sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Carnitina

O que é Carnitina?

Você já ouviu falar em Carnitina? No meu consultório, atendo pelo menos dois ou três pacientes por semana que chegam com essa palavra na ponta da língua. “Doutor, será que tomar carnitina vai me dar mais energia?”, “Li na internet que carnitina emagrece, é verdade?”. A Carnitina é um dos suplementos mais populares nas prateleiras de farmácias e lojas de produtos naturais do Brasil. Muita gente acredita que ela é um “queimador de gordura” milagroso, mas a realidade clínica é bem diferente.

Do ponto de vista bioquímico, a Carnitina é uma amina quaternária (derivada de aminoácidos) que o nosso próprio organismo consegue produzir, principalmente no fígado e nos rins, a partir de dois aminoácidos essenciais: a lisina e a metionina. Para essa produção acontecer direitinho, o corpo precisa de vitamina C, ferro, niacina (vitamina B3) e vitamina B6. Mas a maior parte da carnitina que usamos vem da alimentação — especialmente de carnes vermelhas, aves, peixes e laticínios. Quem segue uma dieta vegana ou vegetariana estrita, por exemplo, costuma ter níveis mais baixos, mas raramente apresenta deficiência porque o organismo se adapta.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) regulamenta a venda de suplementos de L-carnitina como suplemento alimentar, mas não como medicamento para emagrecimento. No Sistema Único de Saúde (SUS), a L-carnitina está disponível na rede de medicamentos especializados para o tratamento de casos diagnosticados de deficiência primária ou secundária — uma situação bem mais rara do que a maioria imagina. Segundo dados do Ministério da Saúde, a deficiência primária de carnitina (doença genética) é detectada em cerca de 1 a cada 40 mil nascidos vivos na triagem neonatal (teste do pezinho) ampliada, disponível em alguns estados brasileiros. Já a deficiência secundária, que pode surgir em doenças renais crônicas, uso de medicamentos como ácido valproico ou desnutrição grave, é mais frequente nas emergências e ambulatórios do SUS, mas ainda assim não justifica o uso generalizado de suplementos.

Como funciona / Características

Imagine a Carnitina como um “caminhão de transporte” dentro das suas células. Ela pega os ácidos graxos (gorduras) que estão soltos no citoplasma e os leva para dentro da mitocôndria — a famosa “usina de energia” da célula. Lá dentro, essas gorduras são quebradas e transformadas em ATP (a moeda energética do corpo). Sem carnitina suficiente, as gorduras não conseguem entrar na mitocôndria e acabam se acumulando, enquanto o organismo precisa usar carboidratos como combustível, o que pode levar a fadiga, fraqueza muscular e até hipoglicemia.

No dia a dia de uma clínica popular, o que vejo na prática é o seguinte: pacientes com fadiga crônica, fibromialgia ou doença renal crônica (especialmente os que fazem hemodiálise) podem apresentar níveis baixos de Carnitina. Estudos mostram que até 60% dos pacientes em hemodiálise no Brasil têm deficiência de carnitina, o que contribui para anemia, fraqueza muscular e intolerância ao exercício. Nesses casos, a suplementação prescrita pelo médico pode trazer benefícios reais. Já para o indivíduo saudável que quer perder peso ou melhorar o rendimento nos treinos, as evidências científicas são fracas. A ANVISA não reconhece a carnitina como termogênico ou queimador de gordura, e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) recomenda cautela: a suplementação só é indicada quando há deficiência comprovada ou em situações clínicas específicas.

Outra característica importante: a Carnitina existe em duas formas principais — a L-carnitina (biologicamente ativa e segura) e a D-carnitina (que é tóxica e não deve ser consumida). Por isso, todo suplemento vendido no Brasil deve conter apenas a forma L. Além disso, existem variantes como a acetil-L-carnitina (que atravessa a barreira hematoencefálica e é estudada para funções cognitivas) e a propionil-L-carnitina (com ação mais direcionada ao coração e aos vasos sanguíneos). Mas esses são usos mais específicos, com prescrição médica.

Tipos e Classificações

Na prática clínica brasileira, classificamos a Carnitina de duas maneiras:

  • Quanto à forma química:
    • L-Carnitina: forma natural e ativa, presente nos suplementos e nos alimentos.
    • Acetil-L-Carnitina (ALCAR): forma modificada que chega mais facilmente ao cérebro; usada em estudos sobre neuropatia, envelhecimento e fadiga mental.
    • Propionil-L-Carnitina: com afinidade por músculo cardíaco e vasos; indicada às vezes para doença arterial periférica e insuficiência cardíaca.
    • D-Carnitina: forma sintética, sem atividade biológica e potencialmente tóxica — proibida em suplementos no Brasil pela ANVISA.
  • Quanto à deficiência (classificação clínica):
    • Deficiência primária de carnitina: doença genética autossômica recessiva, causada por mutação no gene SLC22A5, que prejudica o transporte de carnitina para dentro das células. Os sintomas aparecem na infância ou adolescência: cardiomiopatia, fraqueza muscular, hipoglicemia hipocetótica e encefalopatia. O tratamento é feito com L-carnitina em altas doses, fornecida pelo SUS através do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica.
    • Deficiência secundária de carnitina: mais comum, causada por outras doenças (insuficiência renal, cirrose, doenças mitocondriais), uso de medicamentos (ácido valproico, zidovudina, cetogênese excessiva) ou desnutrição. O tratamento depende da causa base.

No Brasil, a triagem neonatal (teste do pezinho) do SUS inclui a detecção de deficiência primária de carnitina em sua versão ampliada, disponível em mais de 20 estados. O diagnóstico precoce evita complicações graves e óbitos.

Quando procurar um médico

Muitos pacientes me perguntam se devem tomar Carnitina por conta própria. Minha orientação, como clínico com anos de experiência no SUS, é clara: não faça isso sem avaliação médica. A suplementação desnecessária pode causar efeitos colaterais como diarreia, náuseas, cólicas abdominais e, em altas doses, um odor desagradável de peixe no suor e na urina (devido à trimetilamina). Mas existem situações em que você deve procurar um médico para investigar se há deficiência de carnitina:

  • Fraqueza muscular progressiva sem causa aparente, especialmente em crianças ou jovens.
  • Hipoglicemia recorrente (nível baixo de açúcar no sangue) com sintomas como tontura, suor frio, confusão mental, principalmente após jejum prolongado.
  • Cardiomiopatia (coração fraco) diagnosticada sem explicação clara, em paciente jovem.
  • Encefalopatia metabólica (confusão mental, letargia, crises convulsivas) associada a doenças metabólicas.
  • Pacientes em hemodiálise ou com doença renal crônica avançada que