O que é Carcinoma lobular?
O carcinoma lobular é um tipo de câncer de mama que se origina nos lóbulos mamários, as estruturas responsáveis pela produção de leite. Diferente do tipo mais comum, o carcinoma ductal, que nasce nos ductos (canais que levam o leite ao mamilo), o carcinoma lobular tem características próprias que o tornam um desafio tanto no diagnóstico quanto no tratamento. Na prática clínica do SUS e de clínicas populares, atendo muitas mulheres que chegam com um “espessamento” na mama, mas sem um nódulo definido – muitas vezes após meses de incômodo, porque o carcinoma lobular não forma aquela “caroço” clássico que a maioria das pacientes aprendeu a palpar.
Epidemiologicamente, o carcinoma lobular invasivo corresponde a cerca de 10% a 15% de todos os cânceres de mama diagnosticados no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). A idade média de diagnóstico é ligeiramente maior que a do carcinoma ductal, concentrando-se a partir dos 50 anos, mas também pode ocorrer em mulheres mais jovens. No contexto brasileiro, onde o acesso à mamografia ainda é desigual entre regiões, o carcinoma lobular tende a ser detectado em estágios mais avançados, o que reforça a importância do exame clínico das mamas feito por profissionais de saúde treinados na Atenção Básica.
Outra particularidade relevante para o dia a dia das clínicas populares é que o carcinoma lobular tem maior propensão a ser multifocal (vários focos na mesma mama) e bilateral (atingir as duas mamas) do que o carcinoma ductal. Isso exige uma abordagem mais cautelosa no planejamento cirúrgico e no seguimento. A ANVISA regulamenta os equipamentos de imagem e a qualidade dos serviços de mamografia, mas na rotina do SUS muitas pacientes dependem de biópsias guiadas por ultrassom, que têm boa acurácia para esse tipo de tumor quando realizadas por profissionais experientes.
Como funciona / Características
O carcinoma lobular cresce de uma maneira peculiar: suas células tendem a se infiltrar no tecido mamário em fileiras ordenadas, um padrão que os patologistas chamam de “células em fileira indiana” (ou growth pattern em cordão). Esse crescimento faz com que o tumor não forme um nódulo bem delimitado, mas sim uma área endurecida e difusa. Na prática, isso significa que a paciente pode notar apenas um “peso” ou uma “área mais firme” na mama, sem conseguir apontar um caroço. Muitas vezes, a primeira suspeita vem do parceiro ou da própria mulher durante o autoexame, mas o achado é vago.
Em exames de imagem, a mamografia pode deixar passar o carcinoma lobular, especialmente em mamas densas (comum em mulheres jovens ou na pré-menopausa). O tumor aparece como uma distorção da arquitetura mamária ou uma assimetria focal, mas não como uma estrela ou massa calcificada. Por isso, o ultrassom e a ressonância magnética são ferramentas importantes quando há suspeita clínica forte. Na minha experiência nas clínicas populares, uma paciente com história de mama “estranha” ao toque e mamografia normal precisa ser encaminhada com urgência para um serviço de mastologia para biópsia por agulha grossa (core biopsy) – exame que, no SUS, pode levar semanas, mas é essencial para confirmar o diagnóstico.
Além disso, o carcinoma lobular tem uma característica biológica importante: na maioria dos casos, as células tumorais expressam receptores de estrogênio e progesterona (são hormônio-dependentes) e raramente expressam a proteína HER2 ou têm alta taxa de proliferação (Ki-67 baixo). Isso significa que o tratamento hormonal (como tamoxifeno ou inibidores de aromatase) tem grande eficácia, mas também que o tumor pode crescer de forma mais lenta – o que não diminui o risco, pois sua capacidade de metástase para locais atípicos (como peritônio, trato gastrointestinal e meninges) é maior que a do carcinoma ductal.
Tipos e Classificações
O termo carcinoma lobular abrange duas categorias principais, que são distinguidas pela presença ou não de invasão:
- Carcinoma lobular in situ (CLIS): as células anormais estão contidas dentro dos lóbulos, sem atravessar a membrana basal. Não é considerado um câncer invasivo, mas um marcador de risco aumentado para desenvolver câncer de mama no futuro (tanto nas mamas ipsilateral quanto contralateral). No Brasil, o CLIS é frequentemente um achado incidental em biópsias feitas por outros motivos.
- Carcinoma lobular invasivo (CLI): as células já ultrapassaram as paredes dos lóbulos e invadiram o tecido mamário adjacente. É o verdadeiro câncer e pode dar metástases. O CLI é subclassificado em subtipos histológicos: clássico (o mais comum), sólido, alveolar, pleomórfico (mais agressivo) e misto. Na prática dos serviços públicos brasileiros, a classificação imuno-histoquímica é a que mais orienta o tratamento: luminal A (RH+, HER2-, Ki-67 baixo), luminal B (RH+, HER2 ±, Ki-67 alto), triplo-negativo (raro) e HER2 superexpresso (muito raro no lobular).
O Ministério da Saúde recomenda que todas as lesões suspeitas sejam classificadas pelo sistema BIRADS (Breast Imaging Reporting and Data System), que vai de 0 a 6. Carcinoma lobular invasivo geralmente se enquadra em BIRADS 4 (suspeito) ou 5 (altamente suspeito), mas, como mencionei, pode escapar em BIRADS 2 ou 3 quando a imagem é sutil. Por isso, a classificação final depende da biópsia.
Quando procurar um médico
Todo sinal de alteração nas mamas merece atenção médica. No caso do carcinoma lobular, os sinais de alerta são menos evidentes, mas incluem:
- Área endurecida, espessamento ou “peso” localizado em uma região da mama que persiste por mais de um ciclo menstrual.
- Retração (afundamento) do mamilo ou da pele – o famoso “casca de laranja”.
- Assimetria entre as mamas que aparece ou piora.
- Secreção pelo mamilo, especialmente se for espontânea, unilateral e clara ou sanguinolenta.
- Nódulo palpável (menos comum, mas pode ocorrer em subtipos mais agressivos).
- História familiar forte de câncer de mama (mãe, irmã, filha) ou mutação genética conhecida (BRCA1/2, CDH1 – este último associado ao carcinoma lobular difuso).
No SUS, a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS). O médico da família ou ginecologista faz o exame clínico das mamas e, se houver suspeita, encaminha para o mastologista ou para serviços de imagem. Não é necessário esperar sentir dor – o carcinoma lobular muitas vezes é indolor. A recomendação do Ministério da Saúde é que mulheres de 50 a 69 anos façam mamografia a cada dois anos, mas na suspeita clínica, qualquer idade pode precisar de investigação.
Termos Relacionados
- Carcinoma ductal invasivo: tipo mais comum de câncer de mama (cerca de 70-80%), originado nos ductos. Tem comportamento e prognóstico ligeiramente diferentes do lobular.
- Carcinoma lobular in situ (CLIS): lesão pré-maligna que não invade tecidos vizinhos, mas aumenta o risco de câncer futuro. Não requer tratamento cirúrgico imediato, mas sim seguimento rigoroso.
- Lóbulo mamário: estrutura glandular produtora de leite, composta por ácinos. É onde o carcinoma lobular tem início.
- Mama densa: condição radiográfica em que o tecido glandular predomina sobre o tecido gorduroso. Dificulta a detecção de tumores na mamografia, especialmente o carcinoma lobular.
- Core biopsy: biópsia por agulha grossa que retira fragmentos do tecido suspeito para análise patológica. É o padrão-ouro para diagnóstico do carcinoma lobular no SUS.
- Imuno-histoquímica: exame laboratorial que identifica proteínas nas células tumorais (receptores hormonais, HER2, Ki-67). Essencial para definir o tratamento sistêmico.
- Hormonioterapia: tratamento que bloqueia a ação dos hormônios (estrogênio e progesterona) no crescimento do tumor. Muito eficaz no carcinoma lobular luminal
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