O que é Desnutrição calórico-protéica?
No dia a dia da clínica popular brasileira, Desnutrição calórico-protéica é um termo que vejo com frequência em pacientes que chegam ao consultório com queixas de cansaço extremo, perda de peso sem motivo aparente e infecções de repetição. Trata-se de uma condição clínica causada pelo consumo insuficiente de calorias e proteínas, os dois pilares básicos para o funcionamento do nosso organismo. As calorias fornecem energia para as atividades diárias; as proteínas são fundamentais para construir e reparar tecidos, produzir hormônios e anticorpos. Quando falta um ou ambos, o corpo começa a usar suas próprias reservas – primeiro a gordura, depois os músculos – resultando em emagrecimento, fraqueza e comprometimento do sistema imunológico.
No cenário brasileiro, a Desnutrição calórico-protéica ainda é uma realidade que atinge especialmente crianças menores de cinco anos, idosos e populações em situação de insegurança alimentar. Segundo dados do Ministério da Saúde e do IBGE, embora tenha havido queda expressiva nas últimas décadas graças a políticas como o Bolsa Família e a Estratégia de Saúde da Família, a desnutrição infantil ainda persiste em regiões Norte e Nordeste, e voltou a preocupar com o aumento da pobreza pós-pandemia. Na prática, atendo pacientes que vivem em áreas de vulnerabilidade, onde a alimentação é monótona, à base de arroz, feijão e, muitas vezes, sem acesso a carnes, ovos ou leite. O diagnóstico precoce na Atenção Básica (UBS) é fundamental, pois a desnutrição pode levar a atrasos no desenvolvimento, maior suscetibilidade a doenças e até óbito se não tratada a tempo.
A Desnutrição calórico-protéica não é apenas um problema de peso baixo. Ela envolve alterações metabólicas, deficiências de micronutrientes (como ferro, zinco e vitamina A) e impacto psicológico, já que a criança ou adulto desnutrido muitas vezes apresenta apatia e falta de apetite. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece acompanhamento nutricional, suplementação alimentar e, nos casos mais graves, internação hospitalar para reabilitação. Como médico, vejo que o acolhimento e a orientação alimentar com alimentos regionais e de baixo custo são as ferramentas mais eficazes no dia a dia.
Como funciona / Características
O corpo humano é inteligente: quando falta energia vinda dos alimentos, ele primeiro queima as reservas de gordura. Se a privação continua, passa a degradar as proteínas dos músculos, órgãos e pele. Isso gera uma série de alterações que podem ser percebidas no consultório:
- Perda de peso e massa muscular: o paciente fica mais magro, os braços e pernas afinam, a face parece encovada. Nos idosos, é comum confundirmos com o envelhecimento normal, mas quando há perda de peso não intencional de mais de 5% em um mês, devemos investigar desnutrição.
- Edema (inchaço): na forma chamada de kwashiorkor, típica em crianças com deficiência severa de proteínas mas ainda com algum consumo de calorias, o corpo acumula líquido nos pés, tornozelos e abdômen, dando aspecto de “barriga d’água”.
- Fraqueza e cansaço: o paciente relata dificuldade para realizar tarefas simples, como caminhar ou carregar compras. Crianças desnutridas ficam quietas e apáticas, sem energia para brincar.
- Alterações na pele e cabelo: a pele fica seca, descamativa, com tendência a dermatites. O cabelo perde o brilho, fica quebradiço e pode clarear (sinal de bandeira – áreas de descoloração alternadas).
- Infecções frequentes: a baixa produção de anticorpos deixa o organismo vulnerável a gripes, pneumonias, diarreias e infecções urinárias.
No meu consultório, um exemplo clássico é o paciente idoso que mora sozinho e se alimenta basicamente de chá com bolacha ao longo do dia. Ele chega reclamando de tontura e queda, a família nota que ele emagreceu muito. Outro caso comum é a criança de dois anos que só come mingau de maisena (sem leite ou ovo), com fezes amolecidas e sem ganhar peso há meses. A Desnutrição calórico-protéica se instala lentamente, por isso a família muitas vezes não percebe até que os sintomas se tornam evidentes.
Tipos e Classificações
Na prática clínica brasileira, utilizamos classificações que ajudam a definir a gravidade e orientar o tratamento. As principais são:
- Classificação de Gomez: baseada no déficit de peso em relação ao esperado para a idade. Leve (75-90% do peso esperado), moderada (60-74%) e grave (<60%). Muito usada em crianças no SISVAN (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional).
- Classificação de Waterlow: relaciona peso para altura (desnutrição aguda) e altura para idade (desnutrição crônica). Ajuda a diferenciar o tipo de intervenção.
- Apresentação clínica:
- Marasmo: deficiência calórica predominante. A criança ou adulto parece “só pele e osso”, sem edema. É comum em casos de fome prolongada.
- Kwashiorkor: deficiência proteica com ingestão calórica relativamente mantida. Há edema, lesões de pele, fígado gorduroso. Mais frequente em crianças que são desmamadas abruptamente e passam a receber apenas carboidratos.
- Desnutrição mista (marasmo-kwashiorkor): combinação dos dois quadros, com edema e perda muscular grave. É a forma mais severa.
No SUS, a classificação mais usada na Atenção Básica é a do Índice de Massa Corporal (IMC) para adultos e o escore Z (curvas da OMS) para crianças. Pacientes com IMC < 18,5 kg/m² em adultos são considerados com baixo peso e merecem investigação de Desnutrição calórico-protéica. A Caderneta da Criança do Ministério da Saúde traz gráficos de crescimento que sinalizam o risco.
Quando procurar um médico
Se você ou um familiar apresentar algum dos sinais abaixo, é importante buscar atendimento na Unidade Básica de Saúde (UBS) ou clínica popular mais próxima:
- Perda de peso não intencional (mais de 5% em 1 mês ou 10% em 6 meses).
- Fraqueza muscular progressiva, dificuldade para levantar da cama ou andar.
- Inchaço nos pés, tornozelos ou barriga, principalmente se acompanhado de emagrecimento.
- Falta de apetite persistente por mais de 2 semanas.
- Criança que não ganha peso ou não cresce conforme esperado (o pediatra ou enfermeiro avalia nas consultas de puericultura).
- Infecções de repetição (resfriados, diarreia, pneumonia) que não melhoram.
- Alterações na pele (feridas que demoram a cicatrizar, descamação) ou cabelo (quebra fácil, descoloração).
O médico irá solicitar exames simples como hemograma, albumina sérica (proteína no sangue) e, se necessário, exames de função hepática e renal. O tratamento começa com orientação alimentar e, nos casos moderados a graves, com suplementos nutricionais (fórmulas infantis ou dietas enterais) fornecidos pelo SUS. Em situações de desnutrição severa, a internação pode ser necessária para realimentação supervisionada, pois o “refeeding syndrome” (síndrome da realimentação) pode ser perigoso se feito de forma inadequada.
Termos Relacionados
- Insegurança alimentar: falta de acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade suficientes. É a principal causa social da Desnutrição calórico-protéica no Brasil.
- Marasmo: forma de desnutrição por déficit calórico total, com grave perda de massa muscular e gordura, sem edema.
- Kwashiorkor: forma de desnutrição por deficiência proteica, caracterizada por edema, lesões de pele e hepatomegalia.
- SISVAN: Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do Ministério da Saúde, que monitora o estado nutricional da população atendida no SUS.
- Suplementação alimentar: fornecimento de vitaminas, minerais ou fórmulas nutricionais para corrigir carências. O SUS oferece, por exemplo, o Suplemento Nutricional para crianças desnutridas (fórmula láctea).
- Escore Z: medida estatística usada para comparar o peso e altura de uma criança com a média da população de referência. Valores abaixo de -2 indicam desnutrição.
- Terapia de realimentação: processo gradual de reintrodução de alimentos em pacientes com desnutrição grave, sob supervisão médica para evitar complicações metabólicas.
- Múltiplas carências nutricionais: condição em que, além de calorias


