O que é Desnutrição energético-protéica?
A Desnutrição energético-protéica (DEP) é uma condição clínica causada pelo consumo insuficiente de calorias (energia) e proteínas, essenciais para o crescimento, reparação dos tecidos e funcionamento do organismo. Na prática, é o que popularmente chamamos de “desnutrição severa”, mas com um nome técnico que especifica a carência combinada de dois nutrientes fundamentais. Na minha experiência como médico clínico geral no SUS e em clínicas populares do Nordeste, atendo frequentemente crianças pequenas, idosos e adultos em situação de vulnerabilidade social que apresentam esse quadro. A DEP não é apenas “emagrecimento”: ela compromete todo o sistema imunológico, a cicatrização, a produção de hormônios e até a capacidade cognitiva.
No Brasil, a DEP ainda é um problema de saúde pública, embora tenha diminuído drasticamente nas últimas décadas. Dados do Ministério da Saúde (SISVAN – Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional) indicam que a prevalência de baixo peso em crianças menores de 5 anos gira em torno de 2 a 3% em regiões mais pobres do Norte e Nordeste, enquanto em áreas de extrema pobreza pode chegar a 5%. Entre idosos institucionalizados (asilos) e pacientes internados, os índices são mais altos, chegando a 20-30% em hospitais públicos, segundo levantamentos da Associação Brasileira de Nutrição. A DEP é evitável e tratável, mas exige diagnóstico precoce – algo que muitas vezes esbarra na falta de acesso a exames básicos e acompanhamento nutricional na atenção primária.
No dia a dia da clínica popular, o que vejo são famílias que chegam com crianças “que param de crescer”, “ficam muito doentes”, ou idosos que “perderam o apetite” após uma infecção. A DEP pode aparecer isolada ou associada a outras doenças, como tuberculose, HIV, diarreia crônica ou câncer. O Protocolo de Atenção à Desnutrição do SUS orienta a triagem com medidas simples: peso, altura, circunferência do braço e exames de sangue (albumina, transferrina). Mas na prática, muitas vezes o diagnóstico é clínico, baseado no aspecto da criança (magreza extrema, edema nos pés, pele descamando) ou na perda de peso involuntária do adulto.
Como funciona / Características
A Desnutrição energético-protéica ocorre quando o corpo não recebe energia (calorias) e proteínas suficientes para manter suas funções básicas. O organismo então recorre a mecanismos de adaptação: começa a quebrar as próprias reservas de gordura (tecido adiposo) e, depois, a massa muscular (proteínas) para obter energia. Isso explica por que a pessoa parece “definhar”: perde gordura, mas também músculos, inclusive do coração e do diafragma, prejudicando a respiração e a circulação.
No cotidiano das clínicas populares, vejo dois cenários típicos:
– Crianças com DEP crônica: baixo peso, estatura menor que o esperado, atraso no desenvolvimento neuropsicomotor (demoram a sentar, engatinhar, falar), infecções frequentes (pneumonia, diarreia). Muitas vezes, a mãe relata que a criança “come pouco” ou que a família não tem dinheiro para comprar carne, leite ou ovos.
– Adultos desnutridos por doença: pacientes internados ou acamados que perdem peso rapidamente (10-20% em 3 meses), têm fraqueza extrema, cicatrização lenta, edemas (inchaço) nos pés e tornozelos, e queda de cabelo. É comum em idosos com demência, pacientes pós-AVC, ou com tuberculose pulmonar.
Além da perda de peso, a DEP afeta a imunidade: a produção de células de defesa (linfócitos) cai, aumentando o risco de infecções oportunistas. A cicatrização de feridas fica prejudicada, e o paciente pode apresentar úlceras de pressão (escaras) em poucos dias de internação. A função intestinal também é comprometida, com constipação ou diarreia. Nos casos graves, há edema generalizado (anasarca) devido à baixa de albumina – proteína que mantém a água dentro dos vasos sanguíneos.
Tipos e Classificações
A Desnutrição energético-protéica é classificada clinicamente em três formas principais, amplamente usadas na prática pediátrica e na adulta no Brasil:
– Marasmo: forma crônica, por deficiência calórica total (baixa ingestão de energia e proteínas). A criança ou adulto apresenta magreza extrema, perda de gordura subcutânea, atrofia muscular, costelas e ossos proeminentes. Não há edema. É o tipo mais comum em situações de fome crônica. Na classificação de Gomez (usada pelo SUS para crianças), é o grau III (menos de 60% do peso esperado para a idade).
– Kwashiorkor: forma aguda, por deficiência proteica com ingestão calórica razoável. O paciente tem edema (inchaço) nos pés, mãos e face, pele descamativa com lesões semelhantes a queimaduras (“dermatose de flagelo”), cabelos finos e quebradiços, e desenvolvimento de fígado gorduroso. É típico de crianças que recebem apenas carboidratos (ex: água de arroz, farinha) e pouca proteína. No Brasil, é menos comum, mas ainda visto em comunidades ribeirinhas e quilombolas.
– Marasmo-Kwashiorkor: forma mista, com características de ambos: magreza extrema e edema. É o tipo mais grave e de pior prognóstico.
O Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) do SUS utiliza a classificação de Z-score para crianças: peso-para-idade, peso-para-estatura e estatura-para-idade. Valores abaixo de -2 desvios-padrão indicam desnutrição. Para adultos, o Índice de Massa Corporal (IMC) abaixo de 18,5 kg/m² é considerado baixo peso; abaixo de 16 kg/m², magreza grave (DEP grau III). Na prática da clínica popular, também uso a circunferência do braço (CB): abaixo de 23 cm em adultos ou abaixo do percentil 5 em crianças indica desnutrição, mesmo sem balança.
Quando procurar um médico
A população deve procurar atendimento médico (posto de saúde, clínica popular, hospital) sempre que observar:
– Perda de peso involuntária > 5% em 1 mês ou > 10% em 6 meses.
– Crianças que “param de crescer” ou não ganham peso por 3 ou mais meses consecutivos.
– Inchaço nos pés, tornozelos ou mãos (edema), especialmente em crianças.
– Apatia, cansaço extremo, dificuldade para realizar tarefas simples (sentar, andar).
– Infecções recorrentes (pneumonia, diarreia, otite) sem causa aparente.
– Queda de cabelo, pele seca e descamativa, unhas fracas.
– Dificuldade de cicatrização de feridas ou aparecimento de úlceras de pressão.
– Alterações de comportamento em crianças: irritabilidade ou apatia profunda.
No Programa de Saúde da Família (SUS), a equipe de saúde (médico, enfermeiro, nutricionista) faz a triagem com medidas de peso e altura. Caso haja suspeita, são solicitados exames simples como hemograma, albumina sérica e dosagem de vitaminas (ferro, zinco, vitamina A). O tratamento é gratuito e pode incluir:
– Fórmulas dietéticas (leites especiais, suplementos alimentares – ex: F-75, F-100 para crianças, ou dietas enterais para adultos) distribuídas pelo SUS.
– Acompanhamento nutricional com nutricionista na UBS ou Centro de Referência.
– Tratamento das infecções associadas (antibióticos, antiparasitários).
– Apoio social (encaminhamento ao CRAS, cesta básica, programa Bolsa Família).
É importante buscar ajuda antes que os sinais fiquem graves. Na clínica popular, insisto que “prevenir custa menos que tratar”: uma consulta precoce pode evitar internações prolongadas e sequelas permanentes, como baixa estatura definitiva ou comprometimento intelectual.
Termos Relacionados
- Kwashiorkor: Forma de desnutrição proteica grave, com edema, lesões de pele e hepatomegalia. Mais comum em crianças que recebem dieta rica em carboidratos e pobre em proteínas.
- Marasmo: Desnutrição calórico-proteica crônica, caracterizada por emagrecimento extremo, atrofia muscular e ausência de edema. É a “desnutrição da fome” clássica.
- Albumina sérica: Proteína do sangue produzida pelo fígado. Níveis baixos indicam desnutrição proteica ou doença hepática. Usada como marcador de DEP.
- SISVAN: Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do SUS, que monitora o estado nutricional de crianças, gestantes e idosos no Brasil. Fonte de dados oficiais.
- Desnutrição calórico-proteica: sinônimo de DEP, termo usado em manuais do Ministério da Saúde.
- Suplementação alimentar: Estratégia de tratamento com fórmulas dietéticas (leites, papas, pós) ricas em calorias e proteínas, fornecidas pelo SUS ou por programas de assistência.
- Edema de fome: Inchaço generalizado causado pela baixa de albumina na DEP, especialmente no kwashiorkor.
- Baixo peso ao nascer: Peso ao nascer inferior a 2.500 g. Fator de risco para DEP nos primeiros anos de vida, comum em populações periféricas do Brasil.
Perguntas Frequentes sobre O que é Desnutrição energético-protéica
A desnutrição energético-proteica só afeta crianças?
Não. Embora seja mais frequente em crianças (devido ao rápido crescimento), a DEP atinge também adultos e idosos, especialmente em situações de doenças crônicas, desemprego, pobreza extrema, internações hospitalares, alcoolismo e dependência química. No SUS, há um olhar especial para gestantes (que podem ter baixo peso e comprometer o bebê) e idosos acamados, que muitas vezes desenvolvem DEP mesmo com alimentação aparentemente normal, por conta da baixa absorção de nutrientes.
Qual a diferença entre desnutrição energético-proteica e desnutrição comum?
Na prática, a “desnutrição comum” pode ser um termo leigo para qualquer tipo de deficiência nutricional. A Desnutrição energético-protéica é uma forma específica e grave, que combina falta de calorias (energia) E proteínas. Existem outros tipos de desnutrição isolada, como anemia ferropriva (falta de ferro) ou hipovitaminose A (falta de


