O que é Comunicação interventricular?
No meu consultório, seja no SUS ou em clínicas populares, uma das perguntas que mais ouço é: “Doutor, o que é esse tal de ‘buraquinho no coração’ do meu filho?” A resposta técnica é comunicação interventricular (CIV) – um defeito cardíaco congênito em que existe um orifício na parede (septo) que separa os dois ventrículos do coração. Esse “buraco” permite que o sangue passe de um lado para o outro, geralmente do ventrículo esquerdo (mais forte) para o direito (mais fraco), sobrecarregando o coração e os pulmões.
A comunicação interventricular é o defeito cardíaco congênito mais comum no Brasil e no mundo. Segundo dados do Ministério da Saúde, cerca de 1 em cada 500 bebês nasce com algum tipo de CIV. É uma condição que aparece no dia a dia das clínicas populares porque muitos pacientes chegam com sintomas como cansaço ao mamar, suor excessivo, infecções respiratórias de repetição ou simplesmente um sopro cardíaco descoberto em consulta de rotina. No SUS, o diagnóstico precoce é feito principalmente pelo ecocardiograma, exame disponível na rede pública, e o acompanhamento depende do tamanho do defeito e dos sintomas.
É importante que o paciente leigo entenda: nem toda CIV precisa de cirurgia. Pequenos orifícios podem fechar sozinhos até os dois anos de idade. Já os maiores exigem tratamento – que pode ser medicamentoso ou cirúrgico. Tudo isso será discutido com o cardiopediatra ou cardiologista, mas saber o básico já ajuda a reduzir o medo. Como médico que atende há 15 anos, afirmo: com diagnóstico adequado e acesso ao tratamento (que o SUS oferece, embora com filas), a maioria das crianças com CIV leva uma vida normal.
Como funciona / Características
Para simplificar: imagine que o coração é uma casa com quatro cômodos. Do lado direito chega o sangue pobre em oxigênio (que voltou do corpo), e do lado esquerdo está o sangue rico em oxigênio (que vai para o corpo). A parede entre os dois quartos de baixo (ventrículos) é o septo interventricular. Quando existe um furo nessa parede, o sangue do lado esquerdo, com mais pressão, atravessa para o lado direito. Isso se chama shunt esquerda-direita.
Esse fluxo extra vai para os pulmões, que recebem mais sangue do que deveriam. No começo, o coração se adapta, mas com o tempo pode haver aumento do coração, hipertensão pulmonar e sinais de insuficiência cardíaca. Na prática clínica, os sintomas mais comuns em bebês são: cansaço durante a amamentação, pausas para respirar enquanto mama, suor na testa, ganho de peso lento e pneumonias de repetição. Em crianças maiores e adultos, a CIV pequena pode não dar sintomas, ser descoberta apenas pelo sopro.
No cotidiano de uma clínica popular, percebo que muitas mães relatam que o bebê “mama e cansa”, “fica ofegante” ou “pega muita gripe”. Esses são sinais clássicos. Quando suspeito, peço um ecocardiograma com Doppler – exame não invasivo, sem contraindicação, disponível no SUS e em clínicas conveniadas. O resultado mostra o tamanho do orifício, a direção do fluxo e a pressão na artéria pulmonar. É com base nisso que decido se o paciente precisa de medicação (diuréticos, como furosemida, e inibidores de enzima) ou encaminhamento para cirurgia.
Tipos e Classificações
Na minha prática, uso a classificação anatômica mais adotada no Brasil, baseada na localização do defeito no septo interventricular. São quatro tipos principais:
- CIV perimembranosa – a mais frequente, localizada perto das valvas cardíacas. Representa cerca de 70% dos casos. Pode estar associada a outras malformações.
- CIV muscular (trabecular) – situada na porção muscular do septo. Muitas são pequenas e fecham espontaneamente.
- CIV subarterial (supracristal ou infundibular) – localizada abaixo da valva pulmonar, comum em populações asiáticas, mas também vista no Brasil. Pode levar a insuficiência aórtica.
- CIV do tipo inlet (tipo canal AV) – ocorre na parte de entrada do ventrículo, muitas vezes associada a defeitos do septo atrioventricular (como na síndrome de Down).
Além da localização, classificamos pelo tamanho: pequena (< 3 mm, geralmente assintomática), moderada (3-6 mm, com sintomas leves) e grande (> 6 mm, que causa sintomas significativos). No SUS, essa classificação é fundamental para definir prioridade na fila de cirurgia. Pacientes com CIV grande e hipertensão pulmonar são operados com urgência.
Quando procurar um médico
Qualquer pessoa, especialmente bebês e crianças, deve ser avaliada se apresentar:
- Cansaço excessivo ao mamar ou ao fazer esforço (chorar, brincar)
- Sudorese (suor frio) na testa durante as mamadas
- Ganho de peso insuficiente ou dificuldade para ganhar peso
- Infecções respiratórias de repetição (bronquiolite, pneumonia)
- Sopro cardíaco detectado em consulta de rotina (mesmo sem sintomas)
- Lábios ou unhas arroxeados (cianose) – sinal de hipertensão pulmonar avançada
- Palpitações, falta de ar ou inchaço nas pernas em adultos
Na clínica popular, oriento as famílias: se seu filho tem algum desses sinais, procure um pediatra ou clínico geral. Ele poderá solicitar um ecocardiograma básico. Se houver confirmação de CIV, o paciente será encaminhado ao cardiologista pediátrico ou adulto. No SUS, o fluxo é: UBS → ecocardiograma → ambulatório de cardiologia → centro de referência em cardiopatia congênita, se necessário. Não espere o quadro piorar: quanto mais cedo o diagnóstico, melhor o prognóstico.
Termos Relacionados
- Sopro cardíaco – ruído anormal ouvido no estetoscópio, causado pelo fluxo turbulento do sangue através da CIV. Muitas vezes é o primeiro sinal.
- Ecocardiograma com Doppler – exame de ultrassom que visualiza o coração e mede o fluxo sanguíneo, padrão-ouro para diagnosticar CIV.
- Shunt esquerda-direita – passagem anormal de sangue do lado esquerdo do coração para o direito, característico da CIV.
- Hipertensão pulmonar – aumento da pressão na artéria pulmonar, complicação de CIV grandes não tratadas, que pode se tornar irreversível (síndrome de Eisenmenger).
- Cardiopatia congênita – malformação do coração presente desde o nascimento. A CIV é o tipo mais comum.
- Cianose – coloração azulada da pele e mucosas por falta de oxigênio no sangue. Pode ocorrer em CIV quando a pressão pulmonar se eleva muito.
- Cirurgia cardíaca corretiva – procedimento para fechar o defeito, podendo ser por cateterismo (oclusão por dispositivo) ou cirurgia aberta.
- Acompanhamento ambulatorial – consultas regulares com cardiologista para monitorar o tamanho da CIV, a função cardíaca e a pressão pulmonar.
Perguntas Frequentes sobre Comunicação interventricular
1. “Meu filho tem um sopro no coração. Isso significa que ele tem CIV?”
Não necessariamente. O sopro é apenas um som, e muitas crianças têm sopros inocentes (funcionais) que não indicam doença. O sopro da CIV tem características próprias (holossistólico, mais alto no bordo esternal esquerdo). O único jeito de confirmar é com ecocardiograma. Se o pediatra ouvir um sopro e houver suspeita, ele solicitará o exame. Fique tranquilo: a maioria dos sopros em crianças é benigna.
2. “A CIV fecha sozinha? Até que idade?”
Sim, cerca de 30 a 50% das CIVs pequenas fecham espontaneamente, principalmente as musculares, até os 2 anos de idade. As perimembranosas também podem fechar, mas com menor frequência. Por isso, em crianças assintomáticas, costumamos acompanhar com ecocardiograma a cada 6-12 meses. Se não fechar até os 2-3 anos, as chances de fechamento espontâneo diminuem, mas ainda podem ocorrer até a adolescência.
3. “É possível viver sem cirurgia? Quais os riscos?”
Depende do tamanho da CIV. Pequenas, sem sintomas e sem hipertensão pulmonar, não precisam de cirurgia – apenas acompanhamento. CIVs moderadas a grandes que causam sintomas ou aumentam o coração geralmente exigem tratamento. Sem cirurgia, os riscos são: hipertensão pulmonar (que pode virar irreversível), insuficiência cardíaca, endocardite infecciosa (infecção no coração) e atraso no crescimento. A decisão é do cardiologista baseada no ecocardiograma e na clínica.
4. “Como é a cirurgia para fechar a CIV? É muito arriscada?”
Existem duas abordagens principais: a cirurgia aberta (com circulação extracorpórea, incisão no peito) e o fechamento por cateterismo (sem cirurgia aberta, através de um fio guiado por vasos). A escolha depende do tipo e local da CIV. A cirurgia aberta tem riscos, mas é segura em centros especializados, com mortalidade inferior a 2% em casos não complexos. O cateterismo é menos invasivo, com recuperação mais rápida. No SUS, ambas as técnicas estão disponíveis em hospitais de referência, como o INCOR, o Hospital das Clínicas e alguns centros regionais.
5. “Meu bebê está com CIV e não ganha peso. O que fazer?”
Isso é comum, pois o coração e os pulmões trabalham demais, gastando energia. O pediatra pode receitar medicamentos (diuréticos, digoxina) para ajudar o coração a bombear melhor. Além disso, é importante oferecer uma alimentação hipercalórica (fórmulas com mais calorias, ou leite materno com complemento). Em casos graves, pode ser necessária sonda nasogástrica para garantir nutrição. Converse com o cardiopediatra: o ganho de peso é um dos principais indicadores de que o tratamento está funcionando.
6. “A CIV pode voltar depois da cirurgia?”
Após o fechamento completo (seja cirúrgico ou por cateterismo), a recorrência é extremamente rara. Pode haver pequenos shunts residuais (vazamentos mínimos) que não têm significado clínico. Acompanhamento com ecocardiograma é feito periodicamente para garantir que está tudo bem. A maioria das crianças opera uma única vez e fica curada, levando vida normal, sem restrições para esportes.
Conteúdo revisado por equ


