O que é O que é Cirrose?
Cirrose é uma doença crônica do fígado que ocorre quando o órgão sofre agressões repetidas por anos, levando à formação de cicatrizes (fibrose) e nódulos que comprometem sua estrutura e função. Em termos simples, o fígado vai endurecendo e perdendo a capacidade de filtrar o sangue, produzir proteínas, armazenar vitaminas e realizar outras tarefas essenciais. É como se o fígado, que normalmente é um órgão macio e elástico, fosse sendo substituído por tecido duro e inútil.
Na rotina de uma clínica popular no Brasil, atendo muitos pacientes que descobrem a cirrose tardiamente. O silêncio da doença é um dos maiores desafios – muitas vezes o paciente só procura ajuda quando já apresenta barriga d’água (ascite), icterícia (olhos amarelados) ou sangramentos. Dados do Ministério da Saúde mostram que a cirrose hepática é a oitava causa de morte no Brasil entre adultos, e o SUS realiza cerca de 2.000 transplantes hepáticos por ano, sendo a cirrose uma das principais indicações. Segundo a Sociedade Brasileira de Hepatologia, estima-se que mais de 200 mil brasileiros convivam com a doença sem saber.
As causas mais comuns no Brasil são o consumo excessivo de álcool, a esteatose hepática (gordura no fígado) associada à obesidade e diabetes, e as hepatites virais B e C. O diagnóstico precoce é fundamental, pois o tratamento pode parar a progressão e evitar complicações graves. No SUS, o acesso a exames como ultrassom, elastografia transitória (FibroScan) e biópsia hepática é regulado, mas cada vez mais disponível nas unidades de atenção básica e ambulatórios de hepatologia.
Como funciona / Características
Vou explicar como a cirrose se desenvolve no dia a dia. Imagine que seu fígado é uma fábrica que funciona 24 horas. A cada agressão – seja por álcool, vírus, gordura ou medicamentos – algumas células do fígado morrem. Inicialmente, o órgão consegue se regenerar, mas com insultos contínuos a regeneração vira desorganizada, gerando cicatrizes (fibrose). Quando a fibrose é extensa e forma nódulos, temos a cirrose.
Esse processo leva de 10 a 30 anos, dependendo da causa e da genética da pessoa. Na prática clínica, vejo pacientes que nunca beberam e desenvolvem cirrose por doença hepática gordurosa não alcoólica, principalmente aqueles com diabetes tipo 2 e obesidade. Outros, que beberam muito na juventude, chegam aos 50 anos com cirrose avançada. O fígado vai perdendo funções: deixa de produzir albumina (proteína que mantém líquidos dentro dos vasos), fator de coagulação (o paciente sangra com facilidade) e não consegue mais eliminar substâncias tóxicas, como a amônia, que se acumula e causa confusão mental (encefalopatia hepática).
Um sinal clássico que aparece nas consultas é a ascite: o paciente chega com a barriga crescida, desconforto e falta de ar porque o líquido comprime o pulmão. Também são comuns as varizes esofágicas – veias dilatadas no esôfago que podem romper e causar vômito com sangue vivo, uma emergência médica. No SUS, o tratamento inclui medicamentos como diuréticos, betabloqueadores para prevenir sangramentos, e procedimentos como a paracentese (retirada de líquido da barriga) e a ligadura elástica de varizes.
Tipos e Classificações
A cirrose é classificada de acordo com a causa, a atividade inflamatória e o grau de comprometimento da função hepática. As principais classificações usadas na prática clínica brasileira são:
- Cirrose alcoólica: causada pelo consumo crônico de álcool. É a mais frequente no SUS, mas tem diminuído com campanhas de prevenção.
- Cirrose por hepatite B e C: no Brasil, a hepatite C é a principal causa de cirrose viral, embora o tratamento com antivirais diretos tenha reduzido novos casos.
- Cirrose por esteatose hepática não alcoólica (NASH): associada a síndrome metabólica (obesidade, diabetes, colesterol alto). Cresce rapidamente no país.
- Cirrose biliar primária: doença autoimune que afeta os ductos biliares, mais comum em mulheres.
- Cirrose criptogênica: quando não se identifica a causa – cerca de 10-15% dos casos.
Além da causa, o médico avalia a gravidade usando o sistema Child-Pugh (A, B ou C) e o MELD (Model for End-Stage Liver Disease). O MELD é usado na fila do transplante hepático no Brasil, seguindo as diretrizes do CFM e do Ministério da Saúde. Quanto maior a pontuação, maior a urgência. Uma cirrose compensada (Child A) permite vida normal com cuidados, enquanto a descompensada (Child C) exige transplante.
Quando procurar um médico
Na minha experiência, muitos pacientes com cirrose demoram a buscar ajuda porque os sintomas iniciais são vagos: cansaço, perda de apetite, náuseas. Porém, existem sinais de alerta que não podem ser ignorados. Procure um médico imediatamente se apresentar:
- Olhos ou pele amarelados (icterícia)
- Barriga aumentada de forma rápida, com estrias e sensação de peso (ascite)
- Vômito com sangue ou fezes escuras e pastosas (melena) – sinal de sangramento digestivo
- Confusão mental, sonolência excessiva, dificuldade para falar (encefalopatia hepática)
- Urina escura (cor de coca‑cola) e fezes claras (acólicas)
- Inchaço nas pernas (edema) que não melhora com repouso
Na atenção básica do SUS, o clínico geral pode solicitar exames simples como transaminases (TGO/TGP), gama‑GT, bilirrubinas, albumina e ultrassom de abdome. Se houver suspeita de cirrose, o paciente é encaminhado ao hepatologista ou gastroenterologista. Quanto antes o diagnóstico, maior a chance de interromper a progressão com tratamento da causa base, como cessar o álcool, tratar hepatite ou controlar diabetes/obesidade.
Termos Relacionados
- Fibrose hepática: estágio anterior à cirrose, com acúmulo de cicatrizes mas ainda sem nódulos. Pode ser revertida se a causa for removida.
- Esteatose hepática: acúmulo de gordura no fígado, comum em obesos. Quando há inflamação, chama-se esteato‑hepatite e pode evoluir para cirrose.
- Ascite: acúmulo de líquido na cavidade abdominal, sinal de cirrose descompensada. Tratada com diuréticos e paracentese.
- Varizes esofágicas: veias dilatadas no esôfago causadas pela hipertensão portal (pressão alta na veia porta do fígado). Podem sangrar e levar à morte.
- Encefalopatia hepática: confusão mental por acúmulo de toxinas que o fígado não filtra. Trata-se com lactulose e dieta controlada.
- Child‑Pugh e MELD: sistemas de pontuação usados para classificar a gravidade da cirrose e prioridade no transplante hepático.
- Transplante hepático: substituição do fígado doente por um saudável de doador cadáver ou vivo. No Brasil, é realizado pelo SUS, com fila baseada no MELD.
- Hepatite crônica: inflamação prolongada do fígado que pode levar à cirrose. As hepatites B e C são as principais causas virais no Brasil.
Perguntas Frequentes sobre O que é Cirrose
Cirrose tem cura?
Não existe cura para a cirrose estabelecida, porque as cicatrizes são permanentes. Mas é possível tratar a causa e evitar que a doença avance. Em casos avançados, o transplante hepático é a única cura, substituindo o fígado doente por um saudável. Muitos pacientes vivem décadas com cirrose compensada, desde que sigam o tratamento e o acompanhamento médico.
Cirrose é câncer?
Não. Cirrose não é câncer, mas aumenta muito o risco de desenvolver carcinoma hepatocelular (câncer de fígado). Por isso, todo paciente com cirrose deve fazer ultrassom com Doppler a cada 6 meses para rastrear nódulos suspeitos. O diagnóstico precoce do câncer permite tratamentos curativos como ablação, ressecção ou transplante.
Quem tem cirrose pode beber álcool?
De jeito nenhum. Mesmo que a cirrose não tenha sido causada pelo álcool, a bebida é tóxica para o fígado e acelera a progressão. O paciente com cirrose deve ter abstinência total de bebidas alcoólicas, incluindo cerveja e vinho. O SUS oferece grupos de apoio e tratamento para dependência alcoólica nos CAPS.
Cirrose causa dor?
Na maioria dos casos, a cirrose em si não dói. O fígado tem poucas terminações nervosas para dor. Porém, a distensão da cápsula do fígado (quando o órgão aumenta) ou as complicações como ascite e infecções podem causar desconforto abdominal. Muitos pacientes relatam cansaço e mal‑estar generalizado, mas dor intensa não é típica.
Quantos anos vive uma pessoa com cirrose?
Depende do estágio e da resposta ao tratamento. Pacientes com cirrose compensada (Child A) podem viver muitos anos, com qualidade de vida quase normal. Já a cirrose descompensada (Child C) tem sobrevida média de 1 a 2 anos sem transplante. O acompanhamento regular no SUS e a


