O que é O que é Citologia?
No dia a dia do consultório, principalmente aqui no SUS e em clínicas populares, a citologia é um dos exames que mais pedimos para as pacientes. Muita gente conhece pelo nome popular de “exame preventivo” ou “Papanicolau”. Mas, de forma simples, a Citologia é o estudo das células do nosso corpo. É como se a gente colocasse uma lente de aumento para ver como essas células estão se comportando: se estão normais, se têm sinais de inflamação, infecção ou, o mais importante, se há alterações que podem indicar o início de um câncer.
Aqui no Brasil, a Citologia ginecológica é a principal ferramenta de rastreio do câncer de colo de útero. Segundo dados do INCA (Instituto Nacional de Câncer), o câncer de colo de útero é o terceiro tumor mais frequente entre as mulheres brasileiras, com cerca de 17 mil novos casos por ano. E o mais triste é que é um câncer que poderia ser evitado em quase 100% dos casos com o preventivo em dia. Por isso, nas unidades básicas de saúde e nas clínicas populares, a citologia é feita de forma gratuita e acessível, seguindo as diretrizes do Ministério da Saúde. A ANVISA regula os laboratórios que processam as amostras, garantindo a qualidade do exame.
Na prática clínica, citologia não é só preventivo. Ela também é usada para examinar células do pulmão (escarro), da urina, do líquido de uma articulação, entre outros. Mas, sem dúvida, no Brasil, ela é mais conhecida e solicitada como exame ginecológico. E é sobre esse uso que vou falar com mais detalhes, porque é o que mais impacta a saúde da mulher brasileira.
Como funciona / Características
Você chega no posto ou na clínica popular, a enfermeira ou o médico faz uma coleta com uma espátula de madeira e uma escovinha (a famosa “escova endocervical”). Essa coleta é rápida, dura menos de um minuto, e pode causar um leve desconforto, mas geralmente não dói. O material é espalhado em uma lâmina de vidro e fixado com um spray ou álcool. Depois, essa lâmina vai para o laboratório, onde um profissional de citologia (chamado de citotécnico ou citopatologista) vai colorir as células e analisar no microscópio.
O laudo que você recebe no SUS geralmente segue a classificação de Bethesda, que é um padrão internacional usado no Brasil. O resultado pode vir como “Negativo para lesão intraepitelial ou malignidade” (ou seja, normal) ou com algum achado, como “células escamosas atípicas de significado indeterminado” (ASC-US) ou “lesão intraepitelial de baixo grau” (LSIL). Esses termos assustam, mas são justamente achados que orientam o próximo passo – muitas vezes, apenas repetir o exame depois de um tempo ou fazer uma colposcopia, que é um exame mais detalhado com uma lente de aumento.
Uma característica importante da citologia no Brasil é que ela é um exame de triagem, não de diagnóstico definitivo. Ou seja, ela aponta suspeitas, mas o diagnóstico de certeza de um câncer ou lesão pré‑cancerosa é feito pela biópsia. Porém, quando bem feita e interpretada, a citologia reduz em até 80% a mortalidade por câncer de colo de útero. Por isso, insisto tanto nas consultas: “Minha filha, faz o preventivo todo ano, mesmo que não tenha sintoma nenhum”.
Tipos e Classificações
Citologia oncótica (Papanicolau): é a mais comum no Brasil. Usada para rastreamento do câncer de colo de útero e de outras áreas genitais. O laudo segue a classificação de Bethesda, que divide os achados em:
- Negativo para lesão intraepitelial ou malignidade – normal.
- Alterações celulares benignas – inflamações, infecções (como candidíase, tricomoníase, Gardnerella).
- Células escamosas atípicas de significado indeterminado (ASC-US) – achado limítrofe que precisa de acompanhamento.
- Lesão intraepitelial de baixo grau (LSIL) – geralmente associada ao HPV, mas com alto potencial de regressão espontânea.
- Lesão intraepitelial de alto grau (HSIL) – risco maior de evoluir para câncer se não tratada.
- Carcinoma invasor – quando já há células cancerosas.
Citologia de escarro ou aspirado brônquico: usada para investigar nódulos no pulmão, tosse crônica ou suspeita de câncer de pulmão. Muito comum em pacientes tabagistas que atendemos nas clínicas populares.
Citologia urinária: feita na urina para rastrear câncer de bexiga. Frequente em homens com hematúria (sangue na urina) ou trabalhadores expostos a produtos químicos.
Citologia de líquidos cavitários: como líquido pleural, ascítico (barriga d’água), pericárdico. Serve para diagnosticar metástases de câncer ou infecções, como tuberculose.
O Ministério da Saúde, através do Programa Nacional de Controle do Câncer do Colo do Útero, estabelece que a citologia deve ser feita em mulheres de 25 a 64 anos, com intervalo de 3 anos após dois exames normais consecutivos. Mulheres com HIV, imunossuprimidas ou com história de lesão prévia fazem com intervalos menores.
Quando procurar um médico
No meu consultório, vejo muitas mulheres que só procuram ajuda quando já têm sangramento ou dor. Por isso, reforço: a citologia deve ser feita mesmo sem sintomas. Mas existem sinais de alerta que exigem uma consulta imediata:
- Sangramento vaginal fora do período menstrual ou após relação sexual.
- Corrimento vaginal de mau cheiro, persistente ou com sangue.
- Dor durante a relação sexual ou dor pélvica constante.
- Alterações na urina (sangue, ardência) que não passam.
- Tosse crônica com catarro sanguinolento (para citologia de escarro).
- Presença de nódulo ou caroço em qualquer parte do corpo.
Se você está na faixa etária recomendada (25 a 64 anos) e nunca fez o preventivo, ou está há mais de 3 anos sem fazer, não espere aparecer sintoma. Agende uma consulta na UBS mais próxima ou em uma clínica popular. O exame é simples, gratuito e salva vidas.
Termos Relacionados
- Colposcopia – exame com uma lente de aumento que permite ver o colo do útero em detalhes. Geralmente indicado após uma citologia alterada.
- Biopópsia – retirada de um fragmento de tecido para análise definitiva. É o padrão‑ouro para diagnosticar câncer.
- HPV (Papilomavírus Humano) – vírus responsável pela maioria das alterações na citologia de colo de útero. A vacina contra o HPV é oferecida pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos.
- NIC (Neoplasia Intraepitelial Cervical) – termo usado para lesões pré‑cancerosas do colo do útero, classificadas em NIC I, II e III.
- Patologia – especialidade médica que estuda as doenças através de exames de tecidos e células. O citopatologista é o patologista focado em citologia.
- Rastreamento – estratégia de saúde pública para identificar doenças em fase inicial em pessoas sem sintomas. A citologia é o principal método de rastreamento do câncer de colo de útero no Brasil.
- Lâmina – a peça de vidro onde as células são colocadas para análise microscópica. No SUS, as lâminas são processadas em laboratórios credenciados.
- Bethesda – sistema de classificação dos laudos de citologia ginecológica, usado internacionalmente e adotado pelo Ministério da Saúde.
Perguntas Frequentes sobre O que é Citologia
1. Citologia dói? É desconfortável?
Na maioria das mulheres, a coleta da citologia não dói. Pode causar uma leve pressão ou cólica passageira, mas dura segundos. Se você sentir dor intensa, avise o profissional – pode ser sinal de inflamação ou ansiedade. Para diminuir o desconforto, tente relaxar, respirar fundo e lembrar que é um exame rápido e essencial para sua saúde.
2. Quanto tempo sai o resultado do preventivo no SUS?
Pelo SUS, o prazo máximo é de 30 dias, mas na prática pode variar de 15 a 60 dias, dependendo da demanda do laboratório. Em clínicas populares particulares, o resultado costuma sair em 5 a 10 dias. Se o resultado demorar mais que o esperado, volte ao posto para cobrar – o atraso pode atrasar também o tratamento, se necessário.
3. Posso fazer citologia menstruada?
O ideal é não fazer durante a menstruação, porque o sangue atrapalha a visualização das células e pode dar resultado inconclusivo. O melhor período é entre o 10º e 20º dia do ciclo, ou pelo menos 3 dias após o fim da menstruação. Mas se você estiver com sangramento fora da época, não espere – procure o médico para avaliar a causa.
4. Qual a diferença entre citologia e biópsia?
A citologia analisa células soltas, colhidas por raspagem ou aspirado. É um exame de triagem, como um “alerta”. Já a biópsia retira um pedacinho de tecido com estrutura preservada, permitindo um diagnóstico definitivo. A biópsia é feita quando a citologia mostra alterações suspeitas ou quando já há uma lesão visível. Ambas são complementares.
5. A citologia detecta HPV?
Ela pode sugerir a presença do HPV ao mostrar alterações típicas do vírus (chamadas de coilocitose), mas não é um teste específico. Para saber se você tem HPV, existe o teste de DNA do HPV, que pode ser feito na mesma coleta da citologia (coleta combinada). No SUS, esse teste está disponível em algumas regiões, mas ainda não é universal. Se você tem resultado alterado, seu médico pode pedir o teste de HPV para orientar o acompanhamento.
6. Precisa de preparo para fazer citologia?
Sim, algumas orientações simples: não ter relação sexual nas 48 horas anteriores, não usar duchas, medicamentos ou cremes vaginais, e não estar menstruada. Também evite fazer o exame logo após um tratamento para infecção vaginal – aguarde pelo menos uma semana. Siga as orientações da unidade de saúde, mas o mais importante é não deixar de fazer por causa desses detalhes; o exame é adaptável.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


