sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Celulite

O que é O que é Celulite?

No dia a dia de um clínico geral que atende no SUS ou em clínicas populares brasileiras, a palavra “celulite” gera uma confusão quase diária. Grande parte dos pacientes chega ao consultório apontando furinhos nas coxas ou no bumbum e pergunta: “Doutor, o que é celulite? Tem cura?”. Mas, na medicina, celulite é o nome de uma infecção bacteriana aguda da pele e do tecido subcutâneo — e não aquela condição estética que causa ondulações. Essa diferença é fundamental para o diagnóstico correto e para evitar tratamentos inadequados.

A celulite infecciosa ocorre quando bactérias, principalmente Streptococcus pyogenes e Staphylococcus aureus, entram por alguma brecha na pele — um machucado pequeno, uma picada de inseto, uma ferida cirúrgica ou até mesmo uma micose entre os dedos dos pés. A infecção se espalha pelo tecido gorduroso logo abaixo da pele, causando vermelhidão, calor, inchaço e dor intensa. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que as infecções de pele e tecidos moles representam cerca de 10% das internações por causas infecciosas no SUS, sendo a celulite uma das principais responsáveis, especialmente em pacientes com diabetes, obesidade ou insuficiência venosa crônica.

Já a condição popularmente chamada de “celulite” — aquela com aspecto de casca de laranja — tem o nome médico correto de fibroedema gelóide ou lipodistrofia ginecóide. Não é uma infecção, não tem relação com bactérias e não oferece risco à saúde, embora cause incômodo estético. Neste verbete, vamos focar principalmente na celulite infecciosa, que é a que exige atenção médica urgente, mas também explicaremos a diferença entre as duas para que você não se confunda na hora de buscar ajuda.

Como funciona / Características

Imagine que a sua pele é uma barreira protetora. Quando ela se rompe, mesmo que por um arranhão quase invisível, as bactérias que vivem na superfície podem entrar e começar a se multiplicar no tecido gorduroso. O sistema imunológico reage enviando células de defesa para o local, o que gera os sintomas clássicos: rubor (vermelhidão), calor, edema (inchaço) e dor. A área afetada geralmente tem bordas mal definidas — diferente da erisipela, que apresenta uma “crista” bem nítida entre a pele saudável e a infectada.

No cotidiano de uma clínica popular, é comum atender pacientes que chegam com a perna vermelha e dolorida, relatando que “ontem estava bem, mas hoje acordou inchada e quente”. Muitos já tentaram passar pomada caseira ou tomar anti-inflamatório por conta própria, o que pode piorar o quadro. A celulite pode surgir em qualquer parte do corpo, mas é mais frequente nas pernas (devido à má circulação e a pequenos traumas) e no rosto (especialmente em crianças, a chamada celulite periorbitária, que exige tratamento hospitalar).

Se não for tratada adequadamente com antibióticos, a infecção pode se espalhar para a corrente sanguínea (sepse) ou evoluir para complicações graves como abscesso, necrose ou fasciíte necrosante — uma emergência cirúrgica. Por isso, ao menor sinal de infecção, é essencial procurar uma unidade de saúde. No SUS, o tratamento é gratuito e inclui antibióticos orais ou intravenosos, dependendo da gravidade.

Tipos e Classificações

Na prática clínica brasileira, a celulite infecciosa é classificada de acordo com a gravidade e a localização. A classificação mais usada nos prontos-socorros é a de Eron (2003), que divide em quatro classes:

  • Classe I: paciente sem sinais sistêmicos, sem comorbidades descontroladas — tratado com antibiótico oral em casa.
  • Classe II: paciente com febre ou taquicardia, mas sem instabilidade — geralmente necessita de antibiótico endovenoso e observação hospitalar.
  • Classe III: paciente com sinais de gravidade (hipotensão, confusão mental, insuficiência respiratória) — internação em UTI.
  • Classe IV: fasciíte necrosante ou sepse — emergência cirúrgica imediata.

Além disso, podemos classificar a celulite por localização: celulite periorbitária (ao redor dos olhos, comum em crianças e que pode evoluir para trombose de seio cavernoso), celulite de membros inferiores (a mais frequente, associada a insuficiência venosa e diabetes), celulite facial (geralmente por dentes infectados) e celulite de parede abdominal (pós-operatório ou por doenças inflamatórias intestinais).

Já para a celulite estética (fibroedema gelóide), a classificação mais difundida no Brasil é a de Nürnberger-Müller, adaptada por Hexsel, que divide em 4 graus:

  • Grau I: aspecto de casca de laranja visível apenas quando a pele é comprimida ou com o paciente em ortostatismo.
  • Grau II: ondulações já visíveis sem compressão, mas sem nódulos palpáveis.
  • Grau III: nódulos subcutâneos palpáveis e aspecto acolchoado.
  • Grau IV: nódulos grandes, fibrose e depressões profundas, com flacidez importante.

É importante lembrar que fibroedema gelóide não é doença e não requer tratamento pelo SUS, embora clínicas particulares e estéticas ofereçam procedimentos como radiofrequência, subcisão e carboxiterapia.

Quando procurar um médico

Procure imediatamente um pronto-atendimento (UPA, PS ou posto de saúde) se você ou alguém apresentar:

  • Vermelhidão na pele que cresce rapidamente (em horas ou dias)
  • Inchaço intenso com calor local
  • Dor desproporcional ao tamanho da lesão
  • Febre (temperatura acima de 37,8°C), calafrios ou mal-estar geral
  • Surgimento de bolhas, feridas com pus ou áreas escuras (necrose)
  • Linhas vermelhas subindo a partir da lesão (linfangite)
  • Comprometimento de articulações ou dificuldade para andar, se a infecção for na perna
  • Inchaço ao redor dos olhos, principalmente em crianças

Não tente “furar” a área inchada, não coloque compressas quentes e não use anti-inflamatórios (como ibuprofeno ou diclofenaco) sem orientação médica, pois eles podem mascarar os sintomas e dificultar o diagnóstico. No SUS, o médico clínico ou dermatologista fará o diagnóstico com base no exame físico e, se necessário, solicitará ultrassom com Doppler para descartar trombose venosa profunda ou abscesso. O tratamento precoce com antibióticos costuma resolver o quadro em 7 a 14 dias.

E a celulite estética? Se a sua queixa é estética, não há risco à saúde, mas pode causar desconforto emocional. Um clínico geral pode orientar sobre hábitos saudáveis (dieta equilibrada, atividade física, hidratação) e, se houver necessidade, encaminhar para um dermatologista ou cirurgião plástico no serviço público, mas lembre-se: o SUS prioriza tratamentos curativos