O que é O que é Crise?
“Crise” é um termo que usamos no dia a dia do consultório para descrever o momento em que um problema de saúde — que muitas vezes estava controlado ou silencioso — se manifesta de repente com sintomas intensos. Não se trata de uma doença específica, mas de uma exacerbação aguda de uma condição crônica ou de uma reação súbita do organismo a um estímulo. Na prática da clínica popular e do SUS, a queixa “estou tendo uma crise” é uma das mais comuns: o paciente chega ofegante, tremendo, com a pressão nas alturas ou com uma dor forte que não passa. É uma situação que exige atenção rápida, mas que, na maioria dos casos, pode ser manejada na atenção primária ou com medicamentos de resgate.
No Brasil, as crises mais frequentes que atendemos em ambulatório são a crise hipertensiva (pico de pressão arterial), a crise de ansiedade ou pânico, a crise asmática, a crise convulsiva (epilepsia), a crise de enxaqueca, a crise hipoglicêmica (queda brusca de açúcar no sangue) e a crise de retirada (de álcool, benzodiazepínicos ou outras drogas). Segundo o Ministério da Saúde, a hipertensão arterial afeta cerca de 32% dos adultos brasileiros (Vigitel 2021), e muitos desses pacientes vivenciam ao menos um episódio de crise hipertensiva por falta de adesão ao tratamento. A ansiedade, por sua vez, atinge cerca de 9,3% da população (dados da OMS), e é uma das principais causas de atendimento em clínicas populares.
O importante é entender que a crise é um sinal de alerta: o corpo está pedindo socorro. Ela pode ocorrer por abandono da medicação, estresse emocional, infecção, mudança brusca de clima ou até mesmo por efeito colateral de um remédio. Como médico generalista, meu papel é estabilizar o paciente na hora, identificar a causa e, se necessário, encaminhá-lo para acompanhamento especializado. A boa notícia é que, com orientação correta, muitas crises podem ser prevenidas.
Como funciona / Características
Uma crise se caracteriza por início súbito, intensidade elevada e duração limitada — de minutos a algumas horas. O mecanismo por trás varia conforme o tipo, mas quase sempre envolve uma desregulação de um sistema orgânico. Por exemplo:
- Crise hipertensiva: A pressão sobe abruptamente (geralmente > 180/120 mmHg) devido à liberação excessiva de catecolaminas (adrenalina) ou por falha no controle medicamentoso. O paciente sente dor de cabeça forte, visão turva, tontura e, às vezes, falta de ar.
- Crise de ansiedade/pânico: O sistema nervoso simpático é ativado sem motivo real. O coração dispara (taquicardia), a respiração fica superficial (hiperventilação), e a pessoa sente medo intenso de morrer ou perder o controle.
- Crise asmática: Os brônquios se contraem (broncoespasmo) e inflamam, dificultando a entrada e saída de ar. O paciente chiado ao respirar, tosse seca e sensação de sufocamento.
- Crise convulsiva: Uma descarga elétrica anormal no cérebro causa contrações musculares involuntárias, perda de consciência e, às vezes, salivação excessiva.
- Crise hipoglicêmica: A glicose no sangue cai abaixo de 70 mg/dL. O paciente fica suado, confuso, com fome, tremores e, em casos graves, desmaia.
No consultório da clínica popular, recebemos muitos pacientes que chegam nessas condições. A primeira coisa é acalmar a pessoa, medir os sinais vitais (pressão, pulsação, saturação de oxigênio, glicemia capilar) e perguntar sobre o que estava fazendo antes: deixou de tomar um remédio? Passou por alguma briga? Ficou muitas horas sem comer? Com essas informações, conseguimos escolher a conduta adequada — desde medicamentos de resgate (como broncodilatador inalatório, ansiolítico sublingual ou anti-hipertensivo de ação rápida) até medidas não farmacológicas, como técnicas de respiração diafragmática.
Outra característica importante é que a crise pode ser recorrente. Um paciente com asma terá novas crises se não fizer o controle com corticoide inalatório; um hipertenso que para o remédio terá novos picos. Por isso, após resolver o episódio agudo, orientamos a prevenção: aderir ao tratamento crônico, evitar gatilhos (poeira, estresse, bebida alcoólica) e ter um plano de ação para saber quando procurar ajuda.
Tipos e Classificações
Na prática clínica brasileira, classificamos as crises de acordo com o sistema orgânico e a causa. As principais categorias que atendemos em clínica geral são:
- Crise hipertensiva: Pode ser urgência hipertensiva (sem lesão de órgão-alvo) ou emergência hipertensiva (com dano em andamento, como AVC ou infarto). A diferenciação é feita com exame clínico e, às vezes, eletrocardiograma.
- Crise de ansiedade: Inclui o transtorno de pânico (crises recorrentes e inesperadas), a ansiedade generalizada (com crises mais brandas, mas constantes) e o estresse agudo (reação a evento traumático). O CID-10 (F41.0) classifica como “Transtorno de pânico”.
- Crise asmática: Classificamos em leve, moderada, grave ou muito grave (com risco de parada respiratória). O Consenso Brasileiro de Asma orienta o uso de espirometria e oxímetro para avaliar.
- Crise convulsiva: Pode ser tônico-clônica generalizada (a clássica com tremores e perda de consciência), crise de ausência (breves lapsos de consciência em crianças) ou crise parcial (afeta apenas uma parte do corpo).
- Crise hipoglicêmica: Classificamos conforme a glicemia: leve (entre 50-70 mg/dL, sintomas adrenérgicos), moderada (30-50 mg/dL, sintomas neuroglicopênicos) e grave (< 30 mg/dL, inconsciência).
- Crise de enxaqueca: Dor de cabeça pulsátil, unilateral, com náusea e fotofobia. A International Headache Society divide em enxaqueca com aura e sem aura.
- Crise de retirada: Abstinência de álcool, opioides ou benzodiazepínicos. No Brasil, o CFM recomenda avaliação criteriosa e, em casos graves, internação.
Essa classificação ajuda a direcionar o tratamento de forma segura, evitando intervenções desnecessárias. Por exemplo, um paciente com crise de pânico não precisa de exames caros, mas sim de acolhimento e, se necessário, medicação ansiolítica de curta ação.
Quando procurar um médico
Nem toda crise exige ida ao pronto-socorro. Muitas podem ser manejadas em casa com medidas simples, como descanso, hidratação ou uso de medicamentos prescritos previamente. No entanto, existem sinais de alerta que indicam a necessidade de avaliação médica urgente. Se você ou alguém próximo apresentar algum dos itens abaixo, procure um serviço de saúde (UBS, UPA ou emergência):
- Dor no peito apertando ou em queimação, principalmente se irradiar para braço, costas ou mandíbula (pode ser infarto).
- Falta de ar intensa que não melhora com repouso ou com a bombinha de asma.
- Perda de consciência, mesmo que breve (desmaio, convulsão).
- Pressão arterial muito alta (> 180/120 mmHg) com sintomas como dor de cabeça forte, visão embaçada ou sangramento nasal.
- Glicemia capilar muito baixa (menos de 50 mg/dL) se a pessoa não acordar ou não conseguir engolir.
- Febre alta (acima de 39°C) associada a calafrios ou confusão mental.
- Crise convulsiva que dura mais de 5 minutos, ou várias seguidas sem recuperação (status epilepticus).
- Vômitos repetidos que impedem a hidratação ou uso de medicamentos orais.
Na clínica popular, muitas pacientes chegam com crises que poderiam ter sido evitadas. Por isso, reforço: se você tem uma condição crônica (hipertensão, asma, diabetes, epilepsia), mantenha o tratamento em dia e tenha sempre à mão os números de emergência e os medicamentos de resgate. E não hesite em ligar para o serviço de teleconsulta da sua UBS ou para o SAMU (192) em caso de dúvida.
Termos Relacionados
- Crise hipertensiva: Elevação súbita e grave da pressão arterial. Pode levar a AVC ou infarto se não tratada.
- Crise de pânico: Ataque repentino de medo intenso,
Veja Também


