quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Dacriocistite

O que é O que é Dacriocistite?

No meu dia a dia como clínico geral, dacriocistite é uma daquelas palavras que, quando o paciente ouve, fica assustado – mas na maioria das vezes é um problema mais simples do que parece. Trata-se de uma inflamação (geralmente infecciosa) do saco lacrimal, uma estrutura do tamanho de um pequeno feijão localizada no canto interno do olho, perto do nariz. Esse saco é responsável por drenar as lágrimas para o nariz. Quando o canal que leva a lágrima para o nariz (ducto lacrimonasal) fica obstruído, as lágrimas acumulam, criando um ambiente perfeito para bactérias crescerem. O resultado? Olho que lacrimeja constantemente, inchaço doloroso no canto do olho e, muitas vezes, um “pus” que sai ao pressionar a região.

Nas clínicas populares e no SUS do Brasil, a dacriocistite aparece com frequência, especialmente em dois grupos: recém-nascidos (até 1 ano) e mulheres acima dos 40 anos. Segundo dados do Ministério da Saúde, a obstrução congênita do ducto lacrimal afeta cerca de 5% a 10% dos bebês nascidos a termo. Já nos adultos, a dacriocistite crônica é mais comum em mulheres, principalmente após a menopausa – por alterações anatômicas e hormonais que estreitam o ducto. No meu consultório, já vi de mães com bebês de 3 meses com olho “remelando” sem parar a pacientes idosas que chegam com um caroço dolorido no canto do olho há dias.

É importante saber que, se não tratada, a dacriocistite pode evoluir para um abscesso (acúmulo de pus) e até causar infecções mais graves, como celulite orbitária – uma emergência. Por isso, o diagnóstico precoce e o tratamento correto são essenciais. E, ao contrário do que muitos pensam, não é uma doença contagiosa, mas o pus pode contaminar o outro olho se houver contato.

Como funciona / Características

Vou explicar de forma que qualquer paciente entenda. Imagine uma pia de cozinha: a lágrima é a água, o saco lacrimal é o ralo e o ducto lacrimonasal é o cano. Se o cano entope, a água fica parada no ralo e, com o tempo, cria um “bolor” – no caso, bactérias. Esse acúmulo de lágrima e bactérias inflama o saco lacrimal, causando dacriocistite.

Pacientes com dacriocistite aguda chegam com frequência no pronto‑atendimento do SUS com um inchaço bem localizado, dolorido, quente e avermelhado no canto interno do olho (região do “carúnculo”). Muitas vezes, ao apertar levemente o local, sai uma secreção amarela ou esverdeada – o que confirma o diagnóstico. Já na forma crônica, o inchaço não é tão intenso, mas o olho fica constantemente lacrimejando (epífora) e pode ter secreção matinal. Em bebês, o sinal mais clássico é o “olho que chora sem estar chorando” e, às vezes, um pouco de secreção pegajosa.

Na prática clínica, eu sempre oriento os pacientes: nunca apertem o caroço em casa! Isso pode empurrar a infecção para os tecidos mais profundos e piorar o quadro. O tratamento inicial (dependendo da gravidade) pode ser feito com compressas mornas, massagem suave (técnica de Crigler) e colírios antibióticos, mas muitos casos necessitam de sondagem do ducto (em bebês) ou cirurgia (Dacriocistorrinostomia – DCR) nos adultos.

Tipos e Classificações

Na literatura médica brasileira, classificamos a dacriocistite de acordo com o tempo de evolução e a presença de complicações:

  • Dacriocistite aguda: Início súbito, com dor, edema, eritema e febre baixa. Geralmente causada por bactérias como Staphylococcus aureus e Streptococcus pneumoniae.
  • Dacriocistite crônica: Sintomas mais leves e duradouros (semanas a meses). Olho lacrimejante, secreção mucosa ou purulenta intermitente e moderada. Pode ser silenciosa por longos períodos.
  • Dacriocistite neonatal (congênita): Presente ao nascer ou nos primeiros meses de vida, por obstrução incompleta do ducto lacrimonasal (persistência da membrana de Hasner). É o tipo mais comum em bebês e tem alta taxa de resolução espontânea até os 12 meses.
  • Dacriocistite recorrente: Episódios repetidos, geralmente associados a obstrução persistente do ducto ou a fatores de risco como desvio de septo nasal, rinite alérgica ou uso de colírios com conservantes.
  • Dacriocistite complicada: Presença de abscesso, fístula (comunicação entre o saco lacrimal e a pele) ou celulite orbitária. Exige tratamento intravenoso e cirúrgico de urgência.

No CPF (Código de Procedimentos do SUS) e nas diretrizes do CFM, o diagnóstico diferencial inclui a exclusão de tumores nasais (raros) e doenças granulomatosas.

Quando procurar um médico

Se você ou seu filho apresentarem algum dos sinais abaixo, não espere: marque uma consulta na UBS, clínica popular ou oftalmologista pelo SUS. Quanto mais cedo tratarmos, menos risco de complicações.

  • Inchaço doloroso no canto do olho (próximo à base do nariz) que piora com o tempo;
  • Olho que não para de lacrimejar, mesmo sem emoção ou vento;
  • Secreção amarela, verde ou esbranquiçada que sai pelo canto do olho, principalmente ao acordar;
  • Febre baixa associada (na forma aguda);
  • Verme com febre e choro excessivo (em bebês, pode ser o único sinal);
  • Dificuldade para abrir completamente o olho devido ao inchaço;
  • Retorno de episódios após tratamento anterior (pode indicar necessidade de cirurgia).

No SUS, o atendimento segue os protocolos da série “Saúde Ocular” do Ministério da Saúde. O encaminhamento para a oftalmologia é feito pela Unidade Básica de Saúde (UBS). Em clínicas populares, o médico generalista inicia o tratamento clínico e, se necessário, solicita avaliação especializada – não hesite em perguntar ao seu médico sobre a melhor conduta.

Termos Relacionados

  • Epífora: Nome técnico para o lacrimejamento excessivo, que é um dos sintomas mais comuns da dacriocistite. Pode ser causada por obstrução do ducto lacrimal ou por excesso de produção de lágrimas.
  • Obstrução do ducto lacrimonasal: Bloqueio do canal que leva as lágrimas do olho até o nariz. É a causa principal da dacriocistite.
  • Sondagem lacrimal: Procedimento simples feito com uma sonda fina para desobstruir o ducto lacrimal, muito utilizado em bebês com dacriocistite congênita.
  • Dacriocistorrinostomia (DCR): Cirurgia que cria um novo caminho para as lágrimas desaguarem no nariz, indicada quando a obstrução não se resolve com tratamentos conservadores.
  • Abscesso lacrimal: Complicação da dacriocistite aguda, onde o pus se acumula no saco lacrimal, formando um caroço tenso e doloroso. Pode exigir drenagem cirúrgica.
  • Conjuntivite: Inflamação da conjuntiva (membrana que reveste o olho). Muitas vezes é confundida com dacriocistite, mas a conjuntivite costuma coçar e não produz o inchaço no canto do olho.
  • Celulite orbitária: Infecção grave dos tecidos ao redor do olho, que pode ocorrer se a dacriocistite não for tratada. Causa inchaço, dor, vermelhidão intensa e febre alta – é uma emergência médica.
  • Técnica de Crigler: Massagem suave sobre o saco lacrimal, indicada para ajudar a desobstruir o ducto em bebês. Deve ser ensinada pelo médico.

Perguntas Frequentes sobre O que é Dacriocistite

Dacriocistite tem cura? Quanto tempo dura?

Sim, tem cura. Em bebês, cerca de 90% dos casos se resolvem espontaneamente até os 12 meses, especialmente com massagens e cuidados. Em adultos, o tratamento clínico com antibióticos e colírios melhora os sintomas, mas a cirurgia (DCR) é a única forma de curar a obstrução definitivamente. O tempo de tratamento varia: a fase aguda melhora em 5 a 7 dias com antibióticos; a cirurgia resolve de forma permanente.

Dacriocistite é contagiosa? Posso passar para meu filho?

Não, ela não é transmitida de pessoa para pessoa. A infecção ocorre por bactérias que já vivem no próprio nariz ou pele, que se proliferam quando o ducto entope. No entanto, a secreção purulenta pode contaminar pertences pessoais (toalhas, fronhas) e levar a uma conjuntivite em outro olho – por isso lave bem as mãos e não compartilhe objetos.

O que pode causar dacriocistite em adultos?

As causas mais comuns são: envelhecimento (estreitamento natural do ducto após os 40 anos), rinite alérgica crônica, desvio de septo nasal, pólipos nasais, tabagismo, uso de colírios com conservantes, traumas faciais e, em casos raros, tumores. Em mulheres, a incidência é maior devido a alterações hormonais e anatômicas.

Dacriocistite em bebê: o que fazer em casa?

Não remova a “remela” com os dedos sujos. Limpe com gaze estéril e soro fisiológico, sempre de dentro para fora do olho. Faça a massagem de Crigler (movimento suave do canto do olho em direção ao nariz) 2 a 3 vezes ao dia, após lavar bem as mãos. Se notar piora, inchaço ou febre, procure um pediatra ou oftalmologista. A sondagem é segura e feita no SUS.

Preciso de cirurgia para tratar dacriocistite?

Nem sempre. Bebês e muitos adultos com obstrução parcial respondem bem a tratamentos clínicos. A cirurgia (DCR) é indicada quando: há abscesso, a obstrução é completa, os sintomas são recorrentes ou há risco de celulite orbitária. O SUS oferece a cirurgia em hospitais de referência, com boa taxa de sucesso (acima de 90%).

Qual médico trata a dacriocistite?

O clínico geral ou pediatra pode fazer o diagnóstico inicial e prescrever antibióticos e compressas. Caso não haja melhora em 7–10 dias, o paciente é encaminhado ao oftalmologista (especialista em olhos) ou, em alguns centros, ao otorrinolaringologista (especialista em nariz), pois a cirurgia envolve o acesso nasal.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.

Para mais informações, consulte o Ministério da Saúde – Saúde Ocular e a página oficial do Conselho Federal de Medicina.