O que é Condromalácia patelar?
Você já sentiu uma dor na parte da frente do joelho, bem na região da patela (o osso da “rótula”), ao descer escadas, levantar de uma cadeira ou ficar muito tempo sentado de pernas dobradas? Se sim, talvez você tenha tido contato com a condromalácia patelar, um dos motivos mais comuns de consulta nos consultórios de clínica geral do SUS e nas clínicas populares brasileiras. A condromalácia patelar é o amolecimento e o desgaste da cartilagem que reveste a face posterior da patela – aquela superfície lisa e esbranquiçada que permite que a patela deslize suavemente sobre o fêmur quando você dobra e estica o joelho.
No dia a dia da atenção primária, especialmente aqui no Brasil, atendo pacientes – muitos deles adolescentes e adultos jovens, com idades entre 15 e 40 anos – que chegam com a queixa: “Doutor, meu joelho dói quando eu agacho” ou “não consigo mais correr, parece que tem uma areia dentro do joelho”. A condromalácia patelar é mais frequente em mulheres (estima-se que atinja o dobro de mulheres em relação aos homens, segundo dados de Serviços de Ortopedia do SUS), e está muito associada a desalinhamentos do aparelho extensor do joelho, fraqueza do quadríceps (o músculo da coxa) ou a atividades de alto impacto, como corrida, futebol e crossfit. Embora não exista um número exato para todo o Brasil, estudos em Unidades Básicas de Saúde (UBS) mostram que cerca de 15 a 25% das pessoas com dor anterior no joelho têm condromalácia patelar confirmada.
Vale destacar que, no contexto do SUS, o diagnóstico é essencialmente clínico – ou seja, o médico ou o fisioterapeuta faz a avaliação baseada na história do paciente e no exame físico, sem a necessidade imediata de exames caros como a ressonância magnética. O Ministério da Saúde, por meio dos Cadernos de Atenção Básica e da Política Nacional de Práticas Integrativas, orienta que o tratamento conservador (fisioterapia, fortalecimento muscular, educação postural) é a primeira linha, com altas taxas de sucesso. Apenas os casos refratários ou com suspeita de lesões associadas são encaminhados para ortopedia e para exames de imagem, respeitando os princípios de equidade e eficiência do sistema.
Como funciona / Características
Para entender o que acontece, pense na patela como uma “polia” que guia o tendão do quadríceps durante o movimento do joelho. A cartilagem que reveste a patela é a mais espessa do corpo humano, suportando cargas de até 5 vezes o peso corporal durante um agachamento profundo. Quando essa cartilagem começa a amolecer, fissurar ou se desgastar – o que chamamos de condromalácia patelar –, a superfície de deslizamento perde a lisura e passa a gerar atrito anormal com o côndilo femoral (a ponta do fêmur). Esse atrito provoca dor e, muitas vezes, uma sensação de crepitação (como se houvesse “areia” ou “estalo” dentro do joelho).
Na prática clínica do dia a dia, as características mais comuns que observamos são:
- Dor na parte anterior do joelho (região da patela), que piora com atividades que aumentam a pressão entre patela e fêmur: subir ou descer escadas, agachar, ajoelhar-se, ficar muito tempo sentado com os joelhos dobrados (o famoso “sinal do cinema” – a pessoa vai ao cinema e, ao final do filme, sente dor e rigidez).
- Crepitação – estalos ou rangidos palpáveis ou audíveis durante a flexão e extensão do joelho. Muitos pacientes se assustam com isso, mas nem sempre está associado a dor grave.
- Instabilidade ou sensação de falseio – o joelho “falha” ou cede, principalmente ao descer um degrau.
- Inchaço leve (derrame articular) após esforço prolongado ou após períodos de repouso.
Vou dar um exemplo que ouço quase toda semana: “Doutora, eu sento em uma cadeira baixa para calçar os sapatos e meu joelho trava na hora de levantar.” Isso é clássico. Outro exemplo: aquele paciente jovem que joga futebol aos finais de semana e, após o jogo, sente dor na frente do joelho que melhora com repouso e volta na semana seguinte. Muitos acham que é “inflamação” e saem comprando anti-inflamatórios por conta própria – o que é um erro, pois o foco deve ser no fortalecimento muscular e na correção biomecânica.
No Brasil, a condromalácia patelar é frequentemente confundida com a Síndrome da Dor Patelofemoral (SDPF), que é o termo mais moderno usado para descrever dor na região patelofemoral sem a presença confirmada de lesão cartilaginosa. A condromalácia é, na verdade, a alteração na cartilagem; a SDPF é a síndrome dolorosa. Na prática, muitos pacientes têm a síndrome sem condromalácia, e vice-versa. Apenas a artroscopia ou a ressonância mostram o dano real da cartilagem.
Tipos e Classificações
A classificação mais usada no Brasil e no mundo para descrever a gravidade da condromalácia patelar é a classificação de Outerbridge, baseada no achado durante uma artroscopia ou na ressonância magnética:
- Grau I: amolecimento da cartilagem, sem ruptura da superfície. À palpação artroscópica, a cartilagem fica “borrachuda”.
- Grau II: fissuras superficiais, com fragmentação da cartilagem que se estende por menos de 1,5 cm de diâmetro.
- Grau III: fissuras profundas, com fragmentação maior que 1,5 cm, expondo o osso subcondral em algumas áreas.
- Grau IV: exposi


