terça-feira, junho 2, 2026

O que é Criança

O que é Criança?

Na prática clínica do SUS e das clínicas populares brasileiras, o termo criança vai muito além da definição biológica de ser humano em fase de crescimento. Para nós, médicos da atenção primária, criança é um indivíduo em desenvolvimento contínuo, desde o nascimento até o início da adolescência, que exige olhar integral para aspectos físicos, emocionais, sociais e nutricionais. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) considera criança a pessoa com até 12 anos incompletos, e é essa faixa etária que norteia as políticas públicas de saúde, educação e proteção.

Na rotina de uma clínica popular de Fortaleza ou de qualquer periferia brasileira, a criança chega acompanhada da mãe, do pai ou de um cuidador, muitas vezes com a caderneta de vacinação e as queixas típicas: febre, tosse, diarréia, dificuldade para ganhar peso. Dados do Ministério da Saúde indicam que a mortalidade infantil no Brasil caiu de 47 óbitos por mil nascidos vivos em 1990 para cerca de 12 por mil em 2022, mas ainda temos desafios como a desnutrição em regiões Norte e Nordeste e o aumento da obesidade infantil nas áreas urbanas. O SUS organiza o cuidado da criança através da Puericultura, um conjunto de consultas periódicas para acompanhar crescimento, desenvolvimento, vacinação e orientações de prevenção, sempre pautado pelo Calendário Nacional de Vacinação do PNI e pelas Curvas de Crescimento da OMS.

No consultório, vejo diariamente que a criança não é um “adulto em miniatura”. Ela tem metabolismo, respostas imunológicas e necessidades emocionais próprias. A abordagem da ANVISA em relação a medicamentos pediátricos e a orientação do CFM sobre prescrição para essa faixa etária reforçam que o cuidado deve ser individualizado, respeitando a maturidade de cada órgão e sistema. Por isso, quando falamos de criança na clínica, falamos de um ser em construção, que merece um olhar atento, afeto e ciência.

Como funciona / Características

O acompanhamento da criança no SUS segue o chamado Calendário de Puericultura, que prevê consultas aos 7 dias, 1 mês, 2 meses, 4 meses, 6 meses, 9 meses, 12 meses, 18 meses e 2 anos de idade, e depois anualmente até os 12 anos. Nessas consultas, medimos peso, altura e perímetro cefálico, plotamos esses dados nas curvas da OMS e avaliamos os marcos do desenvolvimento: quando a criança sustenta a cabeça, senta, engatinha, anda, fala as primeiras palavras. Qualquer desvio pode ser sinal precoce de problemas neurológicos, nutricionais ou emocionais.

Na prática popular, percebo que muitas famílias chegam com dúvidas sobre alimentação: “Meu filho só quer comer banana e arroz”, “Ele não come carne”, “Ela ainda mama no peito e já tem 2 anos”. A orientação do Ministério da Saúde é clara: aleitamento materno exclusivo até os 6 meses e complementar até 2 anos ou mais. Após os 6 meses, a introdução alimentar deve ser baseada em alimentos in natura, evitando açúcar, sal e ultraprocessados. Infelizmente, a realidade nas clínicas populares mostra que o acesso a alimentos saudáveis é limitado e o marketing de fórmulas infantis e papinhas industrializadas ainda engana muitas famílias.

Outra característica fundamental é a imunização. A criança é a principal beneficiária do Programa Nacional de Imunizações (PNI), que oferece vacinas como BCG, Hepatite B, Pentavalente, Poliomielite, Rotavírus, Pneumocócica, Meningocócica C, Febre Amarela, Tríplice Viral e DTP. No nosso dia a dia, verificamos se a caderneta está em dia e orientamos sobre os intervalos. É comum ouvir “Meu filho ficou com febre depois da vacina” – isso é uma reação esperada e manejável, mas a falta de informação leva muitos a atrasarem o calendário.

Tipos e Classificações

No Brasil, classificamos a criança em faixas etárias para fins clínicos e epidemiológicos, conforme o Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP):

  • Recém-nascido (RN): do nascimento até 28 dias de vida. Período de altíssimo risco, com adaptação à vida extrauterina. Fazemos o Teste do Pezinho (Triagem Neonatal) entre o 3º e o 7º dia.
  • Lactente: de 29 dias a 2 anos incompletos. É a fase do aleitamento, introdução alimentar, primeiras vacinas e aquisição de habilidades como sentar, engatinhar e andar.
  • Pré-escolar: de 2 a 5 anos incompletos. A criança ganha autonomia, entra em creches ou escolinhas, e passa por surtos de crescimento e desenvolvimento da linguagem.
  • Escolar: de 5 a 10 anos incompletos. Fase de alfabetização, socialização e consolidação de hábitos alimentares e de atividade física.
  • Adolescente (para fins pediátricos, de 10 a 12 anos incompletos): apesar de ser classificado como criança pelo ECA, o adolescente jovem já apresenta transformações puberais e necessita de um olhar específico.

Além da idade cronológica, classificamos a criança quanto ao estado nutricional usando os índices de Peso para Idade, Estatura para Idade e IMC para Idade, comparados às curvas da OMS. Isso nos ajuda a diagnosticar desnutrição, baixo peso, sobrepeso ou obesidade infantil. Na clínica popular, vejo muitos casos de obesidade associada ao consumo excessivo de refrigerantes e salgadinhos, e desnutrição em áreas mais pobres, especialmente no interior do Nordeste.

Quando procurar um médico

Nem toda febre ou tosse exige consulta, mas a criança pode piorar rapidamente. Sinais de alerta que merecem busca imediata por atendimento médico (no posto de saúde, UPA ou hospital):

  • Febre acima de 39°C que não cede com antitérmico ou que dura mais de 3 dias.
  • Dificuldade para respirar: respiração rápida, cansaço, “estufamento” das costelas, lábios arroxeados.
  • Vômitos persistentes ou diarreia com sinais de desidratação (boca seca, olhos fundos, sem lágrimas, moleira afundada em crianças pequenas, diminuição da urina).
  • Convulsão ou perda de consciência.
  • Manchas roxas ou vermelhas na pele que não somem com a pressão (sinal de meningococcemia).
  • Irritabilidade extrema ou, ao contrário, prostração (muito molinha, difícil de acordar).
  • Atrasos no desenvolvimento – por exemplo, não sustentar a cabeça aos 4 meses, não sentar aos 9 meses, não andar aos 18 meses, não falar palavras simples aos 2 anos.

Consultas de rotina (prevenção) também são essenciais. Mesmo que a criança pareça saudável, leve ao médico nas datas marcadas pelo posto ou clínica para avaliar crescimento, vacinação e orientações. No SUS, essas consultas são gratuitas e fazem parte da Estratégia de Saúde da Família. Fora isso, em caso de dúvidas sobre alimentação, sono ou comportamento, não hesite em buscar uma unidade de saúde.

Termos Relacionados

  • Puericultura: Conjunto de ações preventivas e de acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança, realizadas periodicamente pelo médico ou enfermeiro.
  • Caderneta da Criança: Documento oficial do SUS que registra vacinas, curvas de crescimento, marcos do desenvolvimento e orientações. Deve ser levada em todas as consultas.
  • ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente): Lei 8.069/90 que garante direitos fundamentais a toda criança e adolescente no Brasil, incluindo prioridade absoluta no atendimento.
  • PNI (Programa Nacional de Imunizações): Programa do SUS que oferece gratuitamente todas as vacinas do calendário básico para crianças e adultos.
  • Aleitamento Materno: Recomendação da OMS e do MS para alimentação exclusiva com leite materno até os 6 meses e complementar até 2 anos ou mais.
  • Triagem Neonatal (Teste do Pezinho): Exame realizado no recém-nascido para detectar doenças como fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, anemia falciforme, entre outras.
  • Curvas de Crescimento (OMS): Gráficos que comparam peso, altura e IMC da criança com padrões internacionais, usados para diagnosticar desnutrição ou obesidade.
  • Desnutrição Infantil: Estado de deficiência nutricional que compromete o crescimento e a imunidade, ainda presente em algumas regiões do Brasil, especialmente na Amazônia e no semiárido nordestino.

Perguntas Frequentes sobre O que é Criança

Quantas consultas de rotina uma criança precisa no SUS?

O Ministério da Saúde recomenda pelo menos 7 consultas de puericultura no primeiro ano de vida, 3 no segundo ano e 1 a 2 por ano dos 2 aos 12 anos. Na prática, a frequência pode variar conforme o risco da criança (prematuridade, doenças crônicas). Na clínica popular, orientamos que nenhuma criança fique mais de 6 meses sem ser avaliada.

Quais vacinas são obrigatórias para crianças no Brasil?

Todas as vacinas do Calendário Nacional de Vacinação do PNI são gratuitas e consideradas obrigatórias para a frequência escolar. Incluem BCG, Hepatite B, Pentavalente, Poliomielite (VIP e VOP), Rotavírus, Pneumocócica 10-valente, Meningocócica C, Febre Amarela, Tríplice Viral (sarampo, caxumba e rubéola) e DTP (difteria, tétano e coqueluche). A vacina contra a Covid-19 também está disponível para