quarta-feira, maio 27, 2026

O que é Desnutrição energético-protéica

O que é Desnutrição energético-protéica?

A Desnutrição energético-protéica (DEP) é uma condição clínica causada pelo consumo insuficiente de calorias (energia) e proteínas, essenciais para o crescimento, reparação dos tecidos e funcionamento do organismo. Na prática, é o que popularmente chamamos de “desnutrição severa”, mas com um nome técnico que especifica a carência combinada de dois nutrientes fundamentais. Na minha experiência como médico clínico geral no SUS e em clínicas populares do Nordeste, atendo frequentemente crianças pequenas, idosos e adultos em situação de vulnerabilidade social que apresentam esse quadro. A DEP não é apenas “emagrecimento”: ela compromete todo o sistema imunológico, a cicatrização, a produção de hormônios e até a capacidade cognitiva.

No Brasil, a DEP ainda é um problema de saúde pública, embora tenha diminuído drasticamente nas últimas décadas. Dados do Ministério da Saúde (SISVAN – Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional) indicam que a prevalência de baixo peso em crianças menores de 5 anos gira em torno de 2 a 3% em regiões mais pobres do Norte e Nordeste, enquanto em áreas de extrema pobreza pode chegar a 5%. Entre idosos institucionalizados (asilos) e pacientes internados, os índices são mais altos, chegando a 20-30% em hospitais públicos, segundo levantamentos da Associação Brasileira de Nutrição. A DEP é evitável e tratável, mas exige diagnóstico precoce – algo que muitas vezes esbarra na falta de acesso a exames básicos e acompanhamento nutricional na atenção primária.

No dia a dia da clínica popular, o que vejo são famílias que chegam com crianças “que param de crescer”, “ficam muito doentes”, ou idosos que “perderam o apetite” após uma infecção. A DEP pode aparecer isolada ou associada a outras doenças, como tuberculose, HIV, diarreia crônica ou câncer. O Protocolo de Atenção à Desnutrição do SUS orienta a triagem com medidas simples: peso, altura, circunferência do braço e exames de sangue (albumina, transferrina). Mas na prática, muitas vezes o diagnóstico é clínico, baseado no aspecto da criança (magreza extrema, edema nos pés, pele descamando) ou na perda de peso involuntária do adulto.

Como funciona / Características

A Desnutrição energético-protéica ocorre quando o corpo não recebe energia (calorias) e proteínas suficientes para manter suas funções básicas. O organismo então recorre a mecanismos de adaptação: começa a quebrar as próprias reservas de gordura (tecido adiposo) e, depois, a massa muscular (proteínas) para obter energia. Isso explica por que a pessoa parece “definhar”: perde gordura, mas também músculos, inclusive do coração e do diafragma, prejudicando a respiração e a circulação.

No cotidiano das clínicas populares, vejo dois cenários típicos:
Crianças com DEP crônica: baixo peso, estatura menor que o esperado, atraso no desenvolvimento neuropsicomotor (demoram a sentar, engatinhar, falar), infecções frequentes (pneumonia, diarreia). Muitas vezes, a mãe relata que a criança “come pouco” ou que a família não tem dinheiro para comprar carne, leite ou ovos.
Adultos desnutridos por doença: pacientes internados ou acamados que perdem peso rapidamente (10-20% em 3 meses), têm fraqueza extrema, cicatrização lenta, edemas (inchaço) nos pés e tornozelos, e queda de cabelo. É comum em idosos com demência, pacientes pós-AVC, ou com tuberculose pulmonar.

Além da perda de peso, a DEP afeta a imunidade: a produção de células de defesa (linfócitos) cai, aumentando o risco de infecções oportunistas. A cicatrização de feridas fica prejudicada, e o paciente pode apresentar úlceras de pressão (escaras) em poucos dias de internação. A função intestinal também é comprometida, com constipação ou diarreia. Nos casos graves, há edema generalizado (anasarca) devido à baixa de albumina – proteína que mantém a água dentro dos vasos sanguíneos.

Tipos e Classificações

A Desnutrição energético-protéica é classificada clinicamente em três formas principais, amplamente usadas na prática pediátrica e na adulta no Brasil:

Marasmo: forma crônica, por deficiência calórica total (baixa ingestão de energia e proteínas). A criança ou adulto apresenta magreza extrema, perda de gordura subcutânea, atrofia muscular, costelas e ossos proeminentes. Não há edema. É o tipo mais comum em situações de fome crônica. Na classificação de Gomez (usada pelo SUS para crianças), é o grau III (menos de 60% do peso esperado para a idade).
Kwashiorkor: forma aguda, por deficiência proteica com ingestão calórica razoável. O paciente tem edema (inchaço) nos pés, mãos e face, pele descamativa com lesões semelhantes a queimaduras (“dermatose de flagelo”), cabelos finos e quebradiços, e desenvolvimento de fígado gorduroso. É típico de crianças que recebem apenas carboidratos (ex: água de arroz, farinha) e pouca proteína. No Brasil, é menos comum, mas ainda visto em comunidades ribeirinhas e quilombolas.
Marasmo-Kwashiorkor: forma mista, com características de ambos: magreza extrema e edema. É o tipo mais grave e de pior prognóstico.

O Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) do SUS utiliza a classificação de Z-score para crianças: peso-para-idade, peso-para-estatura e estatura-para-idade. Valores abaixo de -2 desvios-padrão indicam desnutrição. Para adultos, o Índice de Massa Corporal (IMC) abaixo de 18,5 kg/m² é considerado baixo peso; abaixo de 16 kg/m², magreza grave (DEP grau III). Na prática da clínica popular, também uso a circunferência do braço (CB): abaixo de 23 cm em adultos ou abaixo do percentil 5 em crianças indica desnutrição, mesmo sem balança.

Quando procurar um médico

A população deve procurar atendimento médico (posto de saúde, clínica popular, hospital) sempre que observar:
– Perda de peso involuntária > 5% em 1 mês ou > 10% em 6 meses.
– Crianças que “param de crescer” ou não ganham peso por 3 ou mais meses consecutivos.
– Inchaço nos pés, tornozelos ou mãos (edema), especialmente em crianças.
– Apatia, cansaço extremo, dificuldade para realizar tarefas simples (sentar, andar).
– Infecções recorrentes (pneumonia, diarreia, otite) sem causa aparente.
– Queda de cabelo, pele seca e descamativa, unhas fracas.
– Dificuldade de cicatrização de feridas ou aparecimento de úlceras de pressão.
– Alterações de comportamento em crianças: irritabilidade ou apatia profunda.

No Programa de Saúde da Família (SUS), a equipe de saúde (médico, enfermeiro, nutricionista) faz a triagem com medidas de peso e altura. Caso haja suspeita, são solicitados exames simples como hemograma, albumina sérica e dosagem de vitaminas (ferro, zinco, vitamina A). O tratamento é gratuito e pode incluir:
Fórmulas dietéticas (leites especiais, suplementos alimentares – ex: F-75, F-100 para crianças, ou dietas enterais para adultos) distribuídas pelo SUS.
Acompanhamento nutricional com nutricionista na UBS ou Centro de Referência.
Tratamento das infecções associadas (antibióticos, antiparasitários).
Apoio social (encaminhamento ao CRAS, cesta básica, programa Bolsa Família).

É importante buscar ajuda antes que os sinais fiquem graves. Na clínica popular, insisto que “prevenir custa menos que tratar”: uma consulta precoce pode evitar internações prolongadas e sequelas permanentes, como baixa estatura definitiva ou comprometimento intelectual.

Termos Relacionados

  • Kwashiorkor: Forma de desnutrição proteica grave, com edema, lesões de pele e hepatomegalia. Mais comum em crianças que recebem dieta rica em carboidratos e pobre em proteínas.
  • Marasmo: Desnutrição calórico-proteica crônica, caracterizada por emagrecimento extremo, atrofia muscular e ausência de edema. É a “desnutrição da fome” clássica.
  • Albumina sérica: Proteína do sangue produzida pelo fígado. Níveis baixos indicam desnutrição proteica ou doença hepática. Usada como marcador de DEP.
  • SISVAN: Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do SUS, que monitora o estado nutricional de crianças, gestantes e idosos no Brasil. Fonte de dados oficiais.
  • Desnutrição calórico-proteica: sinônimo de DEP, termo usado em manuais do Ministério da Saúde.
  • Suplementação alimentar: Estratégia de tratamento com fórmulas dietéticas (leites, papas, pós) ricas em calorias e proteínas, fornecidas pelo SUS ou por programas de assistência.
  • Edema de fome: Inchaço generalizado causado pela baixa de albumina na DEP, especialmente no kwashiorkor.
  • Baixo peso ao nascer: Peso ao nascer inferior a 2.500 g. Fator de risco para DEP nos primeiros anos de vida, comum em populações periféricas do Brasil.

Perguntas Frequentes sobre O que é Desnutrição energético-protéica

A desnutrição energético-proteica só afeta crianças?

Não. Embora seja mais frequente em crianças (devido ao rápido crescimento), a DEP atinge também adultos e idosos, especialmente em situações de doenças crônicas, desemprego, pobreza extrema, internações hospitalares, alcoolismo e dependência química. No SUS, há um olhar especial para gestantes (que podem ter baixo peso e comprometer o bebê) e idosos acamados, que muitas vezes desenvolvem DEP mesmo com alimentação aparentemente normal, por conta da baixa absorção de nutrientes.

Qual a diferença entre desnutrição energético-proteica e desnutrição comum?

Na prática, a “desnutrição comum” pode ser um termo leigo para qualquer tipo de deficiência nutricional. A Desnutrição energético-protéica é uma forma específica e grave, que combina falta de calorias (energia) E proteínas. Existem outros tipos de desnutrição isolada, como anemia ferropriva (falta de ferro) ou hipovitaminose A (falta de