O que é O que é Degeneração?
No dia a dia do consultório, especialmente no SUS e nas clínicas populares, a palavra Degeneração aparece quase como um atestado de desgaste natural do corpo. “Doutor, o raio-x mostrou degeneração no meu joelho. Isso quer dizer que estou estragado?” — essa é uma frase que escuto quase toda semana. A resposta é não, você não está “estragado”. Degeneração, em medicina, é o processo progressivo de perda da estrutura e da função de células, tecidos ou órgãos. Não é uma doença em si, mas o mecanismo por trás de dezenas de condições crônicas, especialmente aquelas ligadas ao envelhecimento.
No Brasil, esse conceito é central para entender a carga de doenças que lotam as filas do SUS. Segundo dados do IBGE, a população com 60 anos ou mais já ultrapassa 30 milhões de pessoas, e projeta-se que em 2060 os idosos serão mais de 25% da população. Com o envelhecimento, as chamadas doenças degenerativas — como a osteoartrite (artrose), a degeneração discal da coluna e as doenças neurodegenerativas (como Alzheimer) — tornaram-se a principal causa de dor crônica, incapacidade e procura por serviços de saúde. Na prática, a degeneração é o que vemos em uma radiografia de joelho com “bico de papagaio” (osteófitos), ou na perda gradual de visão de um paciente com degeneração macular relacionada à idade.
Clinicamente, a degeneração não é uma sentença. Ela pode ser acelerada por fatores que estão ao nosso redor: obesidade, tabagismo, sedentarismo, má alimentação e inflamações crônicas. Por outro lado, também pode ser retardada por hábitos saudáveis, fisioterapia e medicamentos adequados. O Ministério da Saúde, através da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, e a ANVISA, regulando medicamentos como anti-inflamatórios e suplementos, têm diretrizes claras para manejo desses quadros. Mas, infelizmente, o acesso a tratamentos de ponta ainda é um gargalo no Brasil, especialmente na atenção primária, onde a degeneração é muitas vezes confundida com “velhice normal” e subtratada.
Como funciona / Características
Imagine uma peça de roupa que você usa todo dia. Com o tempo, o tecido vai afinando, os fios se rompem, aparecem buracos. É mais ou menos isso que acontece com nossos tecidos biológicos no processo de degradação celular. No nosso corpo, as células estão constantemente se renovando. Com o avançar da idade, essa capacidade de regeneração diminui, e os danos moleculares (radicais livres, inflamação de baixo grau) se acumulam. A degeneração é a falência gradual dos mecanismos de reparo.
Na rotina clínica, isso se manifesta de formas bem concretas. Um paciente chega com dor no joelho ao descer escada. Ao exame, ouço crepitação (um estalido seco) e ele tem dificuldade para esticar totalmente a perna. A radiografia mostra estreitamento do espaço articular e os famosos “osteófitos”. Esse é o retrato clássico da osteoartrite (artrose), a doença degenerativa articular mais comum no Brasil. Segundo a Sociedade Brasileira de Reumatologia, a osteoartrite afeta cerca de 15% da população adulta, chegando a mais de 30% acima dos 65 anos. No SUS, é uma das principais causas de atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e de fila para ortopedia.
Outro exemplo cotidiano: a degeneração discal. O paciente, geralmente a partir dos 40 anos, queixa-se de dor nas costas que piora ao sentar ou ao carregar peso. Não há trauma. A ressonância magnética mostra discos “desidratados” e perda de altura. É a degeneração do disco intervertebral, que perde sua capacidade de amortecimento. Isso não é uma doença, mas sim o solo fértil para hérnias e artrose da coluna. Em clínicas populares, vejo muitos pacientes que, ao receberem esse diagnóstico, acham que vão ficar paralíticos. Aí entro com a parte mais importante: explicar que a degeneração não é igual a paralisia, e que na maioria dos casos ela pode ser controlada com exercícios, fortalecimento muscular e, em momentos de crise, anti-inflamatórios e fisioterapia.
Tipos e Classificações
Como clínico geral no Brasil, lido com diferentes padrões de degeneração. É útil conhecer as classificações mais usadas, pois elas orientam o tratamento e o encaminhamento no SUS:
- Degeneração Articular (Osteoartrite): A classificação mais usada é a de Kellgren-Lawrence, de 0 a 4. Grau 0: articulação normal. Grau 4: espaço articular ausente com grandes osteófitos. No SUS, essa classificação ajuda a definir se o paciente será encaminhado à ortopedia ou se pode ser acompanhado na atenção primária com medidas conservadoras.
- Degeneração Discal: Na ressonância, a classificação de Pfirrmann (1 a 5) descreve a hidratação e altura do disco. Já a classificação de Modic (tipos 1, 2 e 3) avalia as alterações na vértebra adjacente, indicando inflamação (tipo 1) ou esclerose (tipo 3). Esses achados são comuns em laudos de coluna e ajudam a guiar o tratamento, muitas vezes com repouso relativo e fisioterapia.
- Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI): Classificada em seca (90% dos casos, atrofia gradual) e úmida (neovascular, com crescimento anormal de vasos). No Brasil, o acesso a injeções intravítreas no SUS ainda é restrito, mas o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde define critérios para tratamento.
- Degeneração Neurológica: Doenças como Alzheimer e Parkinson são classificadas por estágios clínicos. O Alzheimer, por exemplo, segue os critérios do DSM-5 e do CFM para diagnóstico e rastreio nas UBS.
- Degeneração Metabólica: A esteatose hepática (fígado gorduroso) é um tipo de degeneração celular muito prevalente, associada à obesidade e resistência à insulina. A ultrassonografia abdominal (acessível no SUS) classifica em leve, moderada e grave.
- Degeneração Cardiovascular: A aterosclerose é o acúmulo de placas de gordura nas artérias. A classificação de Framingham (risco cardiovascular) é usada globalmente, e no Brasil o CFM e o Ministério


