O que é O que é Cetose?
A cetose é um estado metabólico natural em que o corpo, na falta de glicose (açúcar) disponível, passa a utilizar a gordura como principal fonte de energia. Em vez de queimar carboidratos, as células quebram os ácidos graxos no fígado, produzindo moléculas chamadas corpos cetônicos (acetona, acetoacetato e beta-hidroxibutirato). Esse processo acontece em situações de jejum prolongado, dietas muito restritivas em carboidratos (como a dieta cetogênica) ou em condições de estresse metabólico intenso.
No dia a dia de uma clínica popular do SUS ou de clínicas particulares de bairro, recebo muitos pacientes que chegam dizendo “Doutor, estou fazendo aquela dieta da proteína e do ovo e meu hálito ficou estranho, parece removedor de esmalte”. Esse é um dos sinais mais clássicos da cetose: a eliminação de acetona pelo ar expirado. Também é comum pacientes diabéticos tipo 1 ou, menos frequentemente, tipo 2 com insulinopenia grave, desenvolverem cetoacidose diabética – uma emergência médica – que é uma forma patológica de cetose descontrolada.
No Brasil, estima-se que cerca de 7% da população adulta tenha diabetes mellitus, e uma parcela significativa já experimentou algum episódio de cetose nutricional sem saber. Dados do Ministério da Saúde (Vigitel 2023) mostram que mais de 55% dos brasileiros estão com excesso de peso, o que aumenta a procura por dietas “milagrosas” como a cetogênica. É fundamental que o paciente entenda que cetose não é sinônimo de perda de peso saudável e que existem riscos quando feita sem acompanhamento médico e nutricional. A ANVISA regula a venda de suplementos de corpos cetônicos (cetonas exógenas) e alerta para o uso indiscriminado. O CFM, por meio da Resolução 2.299/2021, reforça que dietas restritivas devem ser prescritas e monitoradas por profissionais habilitados, dentro do contexto do SUS ou da saúde suplementar.
Veja mais informações sobre diabetes e cetose no site do Ministério da Saúde.
Como funciona / Características
Imagine que seu corpo é um carro híbrido: o tanque principal usa glicose (carboidratos) como gasolina. Quando esse tanque fica vazio – após um jejum de 12 a 24 horas, por exemplo – o motor automático aciona o tanque reserva de gordura. O fígado quebra a gordura em corpos cetônicos, que circulam no sangue e alimentam o cérebro, os músculos e outros órgãos.
No consultório, explico assim: “Seu organismo é inteligente. Quando você para de comer pão, arroz, macarrão e açúcar, ele entende que precisa de uma fonte alternativa e começa a ‘queimar’ a gordura estocada. Isso gera cetonas. Em níveis moderados, não faz mal – é o que acontece durante a noite enquanto dormimos. Mas, em excesso, o sangue fica ácido e pode intoxicar o corpo.”
Características comuns da cetose nutricional:
– Hálito cetônico (cheiro de fruta podre ou removedor de esmalte);
– Aumento da sede e da diurese (o corpo tenta eliminar o excesso de corpos cetônicos pela urina);
– Perda de apetite inicial;
– Fadiga ou “brain fog” (névoa mental) nos primeiros dias, seguida depois de mais clareza mental;
– Possível náusea, tontura ou constipação.
Em pacientes que fazem a dieta cetogênica para epilepsia refratária (uma indicação clássica), os níveis de cetonas precisam ser monitorados com fitas de urina ou aparelhos de sangue. Já no paciente diabético, o simples fato de ter cetonas no sangue é um sinal de alerta. Foi o que observei em uma senhora de 62 anos, dona de casa, que chegou à UBS com visão turva, boca seca e respiração ofegante – estava com cetoacidose por ter suspendido a insulina por conta própria. Infelizmente, casos assim são comuns nas emergências do SUS.
Tipos e Classificações
No contexto clínico brasileiro, classificamos a cetose em dois grandes grupos:
1. Cetose fisiológica (ou nutricional): Ocorre voluntariamente por dieta cetogênica, jejum intermitente, exercícios extenuantes ou gestação (jejum noturno prolongado). Os níveis de corpos cetônicos ficam entre 0,5 e 3,0 mmol/L. Não há acidose significativa. Muitos pacientes me perguntam se “cetose é igual a cetoacidose” – não é. A cetose fisiológica é controlada e segura na maioria das pessoas saudáveis.
2. Cetose patológica (cetoacidose): Ocorre quando há produção excessiva de corpos cetônicos, geralmente por falta de insulina (diabetes tipo 1, diabetes tipo 2 descompensado, abuso de álcool, jejum prolongado em doenças agudas). Os níveis ultrapassam 5 mmol/L, o pH do sangue cai (<7,35) e surge acidose metabólica. É uma emergência médica.
Uso a classificação do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD):
- Cetoacidose diabética (CAD): glicemia geralmente >250 mg/dL, cetonúria positiva, acidose metabólica. Responsável por 5 a 10% das internações por diabetes no SUS.
– Cetose alcoólica: em etilistas crônicos após binge de bebida, associada a vômitos e jejum.
– Cetose fisiológica benigna: comum em atletas de endurance (corredores, ciclistas) após treinos longos.
Lembrando que a ANVISA não reconhece suplementos de cetonas exógenas como medicamentos, apenas como “alimentos com alegação de propriedade funcional” – e exige que conste na embalagem que “o consumo deve ser orientado por nutricionista ou médico”.
Acesse as diretrizes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia sobre dieta cetogênica.
Quando procurar um médico
Em uma clínica popular, muitos pacientes só percebem que algo está errado quando os sintomas se agravam. Fique atento aos seguintes sinais de alerta e procure atendimento na UBS, clínica da família ou pronto-socorro mais próximo:
– Hálito muito doce ou de acetona associado a náuseas, vômitos e dor abdominal;
– Respiração rápida e profunda (respiração de Kussmaul) – o corpo tenta eliminar o excesso de ácido;
– Sede intensa e boca seca que não melhora com ingestão de água;
– Fraqueza muscular, confusão mental ou desmaio;
– Em diabéticos: glicemia capilar acima de 250 mg/dL e presença de cetonas na urina (fita reagente);
– Perda de peso rápida e inexplicada acompanhada de fadiga.
Se você está em dieta cetogênica sem acompanhamento e sente tonturas constantes, palpitações ou alterações no humor, também é hora de marcar uma consulta. No SUS, há nutricionistas e endocrinologistas disponíveis nos centros de referência. Não arrisque sua saúde por modismo.
Termos Relacionados
- Cetoacidose: complicação grave do diabetes ou do jejum extremo, com acúmulo perigoso de cetonas e acidificação do sangue. Exige tratamento hospitalar com insulina e hidratação venosa.
- Dieta cetogênica: plano alimentar muito baixo em carboidratos (20 a 50 g/dia), moderado em proteínas e alto em gorduras. Usada para epilepsia refratária e, de forma controversa, para perda de peso.
- Corpos cetônicos: moléculas (acetona, acetoacetato, beta-hidroxibutirato) produzidas pelo fígado na cetose. Servem como combustível alternativo para o cérebro.
- Cetose fisiológica: estado metabólico normal, controlado, sem acidose. Ex.: jejum noturno, exercício prolongado.
- Cetose patológica: produção descontrolada de cetonas, com queda do pH sanguíneo. Ex.: cetoacidose diabética.
- Gliconeogênese: processo pelo qual o fígado produz glicose a partir de aminoácidos e glicerol, quando os carboidratos estão escassos.
- Jeju intermitente: padrão alimentar que alterna períodos de jejum (16h, 20h etc.) com janelas de alimentação. Pode induzir cetose leve.
- Insulina: hormônio que permite a entrada de glicose nas células. Na falta dela, o corpo entra em cetose intensa e risco de cetoacidose.
Perguntas Frequentes sobre O que é Cetose
Cetose é a mesma coisa que cetoacidose?
Não. Cetose é um estado metabólico fisiológico com níveis moderados de cetonas (0,5 a 3 mmol/L) e sem alteração do pH do sangue. Já a cetoacidose é uma emergência com níveis muito altos de cetonas (>5 mmol/L) e acidose, comum em diabéticos tipo 1 descompensados. A cetose nutricional é segura; a cetoacidose é perigosa.
Fazer dieta cetogênica pode causar cetose perigosa?
Em pessoas saudáveis, a dieta cetogênica bem orientada leva a uma cetose fisiológica controlada. Porém, se você tem diabetes, doença renal, hepática, ou faz uso de certos medicamentos (como inibidores do SGLT2), o risco de cetoacidose aumenta. Sempre consulte um médico e um nutricionista antes de iniciar. No SUS, há atendimento especializado para isso.
Como sei que estou em cetose?
Os sinais mais comuns são: hálito com cheiro de acetona, aumento da sede, boca seca, diminuição do apetite, possível fadiga inicial. Você pode confirmar com fitas de urina (cetonúria) ou aparelhos de sangue que medem beta-hidroxibutirato. Mas não compre testes sem orientação – às vezes, a fita pode dar falso positivo ou negativo. Marque uma consulta para avaliar se a cetose é adequada para seu caso.
Cetose emagrece mesmo?
A cetose leva à perda de peso, principalmente nas primeiras semanas, pela perda de água e glicogênio, e depois pela queima de gordura. Contudo, estudos mostram que, a longo prazo, o emagrecimento se iguala ao de dietas balanceadas com restrição calórica. O risco é abandonar a dieta e recuperar o peso (efeito sanfona). Mais importante que cetose é adotar um padrão alimentar sustentável e saudável.
Posso fazer exercício físico em cetose?
Sim, muitos atletas treinam em estado de cetose (dieta low-carb). No início, pode haver queda de performance por adaptação (cerca de 2 semanas). Depois, o corpo aprende a usar gordura como combustível. Porém, para atividades de alta intensidade, pode ser necessário ingerir carboidratos antes. Ouça seu corpo e, se sentir tontura ou fraqueza, interrompa e procure orientação.
O que comer para sair da cetose rapidamente?
Se você está em cetose e deseja interrompê-la (por exemplo, devido a sintomas desagradáveis), basta ingerir uma fonte de carboidrato: uma fruta, pão, arroz, batata-doce ou suco de laranja. Em 30-60 minutos, a produção de cetonas cai. Se houver sinais de cetoacidose (vômitos, dor abdominal, confusão), não tente reverter em casa – vá imediatamente a uma emergência.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica. Em caso de sintomas, procure a Unidade Básica de Saúde mais próxima ou ligue 192 (SAMU).


