O que é O que é Dermatomicose?
Dermatomicose é o nome técnico que a gente, aqui no consultório, usa para se referir às famosas “micoses de pele”. Elas são infecções causadas por fungos que adoram viver em lugares quentes e úmidos – exatamente o clima de boa parte do Brasil. Na prática do dia a dia, no SUS e nas clínicas populares de Fortaleza, atendo pelo menos uns três ou quatro pacientes por semana com esse problema. É uma das queixas mais comuns, especialmente entre quem trabalha muito tempo com os pés fechados (pedreiros, cozinheiros, profissionais da limpeza) ou quem tem contato frequente com animais.
Diferente do que muita gente pensa, dermatomicose não é “falta de higiene”. Ela pode pegar qualquer um: crianças que brincam descalças no quintal, adultos que usam academia sem secar bem o corpo, idosos com diabetes ou circulação comprometida. No Brasil, estima-se que cerca de 20 a 30% da população já tenha tido ou tenha uma micose de pele em algum momento da vida. Dados do Ministério da Saúde apontam que as dermatomicoses estão entre as dez causas mais frequentes de consultas na atenção básica, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, onde o calor e a umidade são mais intensos.
A boa notícia é que, na grande maioria dos casos, o tratamento é simples e acessível. No SUS, temos disponíveis antifúngicos tópicos (pomadas, cremes) e orais, todos padronizados pela RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais). A ANVISA regula esses produtos e garante que os genéricos tenham a mesma eficácia dos de marca. Mas é fundamental não se automedicar: cada tipo de fungo exige um manejo específico, e o uso errado de pomadas com corticoide, por exemplo, pode piorar a infecção.
Como funciona / Características
Os fungos causadores das dermatomicoses são seres microscópicos que se alimentam de queratina, uma proteína presente na camada mais superficial da nossa pele, nas unhas e nos cabelos. Eles se proliferam quando encontram calor, umidade e falta de ventilação. Por isso, as áreas mais afetadas são: entre os dedos dos pés (o famoso “pé de atleta”), a virilha (conhecida como “frieira”), as axilas, as dobras debaixo dos seios e o couro cabeludo.
No consultório, o paciente chega geralmente com uma queixa de coceira intensa, manchas avermelhadas ou esbranquiçadas, descamação, pequenas bolhas e, às vezes, mau cheiro. Um sinal clássico que eu sempre ensino é: se a mancha coça e tem uma borda mais elevada, com o centro mais claro, provavelmente é micose. Mas nem toda coceira é fungo – pode ser dermatite, alergia ou psoríase. Por isso, o diagnóstico clínico é essencial. Em alguns casos, faço uma raspagem leve da pele e envio para exame micológico direto, disponível nos laboratórios do SUS de média complexidade.
Um exemplo real que atendi semana passada: seu João, 58 anos, motorista de caminhão, chegou com uma mancha enorme na virilha e coceira que não o deixava dormir. Ele já tinha passado em farmácia e comprado uma pomada “milagrosa” que só piorou. Ao examinar, vi que era uma dermatofitose (um tipo de dermatomicose) agravada pelo suor e atrito. Passei cetoconazol creme por 21 dias e orientei a usar roupas de algodão, secar bem a região depois do banho e trocar de cueca duas vezes ao dia. Em duas semanas, ele já estava bem melhor.
Tipos e Classificações
A classificação mais usada na prática clínica brasileira, baseada no agente causador e na localização, é a seguinte:
- Dermatofitoses (tinea): causadas por fungos dermatófitos (Trichophyton, Microsporum, Epidermophyton). São as mais comuns. De acordo com o local, recebem nomes específicos: tinea pedis (pé), tinea cruris (virilha), tinea corporis (corpo), tinea capitis (couro cabeludo) e tinea unguium (unhas).
- Candidíase cutânea: causada pelo fungo Candida albicans, que vive naturalmente no nosso corpo mas se multiplica em excesso em situações de baixa imunidade, uso de antibióticos, diabetes ou umidade excessiva. Acomete áreas de dobras (axilas, virilha, embaixo das mamas) e a região genital.
- Pitiríase versicolor: popularmente chamada de “pano branco” ou “micose de praia”. Causada pelo fungo Malassezia furfur, que produz manchas claras (ou mais escuras) no tronco e braços, especialmente após exposição ao sol. Não coça na maioria dos casos, mas incomoda esteticamente.
- Onicomicose: micose nas unhas, de difícil tratamento. É muito comum em pessoas que frequentam salões de beleza, usam unhas postiças ou têm diabetes. A unha fica amarelada, grossa e quebradiça.
No Brasil, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde para micoses ungueais orienta o uso de antifúngicos orais (terbinafina, itraconazol) em ciclos prolongados, com acompanhamento médico. Já para as formas superficiais, as pomadas de primeira linha são cetoconazol, clotrimazol, miconazol e terbinafina.
Quando procurar um médico
Nem toda coceira ou mancha na pele requer uma consulta. Mas existem sinais de alerta que indicam que é hora de procurar um clínico geral ou um dermatologista, especialmente no SUS, onde a porta de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS). Procure atendimento se:
- A mancha não melhora depois de 7 a 10 dias usando um antifúngico de farmácia (sem corticoide)
- A lesão se espalha rapidamente ou aparece em várias partes do corpo
- Há dor, inchaço, pus ou febre – pode ser infecção bacteriana associada
- Você tem diabetes, HIV, está em tratamento quimioterápico ou usa imunossupressores
- A lesão está no couro cabeludo ou nas unhas, que exigem tratamento mais específico
- A coceira atrapalha o sono, o trabalho ou as atividades diárias
Na minha experiência, muitos pacientes demoram a procurar ajuda por vergonha ou por acharem que “vai passar sozinho”. Isso pode levar a complicações como a disseminação do fungo para outras áreas ou infecções bacterianas secundárias. Uma dica que sempre dou: se a mancha coçar e tiver descamação, não use corticoide (como Dipropionato de Betametasona, comum em pomadas “anti-inflamatórias”). Eles pioram a micose porque suprimem a resposta imunológica local.
Termos Relacionados
- Antifúngico tópico: medicamento em forma de creme, pomada ou spray aplicado diretamente sobre a lesão. Exemplos: cetoconazol, terbinafina, clotrimazol.
- Antifúngico sistêmico: comprimido ou cápsula que age em todo o corpo, usado para micoses extensas ou de unha. Exige acompanhamento médico e exames de fígado.
- Dermatofitose: infecção causada por fungos dermatófitos, que atacam queratina. Sinônimo de “tinea”.
- Exame micológico direto: coleta de escamas da pele ou unha para visualizar o fungo ao microscópio. Exame simples e barato, disponível no SUS.
- Hipoclorito de sódio (água sanitária): usado, com cautela, para desinfetar calçados e superfícies. Não deve ser aplicado na pele.
- Maceração: amolecimento da pele causado por umidade excessiva, facilitando a entrada de fungos.
- Pé de atleta: nome popular da tinea pedis, micose entre os dedos dos pés. Muito comum em homens que usam sapatos fechados o dia todo.
- Onicomicose: micose nas unhas das mãos ou pés. Tratamento longo e, muitas vezes, com antifúngicos orais.
- Pano branco (pitiríase versicolor): micose superficial que causa manchas claras no tronco, comum no verão. Não contagiosa.
Perguntas Frequentes sobre O que é Dermatomicose
Dermatomicose pega? Como se transmite?
Sim, algumas dermatomicoses são contagiosas, principalmente os dermatófitos. Eles se transmitem pelo contato direto com a pele de uma pessoa ou animal infectado, ou pelo contato com superfícies contaminadas: pisos de vestiários, toalhas, lençóis, sapatos, esteiras de academia. A candidíase, porém, não é considerada contagiosa, porque o fungo já vive no nosso corpo e só se multiplica quando há um desequilíbrio. Para evitar passar a micose para outras pessoas, evite compartilhar toalhas, roupas e calçados, e mantenha a lesão coberta (com roupas leves) durante o tratamento.
Pode passar pomada de farmácia sem receita?
Você pode comprar antifúngicos tópicos sem receita, como cetoconazol creme 2% ou terbinafina spray. Porém, minha orientação é: só use se você tiver certeza de que é micose. Muitas lesões parecidas são dermatites, psoríase ou até lúpus. Se em uma semana de uso não houver melhora, pare e procure atendimento. Além disso, evite pomadas que misturam antifúngico com corticoide (como “Tricin” ou “Fungusol”), muito comuns em farmácias populares. Elas aliviam a coceira rapidamente, mas o fungo volta mais forte e pode causar atrofia da pele.
Qual a diferença entre dermatomicose e candidíase?
Dermatomicose é o termo geral para qualquer infecção fúngica da pele. A candidíase é um tipo específico, causado pela Candida albicans. Enquanto as dermatofitoses costumam se apresentar como manchas anelares (em formato de círculo) com borda elevada, a candidíase aparece mais em áreas de dobras, com vermelhidão intensa, pequenas pústulas (bolinhas de pus) e aspecto “brilhante”. O tratamento também difere: para candidíase, usamos antifúngicos como nistatina ou miconazol; para dermatofitoses, cetoconazol ou terbinafina. Por isso, o diagnóstico correto é importante.
Dermatomicose pode virar câncer?
Não. As dermatomicoses são infecções benignas e não têm relação com o desenvolvimento de câncer de pele. Mas existe um porém: lesões que não cicatrizam e coçam por meses podem se infectar ou, raramente, esconder uma doença mais grave, como um linfoma cutâneo. Por isso, se uma mancha não melhora depois de tratada adequadamente, é fundamental investigar. Na minha prática, já vi casos de hanseníase (lepra) que foram confundidos com micose, e o diagnóstico precoce fez toda a diferença.
Como evitar micose no verão?
O verão brasileiro é o paraíso dos fungos. Para prevenir, siga estas dicas que oriento sempre: seque muito bem o corpo depois do banho, especialmente entre os dedos dos pés, virilha e axilas. Use roupas leves, de algodão, e evite ficar com roupa molhada (suor ou praia) por muito tempo. Em piscinas e clubes, ande de chinelo. Não compartilhe toalhas, lençóis ou roupas íntimas. Se você tem diabetes, mantenha a glicemia controlada. E, se notar qualquer mancha diferente, não espere agravar: trate logo no início.
O SUS tem tratamento gratuito para dermatomicose?
Sim, totalmente. Nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nas clínicas populares conveniadas ao SUS, o clínico geral ou o enfermeiro podem diagnosticar e prescrever o tratamento. Os medicamentos tópicos (cetoconazol, clotrimazol) e orais (terbinafina, itraconazol) estão na lista de medicamentos do componente básico da assistência farmacêutica, distribuídos gratuitamente nas farmácias populares e nas unidades de saúde. Para casos mais complexos, como micose de unha, há encaminhamento para dermatologia nos ambulatórios de especialidades. Não deixe de procurar por vergonha ou por achar que o SUS não cobre – ele cobre sim, e bem.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.
Para mais informações, consulte o site oficial do Ministério da Saúde sobre dermatomicoses e a página do Conselho Federal de Medicina com orientações aos pacientes.


