sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Clampeamento do cordão umbilical

O que é Clampeamento do cordão umbilical?

O clampeamento do cordão umbilical é o procedimento realizado no momento do parto em que se interrompe o fluxo de sangue entre a placenta e o recém-nascido, através da colocação de uma pinça ou grampo no cordão, que depois é cortado. Na prática de uma clínica popular e no dia a dia do SUS, essa é uma etapa rotineira, mas com impacto direto na saúde do bebê. Muitas gestantes me perguntam: “Doutor, esperar um pouco para cortar o cordão faz diferença?” E a resposta é sim: faz uma diferença enorme, principalmente para a reserva de ferro e a prevenção da anemia nos primeiros meses de vida.

No Brasil, o Ministério da Saúde, seguindo recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), orienta que o clampeamento seja feito de forma tardia – ou seja, de 1 a 3 minutos após o nascimento, desde que não haja complicações. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/IBGE) apontam que cerca de 30% dos recém-nascidos brasileiros apresentam anemia ferropriva até os dois anos de idade, e o clampeamento tardio pode reduzir esse risco em aproximadamente 50%, segundo estudos nacionais. Nas maternidades públicas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde o acesso ao tratamento da anemia é mais limitado, essa simples medida tem um impacto imenso na saúde pública.

Como médico que atende em clínicas populares, vejo famílias que muitas vezes não têm informações claras sobre o parto. Por isso, é fundamental que a gestante conheça seus direitos: toda mulher tem o direito de ser informada sobre o tempo de clampeamento e, salvo contraindicações médicas, optar pelo clampeamento tardio. O Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) reconhecem essa prática como segura e benéfica, desde que realizada por profissional habilitado.

Como funciona / Características

O procedimento é simples e rápido, mas envolve uma decisão clínica importante. Após o nascimento do bebê, a placenta ainda está ligada ao útero da mãe, e o cordão umbilical pulsa, transportando sangue rico em oxigênio e nutrientes. Se o clampeamento for imediato (feito em menos de 30 segundos), interrompe-se essa transferência. Já o clampeamento tardio (entre 1 e 3 minutos) permite que o bebê receba cerca de 80 a 100 ml extras de sangue placentário – o equivalente a quase um terço do volume sanguíneo do recém-nascido. Esse sangue extra é rico em ferro, células-tronco e fatores de crescimento.

No cotidiano do SUS, especialmente em partos normais realizados por enfermeiras obstetras ou médicos, o clampeamento tardio é uma prática cada vez mais incorporada. Por exemplo, em uma sala de parto de uma maternidade pública em Fortaleza, o bebê é colocado sobre o abdômen da mãe (contato pele a pele) e o cordão é mantido íntegro por cerca de 2 minutos. Enquanto isso, a equipe avalia os sinais vitais do recém-nascido e a mãe pode tocar e acalmar o bebê. Só então o cordão é clampeado e cortado. Esse tempo extra não atrapalha os cuidados imediatos, como a secagem e o aquecimento, e traz benefícios comprovados.

Vale destacar que o clampeamento tardio não é recomendado quando o bebê precisa de reanimação imediata (por exemplo, se não respira ao nascer), quando há sofrimento fetal grave, descolamento prematuro de placenta ou risco de hemorragia materna. Nesses casos, a equipe age rapidamente para priorizar a segurança da mãe e do bebê. A decisão é sempre baseada em evidências e no bom senso clínico.

Tipos e Classificações

Na prática obstétrica brasileira, classificamos o clampeamento de acordo com o tempo transcorrido entre o nascimento e a interrupção do fluxo do cordão:

  • Clampeamento imediato ou precoce: realizado nos primeiros 30 segundos após o parto. Antigamente era padrão, mas hoje é indicado apenas em situações específicas, como prematuridade extrema com necessidade de reanimação imediata ou quando o bebê nasce muito pálido (anemia grave).
  • Clampeamento tardio: realizado entre 1 e 3 minutos após o nascimento, na ausência de contraindicações. É a prática recomendada pela OMS e pelo Ministério da Saúde para todos os partos, incluindo cesarianas, desde que o bebê esteja em boas condições.
  • Ordenha do cordão: técnica alternativa em que o cordão é “ordenhado” (espremido) em direção ao bebê antes do clampeamento, geralmente em partos prematuros. Embora menos estudada, pode ser usada quando o clampeamento tardio não é possível.

O Ministério da Saúde, em sua Caderneta da Gestante e nos Protocolos de Atenção ao Parto e Nascimento, classifica essas categorias e orienta os profissionais a registrar o tempo do clampeamento no prontuário. Nas clínicas populares, costumamos reforçar com as gestantes a importância de perguntar ao médico ou enfermeira: “Você vai esperar para cortar o cordão?” Essa simples pergunta pode garantir que o bebê receba todos os benefícios do clampeamento tardio.

Quando procurar um médico

O clampeamento do cordão umbilical é um procedimento de rotina que não exige cuidados especiais após o parto, mas alguns sinais de alerta merecem atenção. Procure o serviço de saúde se:

  • O coto umbilical (o pedaço que sobra) apresentar vermelhidão, inchaço, secreção com pus ou mau cheiro – pode ser sinal de infecção local (onfalite).
  • O bebê tiver sangramento ativo no local do coto após os primeiros dias – embora pequenas gotas de sangue sejam comuns quando o coto cai (geralmente entre 5 e 15 dias), sangramento em maior quantidade requer avaliação.
  • O recém-nascido apresentar palidez excessiva, cansaço ao mamar ou sono profundo demais – pode ser sinal de anemia, que o clampeamento tardio ajuda a prevenir, mas nem sempre evita.
  • Você notar que o coto não cai após 3 semanas – pode indicar problema na cicatrização ou persistência de tecido umbilical.
  • Houver febre no bebê (temperatura axilar > 37,5°C) nos primeiros dias de vida – pode ser infecção, inclusive relacionada ao cordão.

Na rede pública, a primeira consulta com o pediatra costuma ser agendada na primeira semana de vida (teste do pezinho). Aproveite para mostrar o coto umbilical e tirar todas as dúvidas. Em clínicas populares, orientamos as mães a manter o coto limpo e seco, usando álcool 70% apenas se houver orientação médica, e a não cobrir com faixas ou moedas (práticas culturais que aumentam o risco de infecção).

Termos Relacionados

  • Cordão umbilical: estrutura que liga o feto à placenta, composta por duas artérias e uma veia, responsável por levar oxigênio e nutrientes e remover resíduos.
  • Placenta: órgão temporário que se desenvolve no útero durante a gestação, responsável pelas trocas gasosas e nutricionais entre mãe e feto.
  • Parto normal: nascimento do bebê através do canal vaginal, onde o clampeamento tardio é mais facilmente realizado.
  • Cesariana: parto cirúrgico, que não impede o clampeamento tardio, mas exige maior coordenação da equipe.
  • Anemia neonatal: condição em que o recém-nascido tem baixos níveis de hemoglobina, podendo levar a cansaço, palidez e atraso no desenvolvimento. O clampeamento tardio reduz significativamente esse risco.
  • Icterícia neonatal: amarelamento da pele e olhos do bebê devido ao excesso de bilirrubina. Pode estar associada ao clampeamento tardio em alguns casos (se o bebê recebe muito sangue), mas na maioria das vezes é benigna e tratável com fototerapia.
  • Onfalite: infecção do coto umbilical, que pode ser evitada com cuidados adequados de limpeza e secagem.
  • Ordenha do cordão: manobra de “espremer” o cordão em direção ao bebê antes do clampeamento, usada em prematuros ou quando o clampeamento tardio não é viável.

Perguntas Frequentes sobre O que é Clampeamento do cordão umbilical?

O clampeamento tardio dói no bebê ou na mãe?

Não. O cordão umbilical não possui terminações nervosas, portanto nem a mãe nem o bebê sentem dor quando ele é clampeado ou cortado. A mãe pode sentir um leve puxão, mas sem desconforto significativo. O procedimento é indolor.

Quanto tempo exatamente devo esperar para cortar o cordão?

O ideal é entre 1 e 3 minutos após o nascimento, desde que o bebê esteja bem e a mãe estável. Esse tempo permite que o sangue da placenta continue a ser transferido para o bebê. Se o parto for por cesariana, a espera também é possível, mas a equipe precisa coordenar os cuidados. Converse com seu médico antes do parto para alinhar as expectativas.

O clampeamento tardio pode causar icterícia (amarelão) no meu bebê?

Estudos mostram que o clampeamento tardio pode aumentar ligeiramente o risco de icterícia neonatal que necessita de fototerapia, mas esse risco é pequeno (cerca de 2 a 4% a mais comparado ao clampeamento imediato). A icterícia é facilmente tratada com luz especial e, na maioria das vezes, não causa problemas. Os benefícios do clampeamento tardio – como a prevenção da anemia e do risco de transfusão – superam amplamente esse pequeno aumento.

O que é clampeamento imediato e quando é usado?

É o clampeamento feito em menos de 30 segundos após o parto. Atualmente, é reservado para situações de emergência, como quando o bebê nasce sem respirar e precisa de reanimação imediata, ou quando há suspeita de hemorragia materna grave. Também pode ser indicado em gestações de muito baixo peso ou com líquido amniótico meconial espesso. Fora desses casos, a recomendação é sempre o clampeamento tardio.

Posso pedir para o médico esperar para cortar o cordão? Isso é permitido no SUS?

Sim, absolutamente. No SUS, a gestante tem o direito de ser informada e de participar das decisões sobre o parto. O clampeamento tardio é uma prática baseada em evidências e está incorporado nos protocolos do Ministério da Saúde. Converse com a equipe durante o pré-natal e faça constar no plano de parto. Em clínicas