procura de atendimento no SUS pode variar de meses a mais de um ano. Por isso, na atenção primária, fazemos campanhas de conscientização e aproveitamos qualquer consulta para examinar a pele do paciente, principalmente de idosos e trabalhadores expostos ao sol.

Tipos e Classificações

Na prática brasileira, classificamos o carcinoma de células escamosas de acordo com sua localização, aspecto histológico e grau de diferenciação. As principais classificações usadas no SUS e nos laudos de patologia são:

  • CEC in situ (Doença de Bowen): também chamado de carcinoma escamoso intraepidérmico. É a forma inicial, confinada à camada mais superficial da pele. Aparece como uma placa vermelha e escamosa, bem delimitada. Se não tratada, pode evoluir para a forma invasiva.
  • CEC invasivo: quando o tumor ultrapassa a membrana basal da epiderme e invade a derme. Pode ser subclassificado em bem diferenciado, moderadamente diferenciado ou pouco diferenciado (quanto menos diferenciado, mais agressivo).
  • Carcinoma verrucoso: uma variante de crescimento lento, com aspecto de couve-flor, comum na planta do pé (verruga plantar-like) ou na mucosa oral. Tem baixo potencial de metástase, mas pode destruir tecidos localmente.
  • Classificação TNM (Tumor, Linfonodo, Metástase): utilizada para estadiamento. O T avalia o tamanho e a profundidade do tumor (T1 a T4), o N avalia comprometimento de linfonodos e o M a presença de metástases a distância. Essa classificação guia a conduta terapêutica e o prognóstico.

No contexto do SUS, o estadiamento é feito com exames de imagem (como ultrassom de linfonodos) e, em casos avançados, tomografia. A cirurgia é o tratamento de eleição para a maioria dos casos, sendo realizada em unidades de referência ou hospitais com serviço de dermatologia cirúrgica.

Quando procurar um médico

Na minha experiência clínica, muitos pacientes esperam a lesão “cair” ou “secar” sozinha. Por isso, reforço sempre os sinais de alerta. Você deve procurar um médico (de preferência dermatologista ou clínico geral na UBS) se apresentar:

  • Uma ferida que não cicatriza após 4 semanas;
  • Um nódulo que cresce progressivamente, mesmo que indolor;
  • Uma lesão que sangra com facilidade ao lavar ou passar roupa;
  • Uma placa áspera e avermelhada que não melhora com hidratantes;
  • Uma crosta que cai e volta a se formar no mesmo local;
  • Qualquer alteração em uma verruga ou pinta que já existia;
  • Lesão no lábio inferior que não sara (muito comum em fumantes e pessoas expostas ao sol).

Na atenção primária à saúde, a Unidade Básica de Saúde (UBS) é a porta de entrada. O médico da família pode fazer a suspeita clínica, solicitar biópsia (se houver disponibilidade) ou encaminhar para a dermatologia via regulação. O tempo de espera para consulta especializada varia conforme o município, mas o paciente com suspeita de câncer de pele tem prioridade (Lei dos 60 dias para início do tratamento oncológico).

Se você sentir uma íngua (carocinho) na axila, virilha ou pescoço perto da lesão, procure atendimento com urgência, pois pode indicar que o tumor já se espalhou para os linfonodos.

Termos Relacionados

  • Queratose actínica: lesão pré-maligna, áspera e escamosa, que pode evoluir para carcinoma de células escamosas se não tratada. Muito comum em trabalhadores rurais.
  • Carcinoma basocelular: outro tipo de câncer de pele, mais comum e menos agressivo que o CCE, com baixo risco de metástase.
  • Bópsia de pele: exame essencial para confirmar o diagnóstico. No SUS, é feita com anestesia local e encaminhada para análise patológica.
  • Metástase: disseminação do tumor para outras partes do corpo, como linfonodos, pulmões, fígado ou ossos.
  • Cirurgia micrográfica de Mohs: técnica de alta precisão para retirar o tumor camada por camada, indicada em casos de CCE em áreas de risco (face, orelhas). Não é amplamente disponível no SUS, mas existem serviços de referência.
  • HPV (Papilomavírus Humano): infecção viral associada ao CCE de mucosas (genital, oral) e também da pele. A vacinação contra HPV, disponível pelo SUS para meninos e meninas, ajuda na prevenção.
  • Radioterapia: tratamento adjuvante ou curativo para CCE em situações em que a cirurgia não é possível ou para evitar mutilações. Ofertada em hospitais credenciados pelo SUS.
  • Fotoproteção: medidas de proteção solar (protetor, chapéu, roupas) que previnem o aparecimento do carcinoma de células escamosas e de outras lesões de pele.

Perguntas Frequentes sobre O que é Carcinoma de células escamosas

1. Carcinoma de células escamosas tem cura?

Sim, na grande maioria dos casos, especialmente quando diagnosticado e tratado precocemente. A cirurgia para remoção completa do tumor é curativa em mais de 90% dos casos de CCE inicial. Mesmo em estágios mais avançados, com tratamento adequado (cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou imunoterapia), muitos pacientes alcançam controle da doença. Aqui no SUS, temos acesso a tratamentos oncológicos em hospitais de referência, e o diagnóstico precoce faz toda a diferença.

2. Como diferenciar Carcinoma de células escamosas de uma espinha ou ferida comum?

Uma espinha ou ferida comum geralmente melhora em alguns dias ou semanas. O carcinoma de células escamosas persiste por mais de um mês, tende a crescer, sangrar facilmente e formar crostas que caem e voltam. É comum o paciente dizer: “É uma casquinha que não sara”. Se você tem uma lesão que não cicatriza há mais de 4 semanas, procure um médico para avaliação. Não se automedique com pomadas antibióticas ou cortisona, pois podem mascarar o aspecto da lesão.

3. O tratamento pelo SUS é demorado? Quanto tempo leva para iniciar?

A Lei 12.732/2012 (Lei dos 60 dias) determina que o paciente com diagnóstico de cân


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