O que é O que é Dacriocistocele?
Você já notou uma bolinha azulada, arroxeada ou avermelhada no cantinho do olho do seu bebê, perto do nariz? Principalmente nos primeiros dias ou semanas de vida? Essa é a aparência típica de uma dacriocistocele – um termo técnico que, em bom português, significa um cisto formado na região do saco lacrimal, que fica na parte interna dos olhos. No meu dia a dia de 15 anos atendendo no SUS e em clínicas populares de Fortaleza, vejo muitos pais assustados com essa “bolinha”, que parece um hematoma, mas geralmente não dói, não coça e, na maioria das vezes, é benigna e temporária.
A dacriocistocele ocorre quando o ducto que leva as lágrimas do olho para o nariz (chamado ducto nasolacrimal) está obstruído – fechado ou muito estreito – logo ao nascimento. As lágrimas, que são produzidas continuamente, não conseguem escoar. Acumulam-se no saco lacrimal, distendendo-o e formando uma saliência azulada ou translúcida. Como o bebê não consegue chorar “com lágrimas escorrendo” daquele olho (ou chora apenas com um olho lacrimejando), a região fica cheia de líquido. Se houver infecção bacteriana associada, a bolinha pode ficar avermelhada e com secreção – aí chamamos de dacriocistite.
No Brasil, a dacriocistocele congênita (presente desde o nascimento) é uma condição relativamente comum. Estima-se que entre 1% e 2% dos recém-nascidos apresentem algum grau de obstrução congênita das vias lacrimais, e desses, uma pequena parcela evolui para a forma cística da dacriocistocele. Dados do Ministério da Saúde apontam que a maioria dos casos se resolve espontaneamente até os 12 meses de vida, sem necessidade de cirurgia. Nas clínicas populares e nos postos de saúde do SUS, o manejo inicial é conservador: orientamos os pais a realizarem massagem delicada no local e compressas mornas. É raro precisarmos de intervenção imediata, mas quando há sinais de infecção ou dificuldade respiratória (se o cisto crescer para dentro do nariz), encaminhamos ao oftalmologista pediátrico.
Importante: a dacriocistocele não é um “caroço” ou tumor. É um cisto cheio de lágrimas. O diagnóstico é clínico, feito pelo pediatra ou clínico geral com uma simples observação e palpação. Exames de imagem (como ultrassom ou ressonância) raramente são necessários, salvo suspeita de complicações. O tratamento no SUS segue o protocolo do Ministério da Saúde e as diretrizes do Conselho Federal de Medicina (CFM), priorizando o manejo não invasivo nos primeiros meses.
Como funciona / Características
Pense no sistema lacrimal como um ralo de pia: as lágrimas são produzidas na glândula lacrimal (acima do olho), banham a superfície do olho e, em vez de escorrerem pela bochecha, são sugadas para dois pequenos orifícios (pontos lacrimais) no canto interno das pálpebras. Daí, elas seguem por canalículos até o saco lacrimal, e depois descem pelo ducto nasolacrimal até o nariz, onde são deglutidas ou eliminadas. Quando esse “cano” está entupido – geralmente por uma membraninha que não se rompeu no momento do nascimento – o líquido se acumula, distendendo o saco lacrimal. Surge a dacriocistocele.
Na prática da clínica popular, é muito comum a mãe chegar dizendo: “Doutor, meu bebê nasceu com uma bolinha roxa no olho, nasceu com ela. O que é isso?”. Ao examinar, vemos uma tumoração arredondada, de consistência elástica, na região da “comissura palpebral interna” (cantinho do olho junto ao nariz). Pressionando levemente com o dedo, podemos até fazer o líquido refluir pelo ponto lacrimal, saindo uma gotinha de lágrima – isso confirma o diagnóstico. Se houver secreção amarelada ou esverdeada, já pensamos em infecção.
Características importantes:
– Geralmente é unilateral (em um olho só) – em cerca de 70% dos casos.
– A coloração azulada se deve à transparência da pele fina do bebê e ao líquido claro acumulado.
– Pode aumentar de tamanho quando o bebê chora ou faz força (por exemplo, evacua), porque a pressão intra-abdominal e facial sobe.
– Muitas vezes, o cisto é pequeno (0,5 a 1,5 cm) e regride sozinho até os 6 meses.
– O bebê não sente dor, a menos que haja infecção.
No dia a dia do SUS, a conduta é orientar a mãe a fazer a massagem de Crigler (massagem do saco lacrimal) de 3 a 5 vezes ao dia, sempre após as mamadas, com o dedo indicador limpo e unha cortada. A massagem consiste em pressionar suavemente de cima para baixo, do canto interno do olho em direção ao nariz, como se estivesse “ordenhando” o cisto. Isso ajuda a romper a membraninha e a drenar o líquido. Também orientamos compressas mornas (água filtrada fervida e resfriada) por 5 minutos, duas vezes ao dia, para aliviar a tensão local.
Se a dacriocistocele não desaparecer até os 12 meses, ou se houver infecção de repetição, o tratamento de segunda linha é a sondagem do ducto lacrimal, um procedimento simples feito com anestesia tópica ou sedação leve. No SUS, isso é feito em ambulatório de oftalmologia pediátrica. Raramente é necessária uma cirurgia (dacriocistorrinostomia).
Tipos e Classificações
Embora a maioria dos casos seja congênita e simples, a dacriocistocele pode ser classificada de acordo com a localização e a presença de complicações. No Brasil, usamos principalmente a classificação clínica:
– **Dacriocistocele congênita simples**: aquela que aparece nos primeiros dias de vida, sem sinais de infecção. Cor azulada ou translúcida, sem dor, sem febre. É a mais comum e com bom prognóstico.
– **Dacriocistocele infectada (ou dacriocistite aguda)**: quando há contaminação bacteriana do líquido retido. O cisto fica vermelho, quente, dolorido; pode haver secreção purulenta pelo ponto lacrimal, febre e irritabilidade no bebê. Exige tratamento com antibióticos (via oral ou tópica) e, às vezes, drenagem.
– **Dacriocistocele intranasal (ou intranasal)**: o cisto se projeta para dentro da cavidade nasal, podendo obstruir a respiração do recém-nascido, que respira exclusivamente pelo nariz nos primeiros meses. É uma emergência que requer encaminhamento imediato para otorrinolaringologista. Felizmente, é rara – corresponde a menos de 5% dos casos.
Além disso, podemos classificar quanto ao lado: unilateral (mais frequente) ou bilateral (ambos os olhos). Casos bilaterais são menos comuns e podem estar associados a síndromes genéticas, como a síndrome de Down, que apresenta maior incidência de obstrução congênita das vias lacrimais.
O CFM e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia recomendam que o diagnóstico diferencial seja feito com outras causas de tumoração no canto do olho, como cisto dermoide, hemangioma, encefalocele (hérnia de tecido cerebral) e celulite periorbitária. Por isso, o exame clínico minucioso é fundamental. No SUS, com o apoio da atenção básica, a grande maioria dos casos é corretamente identificada na primeira consulta de puericultura.
Quando procurar um médico
Desde os primeiros dias de vida, se você notar qualquer bolinha ou inchaço na região do canto do olho do seu filho, leve ao pediatra ou ao clínico geral no posto de saúde, na UBS (Unidade Básica de Saúde) ou na clínica popular. Não precisa ser um oftalmologista de primeira – o diagnóstico inicial pode ser feito pelo médico da família. Mas existem situações que exigem urgência:
– **Sinais de infecção** – vermelhidão intensa, inchaço aumentando rapidamente, dor (bebê chora ao toque), secreção amarelada/verde, febre (temperatura acima de 37,5°C axilar).
– **Dificuldade para respirar** – se o bebê está “roncando” ou com ruídos respiratórios, especialmente na amamentação, e parece que o nariz está entupido do lado da bolinha. Pode ser uma dacriocistocele intranasal.
– **Piora progressiva** – o cisto não diminui com as massagens e parece crescer dia após dia.
– **Persistência após os 12 meses** – mesmo sem complicações, se a dacriocistocele não desapareceu até 1 ano de idade, é hora de consultar um oftalmologista para avaliar a necessidade de sondagem.
Além disso, mantenha a calma: a grande maioria dos casos se resolve sem intervenção. O médico vai orientar as massagens e o acompanhamento. No SUS, você pode agendar retornos mensais ou bimensais para acompanhamento até a resolução. Se precisar de especialista, o Sistema Único de Saúde oferece referência para oftalmologia pediátrica, embora o tempo de espera possa variar conforme a região. Em clínicas populares, o atendimento costuma ser mais rápido.
Lembre-se: nunca tente furar ou espremer o cisto em casa. Isso pode causar infecção grave. Também não use colírios ou pomadas sem prescrição.
Termos Relacionados
- Dacriocistite –


