terça-feira, junho 9, 2026

O que é Crise epiléptica

O que é Crise epiléptica?

A crise epiléptica é uma descarga elétrica anormal e temporária que ocorre no cérebro, resultando em alterações no movimento, comportamento, sensação ou nível de consciência. No meu consultório, no SUS e em clínicas populares de Fortaleza, atendo frequentemente pacientes que chegam assustados após o primeiro episódio. Muitos pensam que tiveram um “derrame” ou “golpe de calor”. Na prática, uma crise epiléptica não significa, necessariamente, epilepsia — ela pode ser um evento único, desencadeado por febre alta (crise febril), hipoglicemia, intoxicação ou traumatismo craniano.

É importante destacar que epilepsia é o nome da condição neurológica crônica caracterizada pela tendência a ter crises repetitivas. Segundo dados do Ministério da Saúde, a epilepsia afeta cerca de 2 a 3% da população brasileira — algo entre 4 e 6 milhões de pessoas. O Brasil segue a classificação da International League Against Epilepsy (ILAE), adotada pela Academia Brasileira de Neurologia e referendada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). O SUS dispõe de protocolos para atendimento de urgência e acompanhamento via Atenção Primária, garantindo acesso a medicamentos antiepilépticos na rede pública.

No dia a dia da clínica popular, vejo um grande estigma em torno do termo. Muitos pacientes evitam falar sobre o assunto por medo de discriminação. Por isso, minha abordagem é sempre acolhedora e informativa: explico que a crise epiléptica é um sintoma, não uma “doença mental” ou “possessão”, como alguns ainda acreditam. A informação salva vidas — especialmente porque crises mal conduzidas podem levar a lesões graves.

Como funciona / Características

Durante uma crise epiléptica, os neurônios (células cerebrais) disparam simultaneamente de forma desordenada, como um “curto-circuito” elétrico. Isso pode acontecer em uma área localizada do cérebro (crise focal) ou se espalhar para ambos os hemisférios (crise generalizada). Os sintomas dependem da região afetada: crises no lobo temporal podem causar sensações estranhas, déjà vu ou alteração de consciência; crises no lobo motor provocam contrações musculares involuntárias.

Na prática clínica, oriento familiares a observar três fases:

Fase pré-ictal (aura): alguns pacientes relatam um “aviso” segundos ou minutos antes — gosto metálico na boca, sensação de medo, visão de luzes piscando. É uma oportunidade de se deitar ou pedir ajuda.
Fase ictal: é a crise propriamente dita. Pode ser uma crise convulsiva (movimentos rígidos e rítmicos, popularmente chamada de “ataque”, “tremedeira” ou “bater a cabeça”) ou não-convulsiva (apenas olhar fixo, desconexão, automatismos como esfregar as mãos).
Fase pós-ictal: após a crise, o paciente fica confuso, sonolento, com dor de cabeça ou dificuldade para falar. Essa fase pode durar minutos ou horas.

Um exemplo comum aqui na clínica: o paciente chega com história de “apagou, olhou para o teto e não respondia”. A família acha que é “estresse”. Mas a ausência de lembrança e a sonolência posterior são sinais clássicos de crise epiléptica do tipo ausência. Sempre investigo: uso de bebida alcoólica, privação de sono, febre recente, trauma craniano. Esses gatilhos são frequentes no Brasil, principalmente em comunidades com acesso limitado a cuidados de saúde.

Tipos e Classificações

O CFM e a Sociedade Brasileira de Neurologia adotam a classificação da ILAE (2017), que organiza as crises de forma prática para o diagnóstico e tratamento:

  • Crises focais (parciais): originam-se em um hemisfério cerebral. Podem ser:
    • Com consciência preservada (antigamente chamada de simples): a pessoa percebe o que está acontecendo (ex: formigamento em um braço, ouvir sons distorcidos).
    • Com alteração da consciência (complexa): parece que o paciente “desliga”, fica com olhar vago, pode repetir movimentos (como mastigar ou puxar a roupa).
    • Focal para bilateral tônico-clônica: começa focal e evolui para crise generalizada com convulsão.
  • Crises generalizadas: envolvem os dois hemisférios desde o início. Os subtipos incluem:
    • Tônico-clônica (antigo “grande mal”): perda de consciência, rigidez muscular seguida de abalos rítmicos. É a mais conhecida e a que gera maior urgência.
    • Ausência (antigo “pequeno mal”): breves lapsos de consciência (segundos), com olhar fixo. Comum em crianças.
    • Mioclônica: contrações breves e súbitas, como um “choque” em um grupo muscular.
    • Clônica: abalos rítmicos sem a fase tônica inicial.
    • Tônica: rigidez muscular mantida.
    • Atônica: perda súbita do tônus muscular, que pode causar quedas com risco de traumatismo craniano.
  • Crises de início desconhecido: quando não é possível determinar o foco inicial devido à falta de informação ou exame.

No Brasil, a classificação é usada tanto em laudos de eletroencefalograma (EEG) quanto nas prescrições de medicamentos do SUS (como carbamazepina, fenitoína, valproato, lamotrigina). É essencial que o médico diferencie o tipo de crise para escolher o tratamento adequado e evitar medicamentos que possam piorar certos tipos (ex: carbamazepina pode piorar crises de ausência).

Quando procurar um médico

Qualquer primeiro episódio de crise epiléptica requer avaliação médica. Na minha experiência, oriente os seguintes sinais de alerta que merecem atendimento de urgência (SAMU 192 ou Unidade de Pronto Atendimento – UPA):

– Crise com duração superior a 5 minutos (estado de mal epiléptico).
– Múltiplas crises em sequência, sem recuperação completa entre elas.
– Primeira crise em bebê, criança ou idoso.
– Crise após traumatismo craniano, intoxicação ou febre alta.
– Presença de sinais neurológicos persistentes (fraqueza de um lado do corpo, dificuldade para falar, confusão prolongada).
– Afogamento, mordedura grave de língua ou aspiração de vômito durante a crise.

Após o episódio, mesmo que a crise tenha sido breve e a pessoa já esteja bem, é necessário consultar um clínico geral ou neurologista. No SUS, o encaminhamento é feito pela Unidade Básica de Saúde (UBS). O médico solicitará exames como EEG, ressonância magnética ou tomografia, conforme o caso. Lembro que uma única crise não justifica iniciar medicação antiepiléptica, a não ser que haja alto risco de recorrência.

Oriento pacientes a manter um diário de crises (data, horário, duração, descrição, gatilhos) — isso ajuda muito no ajuste do tratamento. E jamais oferecer água ou colocar objetos na boca durante uma crise convulsiva. O correto é deitar a pessoa de lado (posição de recuperação), proteger a cabeça, cronometrar o tempo e chamar ajuda se ultrapassar 5 minutos.

Termos Relacionados

  • Epilepsia: condição neurológica crônica definida por duas ou mais crises não provocadas com intervalo maior que 24 horas, ou por um conjunto de critérios clínicos e eletroencefalográficos.
  • Eletroencefalograma (EEG): exame que registra a atividade elétrica cerebral, fundamental para confirmar ou descartar epilepsia e classificar o tipo de crise.
  • Crise febril: crise epiléptica desencadeada por febre alta (acima de 38°C) em crianças entre 6 meses e 5 anos, sem infecção do sistema nervoso. Geralmente benigna.
  • Estado de mal epiléptico: emergência médica caracterizada por crise prolongada (>5 minutos) ou crises repetitivas sem recuperação da consciência. Tratamento com benzodiazepínicos venosos e suporte intensivo.
  • Aura epiléptica: sintoma focal que ocorre segundos antes da crise generalizada, podendo ser sensorial (cheiro, gosto, visão), autonômico (taquicardia, sudorese) ou psíquico (medo, déjà vu).
  • Medicamentos antiepilépticos (AE): fármacos para prevenir crises, como carbamazepina, fenobarbital, valproato, lamotrigina. A maioria está disponível no SUS pelo componente básico da assistência farmacêutica.
  • Crise não-epiléptica psicogênica: episódio semelhante a uma crise epiléptica, mas de origem psicológica (estresse, trauma). Não tem descarga elétrica no EEG. Diagnóstico diferencial importante.
  • Rede de Atenção às Urgências e Emergências (RUE): estrutura do SUS que organiza o atendimento desde a UBS até os hospitais de referência, incluindo o suporte ao paciente em crise aguda.

Perguntas Frequentes sobre O que é Crise epiléptica

O que fazer durante uma crise epiléptica de outra pessoa?

Mantenha a calma. Afaste objetos perigosos, coloque a pessoa de lado (posição de recuperação), proteja a cabeça com uma almofada ou roupa. Não coloque nada na boca – isso pode quebrar dentes ou causar obstrução. Cronometre o tempo. Se durar mais de 5 minutos, se a pessoa estiver grávida, se tiver múltiplas crises, ou se não recuperar a consciência, chame o SAMU (192).

Crise epiléptica é contagiosa?

Não. A crise epiléptica é um evento neurológico, não é transmitida por contato, ar ou fluidos. O estigma é infundado. Você pode ajudar sem medo.

Toda convulsão é epilepsia?

Não. Convulsão é o sintoma (movimentos involuntários e rítmicos). Pode ser causada por epilepsia, mas também por febre alta (crise febril), hipoglicemia, intoxicação, desidratação, traumatismo craniano ou AVC. A epilepsia exige crises recorrentes e não provocadas.

Uma crise epiléptica pode matar?

A maioria das crises não é fatal, mas há riscos: estado de mal epiléptico (crise prolongada), aspiração de vômito, traumatismo craniano por queda, afogamento durante convulsão na água. A morte súbita inesperada na epilepsia (SUDEP) é rara (1 a 2 em cada 1.000 pacientes por ano), mas pode ocorrer, especialmente em crises generalizadas noturnas. O tratamento adequado reduz o risco.

Paciente com epilepsia pode dirigir?

A legislação de trânsito brasileira (CTB) exige que o paciente com epilepsia esteja livre de crises por, no mínimo, 6 a 12 meses (a depender da avaliação médica) para obter ou renovar a CNH. Deve apresentar laudo neurológico atualizado. É uma questão de segurança – seu neurologista pode orientar.

Crise epiléptica causa danos cerebrais permanentes?

Crises curtas e isoladas geralmente não deixam sequelas. Crises prolongadas (estado de mal epiléptico) ou repetitivas podem sim estar associadas a lesão cerebral hipóxico-isquêmica por falta de oxigênio. O tratamento precoce e o controle adequado das crises são essenciais para prevenir danos.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.

Para mais informações oficiais, consulte: Ministério da Saúde – Epilepsia e Conselho Federal de Medicina – Epilepsia.


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