sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Desnutrição proteico-calórica

O que é O que é Desnutrição proteico-calórica?

A Desnutrição proteico-calórica (DPC) é uma condição clínica grave causada pela ingestão insuficiente de proteínas e calorias – os dois pilares essenciais para a manutenção do organismo. Na prática de uma clínica popular no Brasil, é comum atender pacientes que chegam com queixas vagas de cansaço, perda de peso sem motivo, inchaço nos pés e nas pernas (edema) e infecções de repetição. Muitas vezes, a desnutrição não vem sozinha: está associada à fome crônica, a doenças que dificultam a absorção de nutrientes (como diarreias persistentes, parasitoses ou alcoolismo) ou a condições sociais como desemprego e falta de acesso a alimentos de qualidade.

No Brasil, apesar dos avanços nas últimas décadas, a desnutrição ainda é uma realidade preocupante. Dados do IBGE mostram que cerca de 3,1% das crianças menores de 5 anos apresentam déficit de peso para a idade, e a insegurança alimentar grave atinge aproximadamente 4,8 milhões de domicílios (2º Inquérito Nacional de Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia, 2022). O Ministério da Saúde, por meio da Estratégia de Saúde da Família, monitora o estado nutricional de crianças e gestantes, usando curvas de crescimento da OMS e protocolos do SISVAN (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional). Já o CFM orienta que o diagnóstico precoce é fundamental para evitar complicações como baixa estatura, atraso no desenvolvimento neurológico e maior risco de morte por infecções.

Na linha de frente do SUS, vemos que a desnutrição não é apenas uma questão médica, mas social. Muitos pacientes são idosos que vivem sozinhos e não conseguem se alimentar adequadamente, ou crianças de famílias em situação de rua. O tratamento vai além da alimentação: inclui suporte psicológico, acompanhamento com nutricionista e, quando necessário, internação para suporte nutricional enteral ou parenteral. Um olhar humanizado é essencial – a desnutrição proteico-calórica é uma doença que envergonha e isola, e o acolhimento do paciente é tão importante quanto a dieta.

Como funciona / Características

O corpo humano precisa de energia (calorias) para todas as funções – bater do coração, respirar, pensar. As proteínas, por sua vez, são os “tijolos” que constroem e reparam músculos, órgãos, pele e anticorpos. Quando a oferta de proteínas e calorias é insuficiente por semanas ou meses, o organismo começa a “roubar” dos próprios tecidos: primeiro queima as reservas de gordura, depois consome a massa muscular. Isso explica a perda de peso, a fraqueza e a atrofia muscular. Ao mesmo tempo, há uma queda na produção de proteínas sanguíneas (como a albumina), o que reduz a pressão osmótica e causa o inchaço (edema) típico da desnutrição edematosa (kwashiorkor).

No dia a dia do consultório, os sintomas mais comuns que observo são:

  • Emagrecimento progressivo – mesmo sem dieta, o paciente perde peso de forma acelerada;
  • Cansaço e apatia – a pessoa não tem energia para as tarefas simples do dia;
  • Edema de membros inferiores – os pés e pernas incham, deixando “cacifo” quando se aperta;
  • Pele seca, descamativa e cabelos quebradiços – a falta de proteínas compromete a estrutura da pele e dos fios;
  • Infecções recorrentes – a baixa produção de anticorpos deixa o corpo vulnerável a gripes, pneumonia e diarreias;
  • Alterações no humor e na cognição – irritabilidade, dificuldade de concentração e até confusão mental em casos avançados.

Uma característica marcante na prática clínica brasileira é a desnutrição secundária: pacientes com doenças crônicas (câncer, HIV, tuberculose, doença renal) que perdem o apetite ou têm maior gasto energético. Também é frequente o consumo insuficiente de alimentos devido à pobreza – a chamada insegurança alimentar. A avaliação inclui sempre a medida de peso e altura, o cálculo do IMC (índice de massa corporal), a circunferência do braço (CB) e exames simples de sangue, como albumina e contagem de linfócitos.

Tipos e Classificações

Na literatura médica e nos protocolos do Ministério da Saúde, a desnutrição proteico-calórica pode ser classificada de acordo com a gravidade (leve, moderada ou grave) e com a sua apresentação clínica. As duas formas clássicas, que todo médico do SUS conhece, são:

  • Kwashiorkor: forma edematosa, causada principalmente pela falta de proteínas na dieta, mesmo com oferta calórica relativamente normal. Caracteriza-se por edema generalizado, hepatomegalia (fígado aumentado), lesões de pele descamativa (“pele de papel”), cabelos descoloridos e apatia. É mais comum em crianças após o desmame, quando passam a consumir uma alimentação pobre em proteínas (por exemplo, só angu ou só chá).
  • Marasmo: forma não edematosa, decorrente da deficiência global de calorias e proteínas. O paciente apresenta emagrecimento extremo, perda de massa muscular e subcutânea, e um aspecto “cadavérico” (ranger de dentes, olhos fundos). É comum em crianças com fome crônica e em idosos com desnutrição prolongada.
  • Forma mista (marasmo-kwashiorkor): combina características das duas, com edema e emagrecimento grave. É a forma mais severa.

No Brasil, a classificação também leva em conta o percentil do peso/altura ou o escore Z, de acordo com as curvas da OMS. O SISVAN utiliza pontos de corte: desnutrição moderada (escore Z entre -3 e -2) e grave (escore Z menor que -3). O diagnóstico é sempre clínico-nutricional, e a investigação das causas (fome, doenças, abuso de álcool) é obrigatória para o tratamento adequado.

Quando procurar um médico

Você deve procurar um médico (clínico geral, pediatra ou nutricionista) se perceber os seguintes sinais de alerta, especialmente em crianças, idosos ou pessoas com doenças crônicas:

  • Perda de peso não intencional superior a 5% em 3 meses ou a 10% em 6 meses;
  • Inchaço nas pernas, pés, tornozelos ou até no rosto;
  • Fraqueza muscular que dificulta levantar-se ou caminhar;
  • Dificuldade para comer, engolir ou falta de apetite persistente;
  • Diarreia ou vômitos frequentes que impedem a alimentação adequada;
  • Cansaço extremo, tontura ou desmaios;
  • Em crianças: parada de ganho de peso, crescimento abaixo do esperado, irritabilidade ou apatia.

Nas clínicas populares do Brasil, muitas vezes o paciente chega trazido por um familiar que notou a magreza ou o inchaço. A consulta é gratuita pelo SUS: basta ir a uma Unidade Básica de Saúde (posto de saúde) mais próxima. Lá, o médico e a enfermeira realizam a avaliação nutricional, solicitam exames básicos (hemograma, albumina, glicemia, função renal e hepática) e encaminham para acompanhamento com nutricionista e, se necessário, serviço social para garantir o acesso a alimentos. Não espere o quadro piorar – a desnutrição tratada precocemente tem reversão completa na maioria dos casos.

Termos Relacionados

  • Insegurança alimentar: situação em que a família não tem acesso regular e permanente a alimentos em quantidade e qualidade suficientes. É a principal causa social da desnutrição no Brasil.
  • Marasmo: forma de desnutrição proteico-calórica caracterizada por emagrecimento intenso e perda de massa muscular sem edema.
  • Kwashiorkor: forma edematosa de desnutrição por deficiência de proteínas, com inchaço, lesões de pele e fígado aumentado.
  • Antropometria: medidas do corpo (peso, altura, circunferência do braço) usadas para avaliar o estado nutricional.
  • IMC (Índice de Massa Corporal): relação entre peso e altura (kg/m²). Valores abaixo de 18,5 indicam desnutrição em adultos.
  • SISVAN: Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do Ministério da Saúde, que monitora o estado nutricional da população atendida no SUS.
  • Albumina sérica: proteína do sangue que reflete o estado proteico. Níveis baixos são marcadores de desnutrição e mau prognóstico.
  • Terapia nutricional enteral: alimentação por sonda nasogástrica ou nasoentérica indicada quando a ingestão oral é insuficiente. Muito usada em casos graves no SUS.

Perguntas Frequentes sobre O que é Desnutrição proteico-calórica

Desnutrição proteico-calórica é o mesmo que desnutrição geral?

Sim e não. A desnutrição proteico-calórica é um tipo específico de desnutrição que envolve falta de calorias (energia) e de proteínas (os “tijolos” do corpo). Mas a desnutrição também pode ser por deficiência de vitaminas ou minerais (como ferro, zinco, vitamina A). Na prática, a DPC é a forma mais comum e grave, pois as duas carências caminham juntas na grande maioria dos casos de fome.

Quais as principais causas de desnutrição proteico-calórica no Brasil?

As causas podem ser divididas em dois grandes grupos: primárias (falta de alimento por pobreza, má distribuição de renda, seca, abandono social) e secundárias (doenças que aumentam o gasto energético, reduzem o apetite ou dificultam a absorção de nutrientes – como câncer, HIV, diarreia crônica, alcoolismo