O que é O que é Colecistite?
Colecistite é a inflamação da vesícula biliar – um pequeno órgão em formato de pêra localizado abaixo do fígado, que armazena a bile, um líquido produzido pelo fígado para ajudar na digestão de gorduras. Na prática de uma clínica popular ou no dia a dia do SUS, essa é uma das queixas abdominais mais comuns, principalmente em mulheres acima dos 40 anos, com excesso de peso ou histórico de cálculo biliar (as populares “pedras na vesícula”).
No Brasil, estima-se que 10% a 15% da população adulta tenha cálculos biliares (litíase biliar), e destes, cerca de 20% desenvolverão um episódio de colecistite aguda ao longo da vida. Dados do Ministério da Saúde indicam que a colecistectomia (cirurgia de retirada da vesícula) é um dos procedimentos cirúrgicos mais realizados pelo SUS – mais de 80 mil por ano. A maior parte dos casos está associada à obstrução do ducto cístico por um cálculo, que impede o esvaziamento da bile, causando acúmulo, distensão e inflamação. Esse quadro é frequente após refeições gordurosas, quando a vesícula é estimulada a se contrair.
Do ponto de vista clínico, a colecistite pode ser aguda (início súbito com dor intensa, febre e alteração nos exames de sangue) ou crônica (quadro arrastado de desconforto e dor leve recorrente, muitas vezes confundido com má digestão). Nas consultas de atenção básica, a principal ferramenta diagnóstica disponível é a ultrassonografia abdominal, exame acessível na rede pública e que confirma a presença de cálculos, espessamento da parede da vesícula ou líquido ao redor. O tratamento definitivo é cirúrgico – a colecistectomia, que hoje é feita preferencialmente por videolaparoscopia, reduzindo o tempo de internação e a dor pós-operatória. A ANVISA regula os dispositivos e materiais utilizados, e o CFM estabelece as diretrizes para indicação da cirurgia, garantindo segurança ao paciente.
Como funciona / Características
Para entender a colecistite, imagine a vesícula como um reservatório que se enche de bile entre as refeições e se esvazia quando você come gordura. Se um cálculo (pedra) tapar a saída desse reservatório, a bile fica presa, a pressão interna aumenta e as paredes da vesícula começam a inflamar. É como uma panela de pressão que não libera o vapor: se não houver alívio, o quadro evolui para infecção (supuração), necrose (morte do tecido) ou perfuração da vesícula.
Na rotina clínica, o paciente chega com dor no lado direito da barriga (no chamado “hipocôndrio direito”), que pode irradiar para as costas ou para o ombro direito. Muitos descrevem a dor como uma “cólica” forte que começou depois de um almoço com feijoada, fritura ou queijo. A dor é constante, piora com a respiração profunda e pode vir acompanhada de náusea, vômito, febre baixa (37,8 °C a 38,5 °C) e calafrios. Em consultórios de clínicas populares, o médico faz o sinal de Murphy – ao pressionar sob as costelas enquanto o paciente inspira, ele interrompe a respiração por dor. Esse achado é clássico e ajuda a fechar o diagnóstico mesmo sem ultrassom imediato.
Já na forma crônica, o desconforto é mais leve, sem febre, mas recorrente – o paciente relata “estufamento”, “azia” ou “dor na boca do estômago” após refeições gordurosas. Muitas vezes convive com o problema por meses ou anos, até que uma crise aguda o leva ao pronto-socorro. No SUS, a fila para cirurgia eletiva pode demorar, por isso o manejo conservador inicial (analgésicos, dieta leve e acompanhamento) é comum, mas o risco de complicações exige atenção redobrada.
Tipos e Classificações
A colecistite é classificada principalmente em dois grandes grupos usados na prática brasileira, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Digestiva e os critérios internacionais (Classificação de Tóquio):
- Colecistite aguda calculosa – responsável por mais de 90% dos casos. Ocorre quando um cálculo impacta no ducto cístico. Pode ser leve (grau I), moderada (grau II, com sinais de infecção sistêmica) ou grave (grau III, com disfunção de órgãos). O grau de gravidade orienta a urgência da cirurgia e o tratamento antibiótico.
- Colecistite aguda alitiásica (acalculosa) – sem presença de cálculos. É mais rara (cerca de 5-10%), mas grave, aparecendo em pacientes críticos (UTI, pós-cirurgia de grande porte, politrauma, queimados, sepse). A vesícula inflama por estase biliar, isquemia ou infecção bacteriana. O diagnóstico é desafiador e exige alto índice de suspeita.
- Colecistite crônica – inflamação de longa duração, com espessamento e fibrose da parede da vesícula. Geralmente associada a cálculos que causam obstrução intermitente. O paciente tem queixas vagas, e a ultrassonografia mostra parede espessada e cálculos. Pode evoluir com atrofia vesicular ou, raramente, para câncer de vesícula (se houver calcificação da parede – “vesícula em porcelana”).
Na classificação clínica, utilizamos também a diferenciação entre colecistite simples (sem complicação) e complicada (com empiema – pus na vesícula, gangrena, perfuração, abscesso ou fístula). Essas formas complicadas exigem cirurgia de urgência e antibióticos intravenosos, sendo mais comuns em pacientes idosos, diabéticos ou imunossuprimidos.
Quando procurar um médico
Qualquer pessoa com dor abdominal persistente no lado direito ou na boca do estômago que não passa com analgésico comum, especialmente se vier após refeição gordurosa, deve buscar atendimento médico. Mas existem sinais de alerta que exigem procura imediata a um pronto-socorro ou Unidade de Pronto Atendimento (UPA):
- Dor muito intensa que não melhora em 2 a 3 horas.
- Febre acima de 38 °C com calafrios.
- Icterícia (pele e olhos amarelados) – pode indicar obstrução do ducto colédoco (coledocolitíase) ou infecção na via biliar (colangite).
- Vômitos frequentes que impedem a alimentação ou hidratação.
- Distensão abdominal (barriga inchada) e parada de eliminação de gases/fezes.
- Histórico de cálculo biliar com piora do quadro.
Na rede pública, o médico da Estratégia de Saúde da Família (ESF) ou o clínico da UPA solicitará exames simples (hemograma, PCR, bilirrubinas, amilase) e a ultrassonografia de abdome. Se houver confirmação de colecistite aguda, o paciente será encaminhado para o centro cirúrgico de referência. Lembre-se: não use anti-inflamatórios por conta sem orientação, pois podem mascarar a dor e retardar o diagnóstico. Também evite aplicar calor na barriga – a inflamação pode piorar.
Termos Relacionados
- Cálculo biliar (litíase biliar): “Pedra” que se forma na vesícula, composta principalmente por colesterol ou bilirrubina. É a principal causa de colecistite.
- Coledocolitíase: Presença de cálculo no ducto colédoco (canal
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