O que é Desnutrição energético-protéica grave?
A Desnutrição energético-protéica grave (DEP grave) é uma condição clínica severa causada pela falta prolongada e intensa de calorias e proteínas na alimentação. Em termos simples, o corpo não recebe combustível nem matéria-prima suficientes para manter seus órgãos funcionando, crescer, se defender de infecções e até mesmo para realizar atividades básicas do dia a dia. No Brasil, infelizmente, essa não é uma doença do passado: ela ainda atinge principalmente crianças em situação de extrema pobreza, idosos acamados ou com doenças crônicas, e adultos desnutridos por alcoolismo, transtornos alimentares ou doenças debilitantes.
Na minha experiência como clínico geral no SUS e em clínicas populares, atender um paciente com DEP grave é como ver o corpo entrando em modo de economia forçada. O organismo começa a consumir seus próprios músculos, gorduras e até órgãos para tentar obter energia e proteínas. O resultado é uma fraqueza profunda, inchaço (edema) nas pernas e braços, perda de massa muscular visível, cabelos quebradiços e, em crianças, parada do crescimento. Dados do Ministério da Saúde indicam que, apesar dos avanços do SUS na atenção básica e dos programas como o Bolsa Família, a desnutrição grave ainda é responsável por internações evitáveis, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, e em comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas.
É importante diferenciar a DEP grave da desnutrição leve ou moderada, que pode ser revertida com orientação alimentar e suplementação. Na forma grave, o paciente já apresenta alterações metabólicas, imunidade baixíssima (risco de infecções oportunistas como pneumonia e diarreia) e, muitas vezes, precisa de internação hospitalar para realimentação controlada, sob risco da chamada “síndrome da realimentação” – uma complicação grave que pode levar a arritmias e morte se a reposição de nutrientes for feita de forma inadequada. O CFM e a ANVISA possuem protocolos específicos para o manejo dessa condição, que deve ser conduzido por equipe multiprofissional (médico, nutricionista, enfermeiro).
Como funciona / Características
Para entender como a Desnutrição energético-protéica grave se manifesta, imagine que o corpo é uma casa que precisa de tijolos (proteínas) e energia (calorias) para se manter de pé. Quando falta comida por semanas ou meses, o organismo primeiro usa as reservas de gordura (energia estocada) e, depois, começa a quebrar os próprios músculos para obter aminoácidos – os “tijolos” das proteínas. Isso explica a perda de massa muscular (sarcopenia), o emagrecimento extremo e a fraqueza que vemos nos pacientes.
Na prática clínica, o paciente chega ao consultório ou à emergência com uma combinação de sinais que podem ser confundidos com outras doenças. Crianças com DEP grave (marasmo) apresentam aspecto de “pele e osso”, costelas à mostra, olhos fundos e fáceis de chorar por irritabilidade. Já a forma edematosa (kwashiorkor) é caracterizada por inchaço nos pés, mãos e rosto, que esconde a perda muscular – muitas vezes a família pensa que a criança “engordou”, mas na verdade é acúmulo de líquido por falta de proteínas no sangue. Em idosos, a DEP grave aparece como emagrecimento rápido, úlceras de pressão (escaras) que não cicatrizam, quedas frequentes e confusão mental.
No dia a dia de uma clínica popular, vejo muitos casos associados a doenças crônicas descompensadas: Diabetes mal controlado, DPOC, insuficiência cardíaca e câncer. O paciente perde o apetite, tem náuseas, e a família acredita que “é normal envelhecer e ficar magro”. Por isso, sempre pergunto: “Ele está comendo metade do que comia antes? Perdeu peso sem querer?”. A DEP grave é diagnosticada clinicamente com exame físico cuidadoso e medidas (peso, altura, circunferência do braço) – não precisa de exames caros. O Ministério da Saúde recomenda o uso do IMC (índice de massa corporal) e da circunferência do braço ou da panturrilha para triagem, principalmente em crianças e idosos.
Tipos e Classificações
A Desnutrição energético-protéica grave é classificada em dois grandes tipos, que podem se apresentar de forma isolada ou combinada. No Brasil, a classificação mais usada na prática clínica e nos protocolos do SUS é baseada na OMS:
- Marasmo (desnutrição seca): causada principalmente pela falta de calorias (energia). A criança ou adulto tem emagrecimento extremo, pele enrugada, perda de gordura subcutânea e músculos. Não há inchaço. É o tipo mais comum em situações de fome crônica generalizada.
- Kwashiorkor (desnutrição edematosa): resulta de uma deficiência mais grave de proteínas, mesmo que a ingestão de calorias seja razoável. O sinal principal é o edema (inchaço) por conta da baixa de albumina no sangue. A pele fica descamativa, o cabelo descolorido e a criança tem abdômen distendido. Pode ocorrer também em adultos com doenças hepáticas ou renais.
- Forma mista (marasmo-kwashiorkor): combinação dos dois, com emagrecimento e edema. É frequente em pacientes que já estavam em marasmo e sofrem um estresse agudo (infecção) que piora a perda de proteínas.
Além disso, dentro do SUS, os profissionais usam a classificação de Gomez (baseada no peso para idade) e a classificação de Waterlow (que considera estatura para idade e peso para estatura) para avaliar a gravidade. Na prática, o que importa é o diagnóstico sindrômico: quando o paciente tem perda de peso > 10% em 3 meses, IMC abaixo de 16 kg/m² (em adultos) ou escore-z de peso-para-altura < -3 (em crianças), já é considerado DEP grave e precisa de intervenção imediata.
Quando procurar um médico
É fundamental buscar atendimento médico imediatamente se você ou um familiar apresentar qualquer um dos seguintes sinais de alerta:
- Perda de peso rápida e não intencional (mais de 5% do peso corporal em 1 mês, ou mais de 10% em 3 meses).
- Fraqueza muscular extrema que dificulta levantar da cama, andar ou segurar objetos.
- Inchaço nos pés, tornozelos ou mãos que não melhora com repouso.
- Pele seca, feridas que não cicatrizam, cabelos quebradiços e caindo em tufos.
- Em crianças: parada do crescimento (não ganha peso ou altura), irritabilidade excessiva, choro fraco ou apatia.
- Em idosos: recusa alimentar, quedas frequentes, confusão mental ou aparecimento de escaras.
Na rede pública, o primeiro passo é procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima. O médico da família pode solicitar exames simples (hemograma, albumina sérica) e encaminhar para o nutricionista. Casos graves devem ser encaminhados para um hospital de referência, onde o paciente receberá suporte nutricional especializado, com fórmulas enterais (sonda nasogástrica) e monitoramento cardíaco devido ao risco de síndrome da realimentação. Não espere o quadro piorar: desnutrição grave tratada tardiamente tem alta mortalidade, mas com tratamento adequado, a recuperação é possível.
Termos Relacionados
- Síndrome da realimentação: conjunto de alterações metabólicas (hipofosfatemia, arritmias, convulsões) que pode ocorrer quando um paciente desnutrido recebe alimentação abundante de forma abrupta, sem correção de eletrólitos. Exige monitoramento hospitalar.
- Albumina sérica: proteína produzida pelo fígado e que cai drasticamente na DEP grave, especialmente no kwashiorkor. Níveis abaixo de 2,5 g/dL indicam risco elevado.
- IMC (Índice de Massa Corporal): cálculo que relaciona peso e altura. Adultos com IMC < 16 kg/m² estão em desnutrição grave.
- Escore-z (ou z-score): medida estatística usada para avaliar o crescimento infantil. Valores de peso-para-altura ou altura-para-idade < -3 desvios-padrão indicam desnutrição grave.
- Programa Nacional de Suplementação de Vitaminas e Minerais (NutriSUS): iniciativa do SUS que oferece suplementos nutricionais para crianças em risco de desnutrição.
- Caquexia: perda de peso e massa muscular associada a doenças crônicas como câncer, AIDS, tuberculose. Parece desnutrição, mas tem mecanismos inflamatórios diferentes.
- Desnutrição intra-uterina: deficiência nutricional do feto durante a gestação, que pode resultar em baixo peso ao nascer e maior risco de DEP grave no primeiro ano de vida.
- Terapia Nutricional Enteral: administração de dieta líquida por sonda nasogástrica ou gastrostomia, muito usada em pacientes com DEP grave e impossibilidade de alimentação oral.
Perguntas Frequentes sobre O que é Desnutrição energético-protéica grave
A desnutrição grave tem cura? Quanto tempo leva o tratamento?
Sim, tem cura na maioria dos casos, desde que o paciente receba tratamento adequado e as causas de base (doenças, fome, isolamento social) sejam resolvidas. A fase inicial de realimentação hospitalar dura de 1 a 3 semanas, com ganho de peso lento e controlado. Depois, segue-se a reabilitação nutricional ambulatorial por 2 a 6 meses, com acompanhamento multiprofissional. Quanto mais precoce o diagnóstico, melhor o prognóstico.
Como é feito o diagnóstico na prática?
O médico faz uma avaliação clínica completa: pergunta sobre perda de peso, apetite, doenças prévias; mede peso e altura para calcular o IMC ou escore-z; avalia força muscular e presença de edema; e, se necessário, solicita exames de sangue (albumina, hemograma, vitaminas). Na rede pública, o diagnóstico é principalmente clínico, pois o exame físico bem feito já dá o alerta.
Quem está mais em risco de desenvolver essa doença no Brasil?
Crianças menores de 5 anos em famílias de baixa renda, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e no semiárido. Idosos acamados, pacientes com doenças crônicas (câncer, AIDS, tuberculose, DPOC), alcoolistas crônicos e pessoas em situação de rua também são grupos de alto risco. A pandemia de COVID-19 piorou o quadro, com aumento da insegurança alimentar no país.
Qual a diferença entre desnutrição e má-nutrição?
Desnutrição é um tipo de má-nutrição, especificamente a falta de nutrientes (energia e proteínas). Má-nutrição inclui também o excesso (obesidade) e deficiências específicas de vitaminas e minerais (como anemia ferropriva). Uma pessoa pode estar obesa e desnutrida ao mesmo tempo – é o “paradoxo da má-nutrição”.
Posso tratar desnutrição grave em casa, só com alimentação caseira?
Não. A desnutrição grave exige manejo médico supervisionado, porque o organismo está desregulado e a introdução de alimentos comuns pode desencadear a síndrome da realimentação, que é perigosa. O tratamento inicial deve ser feito no hospital ou com equipe de atenção domiciliar do SUS, usando fórmulas específicas e repletas de micronutrientes. Depois da alta, a orientação nutricional é fundamental para prevenir recaídas.
Como prevenir a desnutrição energético-protéica grave?
A prevenção começa com o acesso a uma alimentação adequada e saudável. Programas do SUS como o acompanhamento do crescimento infantil na puericultura, o suplemento NutriSUS e o Bolsa Família são ferramentas importantes. Além disso, incentivar o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses, garantir a vacinação em dia, tratar doenças crônicas e combater o isolamento social de idosos são medidas eficazes. Em clínica popular, sempre destaco: “Se


