sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Carcinoma de células transicionais

O que é Carcinoma de células transicionais?

No meu dia a dia no SUS, atendo muitos pacientes que chegam com o mesmo relato: “Doutor, minha urina está com sangue, mas não dói”. Esse é um dos sinais mais clássicos do carcinoma de células transicionais (CCT), um tipo de câncer que começa nas células que revestem o interior da bexiga, dos ureteres e da pelve renal — o chamado urotélio. Na prática clínica, costumo explicar que o CCT é o tipo mais comum de câncer de bexiga, responsável por cerca de 90% dos casos. Não é um tumor raro, e no Brasil ele ocupa uma posição relevante: segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de bexiga é o 7º mais frequente em homens e o 16º em mulheres, com uma estimativa de mais de 11 mil novos casos por ano. A grande maioria é exatamente esse subtipo de células transicionais.

A palavra “transicionais” vem do fato de essas células se adaptarem conforme a distensão da bexiga — elas mudam de forma, de planas para cúbicas, quando o órgão enche e esvazia. Quando viram câncer, perdem essa capacidade de controle e começam a se multiplicar desordenadamente. Nas clínicas populares de Fortaleza, vejo muitos pacientes que, por falta de acesso, chegam com tumores já avançados. Por isso, gosto de reforçar que carcinoma de células transicionais é uma doença que, se diagnosticada cedo, tem altíssima chance de cura. O grande desafio do SUS é justamente encurtar o tempo entre o primeiro sintoma — geralmente sangue na urina — e a confirmação por cistoscopia, que é o exame padrão-ouro.

O principal fator de risco que encontro nos consultórios é o tabagismo: fumantes têm até 4 vezes mais chance de desenvolver esse câncer. Também vejo casos relacionados à exposição ocupacional a substâncias químicas, como os trabalhadores da indústria de tintas, borracha e couro — uma realidade nas zonas industriais de cidades como Fortaleza. A ANVISA regula a exposição a essas substâncias, mas na prática, muitos trabalhadores não têm acesso a exames preventivos periódicos. Por tudo isso, o carcinoma de células transicionais é um diagnóstico que todo clínico geral precisa ter na ponta da língua.

Como funciona / Características

Para entender como esse câncer se comporta, imagino que o paciente está ouvindo a explicação: “Imagine que a parede da sua bexiga é como um revestimento de azulejos. Cada azulejo é uma célula transicional. Quando surge um tumor, alguns azulejos começam a crescer para dentro do órgão, formando uma verruguinha (forma papilar), ou simplesmente viram uma mancha mais achatada, mas igualmente perigosa.” O CCT pode ser superficial (só na camada mais interna) ou invasivo (atinge camadas mais profundas e até outros órgãos). Na minha experiência, os tumores superficiais são os mais comuns — cerca de 70-80% — e podem ser tratados com cirurgia por dentro da bexiga, sem cortes externos, o que chamamos de ressecção transuretral.

Os sintomas mais frequentes são bem diretos: hematúria (sangue na urina, que pode ser visível a olho nu ou detectada só em exame de urina), urgência e frequência urinária, dor ao urinar e, em casos avançados, dor na região lombar ou perda de peso. Um detalhe que sempre enfatizo: se o paciente urina sangue uma vez e depois passa semanas sem nada, não pensa que está curado. O sangramento pode ser intermitente, mas o tumor continua crescendo. Já atendi um homem de 58 anos, motorista de caminhão, que ignorou urina avermelhada por 4 meses porque “não doía”. Quando veio, o tumor já tinha invadido a parede muscular da bexiga. O tratamento ficou muito mais agressivo.

Na rotina da clínica popular, quando suspeito de CCT, solicito o exame de urina (urina tipo 1) e a citologia urinária (procura por células cancerosas na urina). Se houver alterações, encaminho para a urologia do SUS ou do posto de referência. O tempo médio de espera para uma cistoscopia pode variar de 2 a 6 meses dependendo da região, mas nos casos com hematúria franca, costumo tentar priorização via regulação. O diagnóstico precoce é a chave para evitar cirurgias mutilantes, como a retirada total da bexiga.

Tipos e Classificações

No Brasil, seguimos a classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e o sistema de estadiamento TNM, que é usado pelo INCA e pelo Ministério da Saúde para definir o tratamento. Explico para os pacientes de forma simples:

  • Carcinoma papilar superficial (baixo grau): cresce como uma pequena projeção, geralmente não invade camadas profundas. É o mais comum e tem bom prognóstico.
  • Carcinoma papilar de alto grau: as células são mais agressivas, com maior risco de invasão e recidiva.
  • Carcinoma in situ (CIS): não forma uma massa, mas é uma lesão plana e muito agressiva. Muitas vezes não causa sangramento, mas pode evoluir para câncer invasivo. É uma das formas que mais vejo em pacientes com histórico de tabagismo pesado.
  • Carcinoma invasivo: quando o tumor ultrapassa a camada mucosa e atinge o músculo da bexiga. Aí o tratamento muda: pode exigir quimioterapia e retirada total da bexiga.

O estadiamento TNM (Tumor, Nódulo, Metástase) é adotado pela Sociedade Brasileira de Urologia e pelo CFM. Em resumo: T0 (sem tumor residual) até T4 (invasão de órgãos vizinhos). N indica se há linfonodos comprometidos, e M se há metástases. Esse sistema define se o paciente vai precisar de cirurgia mínima (RTU), quimioterapia intravesical (BCG, por exemplo), ou tratamentos mais pesados como cistectomia radical. A BCG é um imunoterápico aprovado pela ANVISA e distribuído pelo SUS para casos de CCT de alto grau e carcinoma in situ.

Quando procurar um médico

O alerta número um é: sangue na urina, mesmo que uma única vez ou em quantidade pequena. Muitos pacientes acham que é infecção urinária e tratam em casa com chás ou antibióticos comprados na farmácia. Mas sem exame, não dá para descartar câncer. Na minha prática, também oriento procurar atendimento se houver:

  • Dor ou ardência ao urinar que não melhora com tratamento comum.
  • Vontade de urinar com frequência, inclusive à noite, sem causa aparente.
  • Perda de peso sem motivo, cansaço, anemia (palidez).
  • Dor na região lombar ou pélvica persistente.

No SUS, a porta de entrada é a UBS (Unidade Básica de Saúde). O clínico geral faz a suspeita, solicita exames iniciais e encaminha para a urologia. Se houver histórico familiar de câncer de bexiga, exposição a produtos químicos ou tabagismo ativo, a atenção deve ser redobrada. Muitas vezes o paciente demora a procurar ajuda por medo ou por não ter acesso — então, se você está sentindo algum desses sintomas, não espere. O diagnóstico precoce salva a bexiga e a vida.

Termos Relacionados

  • Urotélio: camada de células que reveste a bexiga, ureteres e parte dos rins. É onde o carcinoma de células transicionais se origina.
  • Hematúria: presença de sangue na urina, o sintoma mais comum e precoce do CCT. Pode ser visível (macrohematúria) ou microscópica.
  • Cistoscopia: exame com uma câmera inserida pela uretra para visualizar o interior da bexiga. É o padrão-ouro para diagnosticar o CCT.
  • Estadiamento TNM: sistema de classificação usado no Brasil (pelo INCA e CFM) para descrever o tamanho do tumor (T), comprometimento de linfonodos (N) e presença de metástases (M).
  • BCG intravesical: imunoterapia aplicada diretamente na bexiga, geralmente após ressecção de tumores superficiais de alto grau ou carcinoma in situ. Distribuída pelo SUS.
  • Carcinoma in situ (CIS): lesão plana, não visível em exames de imagem, mas muito agressiva. Exige tratamento imediato para evitar progressão.
  • Ressecção transuretral (RTU): procedimento cirúrgico minimamente invasivo para retirar o tumor pela uretra. É o primeiro tratamento para tumores superficiais.
  • Ureter: canal que leva a urina do rim para a bexiga. O CCT também pode surgir nesse local, embora seja mais raro.

Perguntas Frequentes sobre O que é Carcinoma de células transicionais

1. Carcinoma de células transicionais tem cura?

Sim, tem cura, especialmente quando descoberto nas fases iniciais. Os tumores superficiais (que não invadem o músculo) podem ser completamente retirados por cirurgia endoscópica, e muitos pacientes ficam curados. Mesmo os tumores invasivos podem ter bom controle com tratamento combinado (quimioterapia, cirurgia, radioterapia). O segredo é não ignorar os sinais. No SUS, quando o diagnóstico é precoce, as chances de cura chegam a mais de 90%. Por isso, se você notou sangue na urina, procure logo a UBS mais próxima.

2. Quais são os fatores de risco mais comuns no Brasil?

O principal é o tabagismo. Fumantes têm risco muito maior, e o cigarro está presente em mais da metade dos casos que atendo. Outros fatores: exposição a produtos químicos (tintas, borracha, couro, petróleo), infecções urinárias crônicas, uso prolongado de sonda vesical e, em algumas regiões, a esquistossomose (mais comum no Nordeste rural). A obesidade e o sedentarismo também podem contribuir. No Brasil, o INCA estima que os casos aumentam com a idade, principalmente a partir dos 50 anos, e são duas vezes mais frequentes em homens.

3. Como é feito o tratamento no SUS?

No SUS, o tratamento segue protocolos baseados no estadiamento. Para tum


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