O que é Desnutrição calórico-protéica severa?
A desnutrição calórico-protéica severa (também chamada de desnutrição grave) é a forma mais crítica da falta de nutrientes essenciais, especialmente calorias (energia) e proteínas. No dia a dia de uma clínica popular, infelizmente ainda vejo casos, principalmente em crianças de comunidades vulneráveis, idosos acamados e pessoas em situação de rua. Diferente de uma “fome passageira”, aqui o corpo já consumiu suas próprias reservas — gordura e músculo — e começa a falhar órgãos vitais. É uma emergência médica, pois o sistema imunológico fica tão debilitado que qualquer infecção simples (como uma diarreia ou pneumonia) pode matar.
No Brasil, a desnutrição severa está associada à pobreza extrema, insegurança alimentar e acesso precário à saúde. Dados do Ministério da Saúde (SISVAN, 2023) mostram que cerca de 2,5% das crianças menores de 5 anos atendidas na Atenção Básica apresentam déficit de peso grave, com maior concentração no Norte e Nordeste. Entre 2019 e 2022, houve um aumento de 60% na internação por desnutrição em crianças segundo o DATASUS. O SUS conta com a Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil e o Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A para prevenção, mas a realidade das clínicas populares mostra que muitas famílias chegam com atraso, quando o peso já está muito baixo.
É importante diferenciar: a desnutrição calórico-protéica severa não é “comer pouco de vez em quando”. É um estado prolongado onde a ingestão de energia e proteína fica abaixo do necessário por semanas ou meses. Pode se manifestar como marasmo (emagrecimento extremo, “pele e osso”) ou kwashiorkor (inchaço, barriga d’água, lesões de pele), ou ainda formas mistas. O tratamento exige internação hospitalar, realimentação cuidadosa (para evitar a “síndrome da realimentação”) e combate a infecções.
Como funciona / Características
O corpo humano precisa de um suprimento constante de energia (calorias) para manter o metabolismo basal — batimentos do coração, respiração, temperatura. Quando não recebe o suficiente, começa a quebrar a gordura armazenada e, depois, o tecido muscular (proteínas) para obter energia. Na desnutrição calórico-protéica severa, esse processo está avançado. O fígado, que produz proteínas importantes como a albumina, para de funcionar direito. A falta de albumina faz com que líquido escape dos vasos sanguíneos para os tecidos, causando inchaço (edema) — é o que vemos no kwashiorkor, com aquela “barriga de água”.
No consultório de uma clínica popular, o paciente chega frequentemente com queixas como “meu filho está muito magro e não quer comer”, ou “minha avó está fraca e caiu”. Ao exame, medimos o peso, altura e o perímetro braquial (uma fita no braço). Se o perímetro for menor que 11,5 cm em crianças de 6 a 59 meses, é sinal de desnutrição grave. Também avaliamos a presença de edemas nos pés e pernas. Muitas vezes, a criança tem diarreia persistente ou infecções de repetição — sinais de que o sistema imune está comprometido.
Um exemplo prático: Maria, 3 anos, filha de uma catadora de recicláveis. A mãe relata que a menina só come arroz com sal e, às vezes, caldo de feijão há meses. Maria pesa 8 kg (o esperado para a idade seria ~14 kg). Apresenta edemas nos pés, pele seca e falta de apetite. O diagnóstico é kwashiorkor (desnutrição edematosa). Internamos no SUS, iniciamos fórmula láctea especial (leite F75) e tratamos uma infecção urinária que estava “escondida”. A alta ocorre após 3 semanas, com ganho de peso e redução do inchaço.
Tipos e Classificações
No Brasil, usamos principalmente a classificação de Gomez (baseada no percentil do peso para idade) e a classificação de Waterlow (estatura para idade e peso para estatura). A desnutrição calórico-protéica severa corresponde ao grau III de Gomez (peso < 60% do esperado) e à forma grave na Waterlow (peso/estatura < 70% ou presença de edema).
Os dois grandes tipos clínicos são:
- Marasmo (desnutrição não edematosa): falta mais de calorias do que de proteínas. A criança parece “pele e osso”, sem gordura subcutânea, costelas aparentes, mas sem inchaço. É mais comum em menores de 1 ano.
- Kwashiorkor (desnutrição edematosa): predomina a falta de proteínas. Aparece edema (inchaço) por falta de albumina. A criança pode ter barriga grande, lesões de pele (dermatose) e cabelos quebradiços e descoloridos. Ocorre mais em crianças a partir de 1 ano que são desmamadas precocemente e recebem dietas pobres em proteína, como apenas carboidratos.
- Forma mista (Marasmo-Kwashiorkor): apresenta características dos dois tipos.
A ANVISA regulamenta as fórmulas infantis e os suplementos usados no tratamento (RDC 304/2019). O SUS distribui o leite de vaca em pó fortificado e o suplemento alimentar para crianças diagnosticadas com desnutrição grave, conforme protocolo do Ministério da Saúde.
Quando procurar um médico
Os sinais de alerta que indicam a necessidade de atendimento imediato em uma unidade de saúde (UBS, clínica popular ou pronto-socorro) são:
- Perda de peso rápida ou visível (roupas largas, rosto “encovado”).
- Inchaço nos pés, pernas ou barriga (mesmo que a criança não pareça magra).
- Fraqueza intensa: a criança não consegue brincar, o idoso mal levanta da cama.
- Diarreia ou vômito persistentes (mais de 3 dias).
- Febre sem causa aparente ou infecções repetidas (pneumonia, infecção urinária).
- Falta de apetite extremo (recusa total de alimentos ou líquidos).
- Mudanças na pele e cabelo: pele seca, descamando, manchas escuras; cabelo fino, quebradiço, desbotado.
Se a pessoa já está desidratada (olhos fundos, boca seca, urina escura e pouca), é uma emergência. O SUS garante atendimento por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e, nos casos graves, internação em hospitais de referência. Como clínico, sempre oriente: não espere a criança “emagrecer de vez”. Qualquer sinal de desnutrição deve ser avaliado, pois o tratamento precoce é mais simples e eficaz.
Veja mais orientações do Ministério da Saúde sobre desnutrição.
Termos Relacionados
- Segurança alimentar: acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente. Sua falta é a causa principal da desnutrição.
- Índice de massa corporal (IMC): relação peso/altura². Valores muito baixos (abaixo de 16 kg/m² em adultos) indicam desnutrição severa.
- Albumina: proteína produzida pelo fígado. Níveis baixos (< 2,0 g/dL) confirmam desnutrição proteica e explicam os edemas.
- Síndrome da realimentação: complicação potencialmente fatal quando um paciente desnutrido recebe alimentos (principalmente carboidratos) muito rapidamente. Ocorre desequilíbrio de fósforo, potássio e magnésio. Por isso o tratamento no SUS é supervisionado.
- Fórmula F75 e F100: leites terapêuticos usados na fase inicial e de recuperação da desnutrição severa, padronizados pela OMS e pelo SUS.
- Escore Z: medida estatística usada na classificação nutricional infantil. Um escore Z de peso para estatura abaixo de -3 indica desnutrição severa.
- Programa Bolsa Família: política de transferência de renda que, ao exigir acompanhamento de peso e vacinação, ajuda a prevenir e detectar precocemente a desnutrição em crianças.
- Suplementação de micronutrientes: no SUS, crianças com desnutrição recebem doses altas de vitamina A, zinco e ferro para corrigir deficiências específicas.
Perguntas Frequentes sobre O que é Desnutrição calórico-protéica severa
1. Desnutrição severa tem cura?
Sim, tem cura. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado (realimentação supervisionada, correção de deficiências vitamínicas, tratamento de infecções), a maioria das crianças e adultos se recupera completamente. O processo pode levar de semanas a meses. Infelizmente, casos muito avançados ou com outras doenças associadas podem ter sequelas ou até levar ao óbito. Por isso é fundamental não esperar.
2. Qual a diferença entre desnutrição leve e severa?
Na desnutrição leve, a pessoa está com baixo peso, mas ainda tem reservas de energia e o sistema imune funciona razoavelmente. Na desnutrição calórico-protéica severa, as reservas de gordura e músculo já estão quase esgotadas, há inchaço ou emagrecimento extremo, e o corpo não consegue se defender de infecções. A diferença é como comparar uma bateria fraca (leve) com uma bateria quase morta (severa).
3. A desnutrição severa afeta só crianças?
Não. Embora seja mais comum em crianças (devido ao crescimento rápido e maior vulnerabilidade), adultos e idosos também podem desenvolver a condição. Nos idosos, muitas vezes está associada a doenças crônicas, depressão, dificuldade de mastigação e solidão. Em clínicas populares, vejo muitos idosos que “comem só pão com café” e chegam muito debilitados.
4. Como o SUS trata a desnutrição severa?
O SUS possui um protocolo baseado nas diretrizes da OMS. Primeiro, a criança ou adulto é internado em hospital de referência. Nas primeiras 48 horas recebe a Fórmula F75 (leite com baixa densidade energética para não sobrecarregar o organismo). Depois, evolui para F100 (mais calórica) e, gradualmente, alimentos pastosos e sólidos. Paralelamente, são tratadas infecções (antibióticos, vermífugos) e corrigidas deficiências de vitaminas e minerais. A alta hospitalar ocorre quando o paciente ganha peso e não tem mais edema ou infecções ativas.
5. Comer mais proteína resolve a desnutrição severa?
Não é tão simples. Oferecer só proteína ou só carboidrato pode piorar o quadro, porque o corpo precisa de um balanço adequado de energia (calorias), proteínas, gorduras, vitaminas e minerais. Um paciente severamente desnutrido corre o risco de desenvolver a síndrome da realimentação se receber alimentos comuns (como arroz, feijão, leite) de repente. Por isso o tratamento deve ser feito por profissionais, usando fórmulas


