O que é Deslocamento do disco articular?
O deslocamento do disco articular é uma condição que afeta a articulação temporomandibular (ATM) – a “dobradiça” que conecta o maxilar inferior ao crânio, localizada na frente de cada orelha. Dentro dessa articulação existe um disco de cartilagem que funciona como um amortecedor entre os ossos, permitindo movimentos suaves de abrir e fechar a boca, mastigar e falar. Quando esse disco sai da sua posição normal, ocorre o deslocamento do disco articular, o que pode provocar estalos, dor, travamento da mandíbula e dificuldade para realizar tarefas simples do dia a dia.
Na minha prática de 15 anos no SUS e em clínicas populares do Brasil, essa é uma queixa muito comum, principalmente entre mulheres jovens e adultas, entre 20 e 40 anos. Muitas pacientes chegam ao consultório com a história de “estalo no queixo” ao mastigar, seguido de dor na região da orelha ou na face. O estalo pode ser indolor no início, mas com o tempo passa a ser acompanhado de dor e limitação dos movimentos. O deslocamento do disco articular está frequentemente associado ao bruxismo (ranger ou apertar os dentes), ao estresse emocional e a traumas na face, como pancadas ou acidentes.
Dados epidemiológicos indicam que cerca de 5% a 12% da população brasileira apresenta algum grau de disfunção temporomandibular (DTM), sendo o deslocamento do disco uma das formas mais comuns. No Sistema Único de Saúde, esse problema é atendido na atenção primária (postos de saúde) e, quando necessário, encaminhado para especialistas em cirurgia bucomaxilofacial ou odontologia especializada em DTM. O Ministério da Saúde inclui o tratamento da DTM na Política Nacional de Saúde Bucal, e orienta que o diagnóstico precoce evita complicações como o travamento completo da mandíbula e o desgaste progressivo da articulação. Para saber mais sobre saúde bucal no SUS, consulte a página oficial: Ministério da Saúde – Saúde Bucal.
Como funciona / Características
Imagine que o disco articular é como um pequeno travesseiro gelatinoso entre dois ossos. Ele se move para frente e para trás toda vez que você abre ou fecha a boca, acompanhando o movimento da mandíbula. No deslocamento do disco articular, esse “travesseiro” escapa para uma posição anormal, geralmente para frente ou para um dos lados, e não retorna ao lugar sozinho.
No dia a dia do meu consultório, a paciente costuma relatar: “Doutor, quando mastico ou bocejo, sinto um estalo do lado esquerdo, e às vezes a boca trava e não consigo fechar direito.” Esse estalo é o som do disco passando de volta ao lugar. Muitas vezes, a pessoa aprende a “manobrar” a mandíbula para destravar, mas isso pode piorar a lesão com o tempo. A dor é mais comum durante a mastigação, ao falar por muito tempo ou ao acordar, especialmente em quem aperta os dentes à noite.
A condição pode ser progressiva. Inicialmente, o disco desloca e volta (estalo sem dor). Depois, o disco desloca e volta com dor. Em estágios mais avançados, o disco fica permanentemente deslocado (a boca trava totalmente, sem conseguir abrir ou fechar). O tratamento no SUS envolve orientação sobre hábitos (evitar comidas duras, gomas de mascar), uso de placas de mordida (confeccionadas por dentistas) e, em casos refratários, fisioterapia ou cirurgia. A ANVISA regula os materiais usados nas placas (resinas acrílicas) e os dispositivos para fisioterapia, garantindo a segurança do paciente.
Tipos e Classificações
No Brasil, a classificação mais utilizada na prática clínica para o deslocamento do disco articular é baseada na classificação de Wilkes, que divide em três tipos principais:
- Deslocamento do disco com redução: o disco sai do lugar durante o movimento da mandíbula, mas volta ao normal espontaneamente, gerando um estalo. É a forma mais comum e geralmente indolor no início.
- Deslocamento do disco sem redução: o disco não retorna ao lugar, causando limitação na abertura da boca (a pessoa não consegue abrir mais que 2-3 dedos). Pode ser agudo (com instalação súbita) ou crônico (com adaptação progressiva).
- Deslocamento do disco com perfuração: em estágios avançados, o disco pode se romper, levando a artrose da ATM e dor crônica.
Outra forma de classificar é quanto à posição do disco deslocado: anterior (mais comum), medial, lateral ou posterior. O diagnóstico exige exame clínico e, frequentemente, exames de imagem como ressonância magnética da ATM, disponível no SUS em centros de referência. O Conselho Federal de Medicina (CFM) recomenda que o diagnóstico seja feito por profissional capacitado, e que o tratamento conservador seja sempre a primeira escolha. Para mais informações sobre as diretrizes do CFM para o tratamento da DTM, acesse: Conselho Federal de Medicina – CFM.
Quando procurar um médico
Você deve procurar atendimento médico ou odontológico se apresentar algum dos seguintes sinais de alerta:
- Estalo repetitivo ou doloroso ao abrir ou fechar a boca, especialmente se vier acompanhado de dor na face, ouvido ou cabeça.
- Dificuldade para abrir ou fechar completamente a boca (travamento), seja por segundos ou por horas. Quando trava e não volta, pode ser uma urgência.
- Dor ao mastigar, bocejar ou falar que piora com o tempo.
- Zumbido no ouvido, dor de cabeça frequente (especialmente na têmpora) ou dor no pescoço associada aos movimentos da mandíbula.
- Mudança na forma como os dentes se encaixam (sensação de que “o queixo está torto”).
- Trauma recente na face (pancada, acidente) com sintomas articulares.
Nas clínicas populares, oriento que o paciente não tente “forçar” o estalo ou fazer manobras para destravar a mandíbula, pois isso pode agravar o deslocamento. O primeiro passo é agendar uma consulta em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para avaliação inicial. O médico clínico geral ou o dentista da UBS poderá orientar e, se necessário, encaminhar para o especialista (cirurgião bucomaxilofacial ou odontólogo com formação em DTM). No SUS, o tratamento conservador (placa de mordida, fisioterapia) é oferecido gratuitamente em muitos municípios.
Termos Relacionados
- Articulação temporomandibular (ATM): a articulação que liga a mandíbula ao osso temporal do crânio; é o local onde ocorre o deslocamento do disco.
- Bruxismo: hábito involuntário de ranger ou apertar os dentes, especialmente durante o sono, que sobrecarrega a ATM e favorece o deslocamento do disco.
- Placa de mordida (ou placa oclusal): dispositivo de resina acrílica usado sobre os dentes para proteger a articulação e reduzir os sintomas; prescrito no tratamento conservador.
- Luxação da mandíbula: condição em que a cabeça da mandíbula sai completamente do encaixe (diferente do deslocamento do disco, mas às vezes associada).
- Disfunção temporomandibular (DTM): termo amplo que engloba dor e disfunção da ATM e músculos da mastigação; o deslocamento do disco é um tipo de DTM.
- Osteoartrose da ATM: degeneração da cartilagem da articulação, geralmente consequência de deslocamento crônico ou sobrecarga.
- Trauma facial: pancadas, quedas ou acidentes que podem deslocar o disco articular imediatamente.
- Fisioterapia para ATM: exercícios de alongamento, fortalecimento e mobilização da mandíbula, indicados para melhorar
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