O que é Catarata?
Durante os meus 15 anos de atendimento no SUS e em clínicas populares, poucas palavras geram tanta apreensão quanto “catarata”. Muitos pacientes chegam com os olhos apertados, reclamando que “a vista está embaçada como se tivesse uma cortina” ou que “precisa trocar os óculos a cada três meses”. Catarata é o nome que damos à perda da transparência natural do cristalino — aquela lente interna do olho que fica logo atrás da íris (a parte colorida). Quando o cristalino fica opaco, a luz não consegue passar direito, e a visão vai ficando como se olhássemos por um vidro fosco ou por um plástico leitoso.
No Brasil, a catarata é uma das condições mais comuns que acompanho, especialmente em pacientes acima dos 60 anos. Segundo dados do Ministério da Saúde, estima-se que cerca de 1,5 milhão de brasileiros tenham catarata em algum grau, e a doença é a principal causa de cegueira reversível no país. O SUS realiza aproximadamente 600 mil cirurgias de catarata por ano, o que mostra o tamanho do desafio — e da oportunidade de devolver a visão. Em clínicas populares, a fila de espera costuma ser menor que no sistema público, e muitos pacientes vêm com medo, pois associam “cirurgia no olho” a algo perigoso. Aos poucos, com informação, a adesão melhora.
É importante deixar claro: catarata não é “casca” que cresce no olho, como alguns ainda pensam — é o próprio cristalino que fica opaco. E, ao contrário de mitos antigos, não é causada por “ver televisão demais” ou “ler em quarto escuro”. A principal causa é o envelhecimento natural, e isso é algo que vai acontecer com quase todo mundo, mais cedo ou mais tarde.
Como funciona / Características
Imagine que o cristalino saudável é como a lente de uma câmera nova: totalmente transparente, flexível, capaz de focar objetos próximos e distantes com rapidez. Na catarata, essa lente vai perdendo transparência aos poucos, como um vidro que embaça com vapor. O processo é gradual e indolor, mas tem um impacto enorme na qualidade de vida.
No meu consultório, escuto relatos clássicos:
- “Doutor, parece que tem um véu na minha frente.” – A visão fica embaçada, como se houvesse uma névoa.
- “Não consigo dirigir à noite, os faróis vêm com aqueles raios.” – A luz se espalha dentro do olho, criando halos e ofuscamento.
- “Preciso trocar o grau dos óculos toda hora.” – A catarata pode causar um aumento temporário de miopia, mas é instável.
- “As cores parecem desbotadas.” – A opacificação reduz a percepção de contraste e saturação.
Na prática, a característica mais marcante é que a perda visual é progressiva, mas não dolorosa. Muitos pacientes idosos demoram a procurar ajuda porque acham que “é normal da idade”. Porém, a diferença entre o envelhecimento saudável da visão (presbiopia, por exemplo) e a catarata é que esta última não melhora com óculos — só piora.
Em estágios avançados, o cristalino pode ficar completamente opaco (branco leitoso), impedindo até mesmo a passagem de luz. Nesse ponto, a pessoa só percebe vultos. Felizmente, com a cirurgia moderna, a recuperação é rápida e a visão volta a ser nítida.
Tipos e Classificações
Na prática clínica, classificamos a catarata de acordo com a causa e a localização da opacificação. As principais que encontro no dia a dia são:
- Catarata senil (ou relacionada à idade): a mais comum, responsável por mais de 90% dos casos. Surge a partir dos 50-60 anos, como parte do envelhecimento natural do cristalino.
- Catarata congênita: presente ao nascimento ou nos primeiros anos de vida. Pode ser hereditária ou associada a infecções durante a gestação (rubéola, toxoplasmose). O SUS faz o teste do olhinho (teste do reflexo vermelho) para detectar precocemente.
- Catarata traumática: após pancada, acidente ou perfuração ocular. É mais comum em homens jovens, muitas vezes associada a acidentes de trabalho ou esportes de contato. No Brasil, a Norma Regulamentadora (NR) do Ministério do Trabalho exige uso de EPI para prevenção.
- Catarata secundária: resultado de outras doenças ou medicamentos. Diabetes mal controlado é a principal causa, pois o excesso de glicose altera a estrutura do cristalino. Uso prolongado de corticoides (para artrite, asma ou dermatites) também pode desencadear. Em clínicas populares, vejo muitos pacientes diabéticos com catarata precoce.
Quanto à localização, os oftalmologistas usam termos como catarata nuclear (no centro do cristalino), cortical (nas bordas) e subcapsular posterior (na parte de trás). Para o paciente, o importante é saber que a causa não muda o tratamento: a cirurgia é a única cura. Mas identificar o tipo ajuda a prever a velocidade de evolução e os sintomas mais prevalentes.
Quando procurar um médico
Muitas pessoas me perguntam: “Doutor, como saber se é hora de procurar ajuda?” A resposta é simples: perceba as mudanças na sua visão. Procure um clínico geral ou oftalmologista se você apresentar um ou mais dos seguintes sinais:
- Visão embaçada ou turva, como se houvesse uma névoa que não sai com piscar ou coçar os olhos.
- Dificuldade para enxergar à noite, especialmente com faróis de carro ou luzes de rua.
- Halos ou “raios” ao redor de luzes (lâmpadas, faróis).
- Mudança frequente no grau dos óculos – você precisa de uma receita nova a cada três a seis meses.
- Sensação de que as cores estão desbotadas ou amareladas.
- Visão dupla em um olho (diplopia monocular).
- Dificuldade para ler, costurar ou fazer tarefas que exigem detalhes.
Importante: catarata não dói. Se houver dor intensa, vermelhidão, náuseas ou perda súbita da visão, pode ser outro problema (como glaucoma agudo) e aí é emergência. Em consultas de rotina, faço sempre o exame de fundo de olho com lâmpada de fenda e oriento o paciente sobre a necessidade de encaminhamento ao oftalmologista quando os sintomas começam a atrapalhar atividades diárias.
Termos Relacionados
- Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) – entidade que rege a prática oftalmológica no Brasil e publica diretrizes sobre catarata.
- Facoemulsificação – técnica cirúrgica mais usada, na qual o cristalino opaco é fragmentado por ultrassom e aspirado, substituído por uma lente artificial.
- Lente Intraocular (LIO) – lente artificial implantada no olho após a remoção da catarata, que permanece definitivamente.
- Opacificação do cristalino – termo técnico para o processo de perda de transparência que define a catarata.
- Acuidade visual – medida da nitidez da visão; o teste mais comum na consulta (tabela de Snellen).
- Teste do olhinho (reflexo vermelho) – exame realizado em recém-nascidos, obrigatório no Brasil, para detectar catarata congênita e outras doenças oculares.
- Cirurgia de catarata – único tratamento curativo, recomendado quando a perda visual compromete a qualidade de vida.
Perguntas Frequentes sobre O que é Catarata
A catarata pode ser curada sem cirurgia?
Não. Infelizmente, nenhum colírio, comprimido ou exercício ocular consegue reverter a opacificação do cristalino. A única cura comprovada é a cirurgia de catarata. Muitos pacientes chegam com esperança em tratamentos alternativos, mas preciso ser honesto: perda de tempo e dinheiro. Quanto antes você fizer a cirurgia depois que os sintomas atrapalham, melhor o resultado.
Como é a cirurgia de catarata? Dói?
A cirurgia é rápida (20 a 30 minutos) e feita com anestesia local — você fica acordado, mas não sente dor. Usamos colírios anestésicos e sedação leve. O cristalino opaco é removido por ultrassom (facoemulsificação) e substituído por uma lente artificial. O paciente vai para casa no mesmo dia. No SUS, a recuperação é gratuita, com retornos agendados. A grande maioria relata melhora imediata no dia seguinte.
Quanto tempo de recuperação? Posso voltar a trabalhar logo?
O período de repouso é curto. Normalmente, o médico orienta evitar esforço físico, coçar os olhos e proteger com óculos escuros por cerca de uma semana. Atividades leves, como ler e ver TV, já são possíveis no dia seguinte. Trabalhos de escritório podem ser retomados em 2 a 3 dias. Serviços mais pesados (construção, limpeza intensa) exigem de 2 a 4 semanas de afastamento. O SUS fornece atestado médico.
A catarata volta depois da cirurgia?
Não, após a retirada do cristalino natural e implantação da lente artificial, não há “catarata secundária” no mesmo local. Porém, em até 20% dos pacientes, a fina membrana que segura a lente (cápsula posterior) pode ficar opaca meses ou anos depois, causando sintomas parecidos. Isso chamamos de catarata secundária ou opacificação capsular posterior. O tratamento é simples: um laser ambulatorial (YAG), indolor, que abre a cápsula. Isso não significa que a catarata “voltou”.
O SUS cobre a cirurgia de catarata? Tem fila?
Sim, o SUS cobre integralmente a consulta, exames, cirurgia e lente intraocular básica. Não há custo para o paciente. Infelizmente, a fila de espera pode ser longa em algumas regiões, variando de 3 meses a 2 anos, dependendo do município. Em clínicas populares, o valor da cirurgia costuma ser acessível (parcelado), e a fila é de dias a semanas. O importante é não adiar: quanto mais tempo a catarata fica sem tratamento, maior a chance de complicações (como glaucoma facogênico).
Posso prevenir a catarata com alimentação ou óculos de sol?
Embora não haja prevenção garantida, estudos mostram que uma dieta rica em antioxidantes (vitaminas C e E, luteína – encontrada em couve, espinafre, ovos) e o uso de óculos escuros com proteção UV podem atrasar o surgimento da catarata senil. Parar de fumar e controlar diabetes também são medidas fundamentais. Mas lembre-se: mesmo com todos os cuidados, a maioria das pessoas desenvolverá catarata depois dos 70 anos – é parte


