O que é Descolamento de retina?
O descolamento de retina é uma emergência oftalmológica que acontece quando a camada sensível à luz, localizada no fundo do olho (a retina), se separa do tecido que a nutre (o epitélio pigmentar). Pense na retina como o “filme” de uma câmera fotográfica; se esse filme descola, a imagem deixa de ser formada. Na prática clínica aqui do SUS e das clínicas populares, eu vejo casos em que o paciente chega assustado, relatando que “baixou uma cortina preta” ou que passou a ver pontos pretos flutuantes (“moscas volantes”) de repente. Muitos demoram para procurar ajuda por achar que é apenas cansaço ou “vista cansada”, mas cada hora perdida pode comprometer a visão de forma definitiva.
No Brasil, estima-se que ocorra cerca de 1 caso para cada 10 mil habitantes por ano, sendo mais comum em pessoas com miopia elevada (acima de 6 graus), em quem já fez cirurgia de catarata, em traumatismos oculares e em pacientes com histórico familiar. No contexto do SUS, o atendimento inicial é feito nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou nas Upas, onde o clínico geral (como eu) faz o primeiro acolhimento, testa a acuidade visual e encaminha com urgência para o oftalmologista. O Ministério da Saúde classifica o descolamento de retina como condição que requer atendimento prioritário na Rede de Atenção às Urgências e Emergências (RUE). Acesse a página oficial do Ministério da Saúde sobre descolamento de retina para mais informações.
O tratamento é cirúrgico e, felizmente, o SUS cobre as principais técnicas (vitrectomia, retinopexia com laser, etc.) em hospitais credenciados. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de recuperação da visão. Por isso, todo clínico geral e oftalmologista brasileiro deve estar apto a reconhecer os sinais de alerta e orientar o paciente corretamente.
Como funciona / Características
O descolamento de retina ocorre, na maioria dos casos, quando o vítreo (gel transparente que preenche o olho) se desprende da retina e, ao se soltar, pode rasgá-la. Através desse rasgo, o líquido vítreo extravasa e se acumula embaixo da retina, forçando-a a se soltar como um papel de parede que descola da parede úmida. No dia a dia da clínica, explico aos pacientes com uma analogia: “Imagine que o olho é um balão de ar e a retina forra a parte interna da bola. Se aparece um furinho, o ar entra atrás da forração e ela descola”.
Os sintomas costumam aparecer de repente e incluem:
– Fotopsias: flashes de luz, geralmente nos cantos do campo visual, como “relâmpagos” quando se mexe os olhos.
– Moscas volantes: pontos, manchinhas ou fios que flutuam no campo de visão, principalmente em fundos claros.
– Escotoma: uma sombra ou “cortina” que avança do canto da visão para o centro, como se alguém estivesse fechando uma persiana.
É importante lembrar que esses sintomas podem aparecer isoladamente ou combinados. Muitos pacientes chegam dizendo que “viram um flash forte” e, em seguida, “apareceram um monte de pontinhos pretos”. No exame de fundo de olho (oftalmoscopia) o profissional consegue ver a retina descolada, que aparece como uma área acinzentada. O ultrassom ocular também pode ser usado quando a visualização é difícil.
Tipos e Classificações
Na prática clínica brasileira, classificamos o descolamento de retina de acordo com a causa e o mecanismo. A classificação mais usada é:
- Descolamento regmatogênico – o mais comum (cerca de 85% dos casos). Ocorre por um rasgo ou buraco na retina por onde o líquido vaza. Está muito associado à miopia, à degeneração retiniana periférica (como a degeneração em treliça) e ao descolamento posterior do vítreo (DVP). É o tipo que vemos com mais frequência aqui no Brasil.
- Descolamento tracional – causado por tração de membranas fibrosas na superfície da retina, geralmente em pacientes com retinopatia diabética proliferativa ou trauma ocular. No SUS, a retinopatia diabética é uma causa importante, especialmente em pacientes com diabetes descontrolada.
- Descolamento exsudativo – forma-se acúmulo de líquido abaixo da retina sem rasgo, devido a inflamações (uveítes), tumores ou malformações vasculares. É o tipo menos frequente e exige investigação de causas sistêmicas.
Além disso, os oftalmologistas brasileiros costumam graduar a extensão (em horas de relógio) e se a mácula (região central da retina, responsável pela visão de detalhes) está ou não comprometida. A presença de descolamento macular piora o prognóstico visual. O Conselho de Medicina do Brasil (CFM) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO) recomendam que o diagnóstico e o tratamento sejam feitos o mais rápido possível, preferencialmente em até 24 horas após o início dos sintomas. Consulte as orientações do CFM sobre urgências oftalmológicas.
Quando procurar um médico
Se você apresentar qualquer um dos sintomas abaixo, procure imediatamente um serviço de urgência oftalmológica:
– Aparecimento súbito de flashes de luz, especialmente ao movimentar os olhos no escuro.
– Aumento repentino do número de moscas volantes (como se tivesse uma nuvem de mosquitos).
– Sensação de uma sombra ou cortina que cobre parte da visão (como se houvesse uma persiana descendo).
– Visão embaçada ou distorcida que não melhora com piscar.
Lembre-se: não existe colírio ou remédio caseiro que resolva o descolamento de retina. Quanto mais cedo você for atendido, maiores as chances de preservar a visão. No SUS, o caminho é: vá a uma UBS ou UPA, relate os sintomas e peça encaminhamento de urgência para o oftalmologista. Se você já tem consulta marcada, mas os sintomas piorarem, vá ao pronto-socorro – não espere. Em clínicas populares, muitas vezes o clínico geral pode fazer a triagem e solicitar avaliação oftalmológica no mesmo dia.
Termos Relacionados
- Retina: camada de tecido sensível à luz no fundo do olho, responsável por transformar estímulos luminosos em impulsos nervosos.
- Corpo vítreo: gel transparente que preenche o interior do olho, responsável por manter a forma do globo ocular.
- Moscas volantes: manchas ou fios que parecem flutuar no campo visual, comuns no descolamento posterior do vítreo e no descolamento de retina.
- Fotopsias: flashes ou lampejos de luz vistos pelo paciente, geralmente nos cantos da visão, indicando tração da retina.
- Vitrectomia: cirurgia para remover o vítreo e reparar a retina, tratamento principal do descolamento regmatogênico.
- Retinopexia a laser: procedimento que utiliza laser para “soldar” rasgos ou buracos na retina, prevenindo o descolamento.
- Mácula: região central da retina responsável pela visão de detalhes (leitura, reconhecimento de rostos). Seu descolamento compromete a visão central.
- Miopia: condição na qual o olho é mais alongado, aumentando o risco de degenerações retinianas e descolamento.
Perguntas Frequentes sobre Descolamento de retina
1. Quem tem mais risco de ter descolamento de retina?
Pessoas com miopia alta (acima de 6 graus), quem já fez cirurgia de catarata, pacientes com traumatismo ocular, histórico familiar de descolamento, portadores de doenças como retinopatia diabética e quem tem degeneração retiniana periférica, como a degeneração em treliça. No Brasil, a miopia é o fator de risco mais comum, especialmente em jovens adultos. Além disso, o envelhecimento natural do vítreo (descolamento posterior do vítreo) aumenta o risco após os 40 anos.
2. O descolamento de retina dói?
Não, o descolamento de retina em si não causa dor. Os sintomas são visuais: flashes, moscas volantes, sombra. Muitos pacientes demoram a procurar ajuda justamente por não sentir dor. Mas atenção: a ausência de dor não significa que não seja urgente. Se você notar qualquer alteração visual súbita, procure atendimento.
3. Existe tratamento sem cirurgia?
Depende. Se for um rasgo ou buraco na retina sem descolamento, pode ser tratado com fotocoagulação a laser ou crioterapia (congelamento) para selar a lesão. Esses procedimentos são feitos em consultório e evitam que o líquido entre. Já quando a retina já está descolada, a cirurgia (vitrectomia ou retinopexia com gás/silicone) é necessária. Quanto mais cedo, melhor o resultado.
4. Qual o tempo de recuperação após a cirurgia?
A recuperação varia, mas geralmente o paciente precisa manter a cabeça em uma posição específica (de cabeça para baixo ou de lado) por alguns dias a semanas, para que o gás ou óleo de silicone mantenha a retina no lugar. A visão pode demorar semanas ou meses para melhorar, e muitas vezes a acuidade visual não volta ao normal, especialmente se a mácula estava descolada. É fundamental seguir as orientações pós-operatórias e os retornos.
5. O descolamento de retina pode voltar?
Sim, há risco de recidiva, especialmente nos primeiros meses após o tratamento. O oftalmologista acompanha de perto. Fatores como proliferação vítreo-retiniana (cicatrização anormal) podem causar novo descolamento. Por isso, o acompanhamento com exames de fundo de olho é essencial. Se você já teve um episódio, fique atento a novos sintomas.
6. O SUS cobre o tratamento do descolamento de retina?
Sim, o SUS cobre o diagnóstico e o tratamento cirúrgico do descolamento de retina, incluindo vitrectomia, laser e gases. O paciente deve ser encaminhado pela UBS ou UPA para um serviço de oftalmologia de referência. O acesso pode demorar dependendo da região, mas a urgência deve ser respeitada. Em casos críticos, a justiça pode ser acionada, mas geralmente as centrais de regulação priorizam esses casos. É importante ter o exame de fundo de olho e laudo médico para agilizar.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


