quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Desordem conversiva

O que é O que é Desordem conversiva?

A desordem conversiva (também chamada de transtorno conversivo) é uma condição em que a pessoa desenvolve sintomas físicos reais — como paralisia, convulsões, perda de visão ou da fala — que não são explicados por uma doença neurológica ou médica identificável. Esses sintomas são produzidos pelo próprio corpo como uma forma de “converter” um sofrimento emocional intenso em algo físico. Quem tem esse transtorno não está fingindo: a dor, a fraqueza ou a crise são genuínas e causam grande impacto na vida diária.

No dia a dia de uma clínica popular no Brasil, é comum receber pacientes que já passaram por várias consultas, fizeram tomografias, eletroencefalogramas e exames de sangue, mas todos os resultados vieram normais. Eles chegam angustiados, sem entender por que o corpo não obedece. Muitas vezes vêm acompanhados por familiares que também não compreendem o problema. O médico clínico geral precisa acolher essa queixa, descartar causas orgânicas com cuidado e, ao mesmo tempo, iniciar a investigação da origem psicológica. No SUS, o caminho começa na Unidade Básica de Saúde (UBS), segue para a neurologia e, depois, para a psiquiatria ou psicologia — mas a fila de espera pode ser longa, o que exige do profissional uma orientação clara e empática desde o primeiro contato.

Dados epidemiológicos brasileiros ainda são escassos, mas estudos regionais indicam que entre 5% e 10% dos pacientes atendidos em ambulatórios de neurologia do SUS apresentam sintomas neurológicos funcionais compatíveis com a desordem conversiva. Na população geral, estima-se uma prevalência de 1% a 3%, sendo mais frequente em mulheres jovens e em pessoas com histórico de trauma ou estresse crônico. O Ministério da Saúde reconhece a condição na portaria de diretrizes para transtornos mentais e o Conselho Federal de Medicina (CFM) reforça a necessidade de abordagem multidisciplinar e sem estigmatização.

Como funciona / Características

O mecanismo da desordem conversiva é complexo e ainda não totalmente compreendido, mas sabe-se que envolve uma comunicação alterada entre o cérebro e o corpo. Em situações de estresse intenso, conflito psicológico ou trauma emocional, a mente “converte” essa carga em um sintoma físico, sem que a pessoa tenha controle consciente sobre isso. É como se o corpo desse um grito que a boca não consegue emitir.

Na prática clínica, alguns exemplos são marcantes:
Crises não epilépticas psicogênicas: a pessoa apresenta movimentos desordenados, queda, olhos revirados, mas o eletroencefalograma não mostra atividade elétrica anormal. Diferente da epilepsia, essas crises costumam durar mais tempo e podem ser desencadeadas por lembranças traumáticas.
Paralisia ou fraqueza muscular: um paciente acorda sem conseguir mover uma perna ou um braço, mesmo com todos os reflexos preservados e exames de imagem normais.
Perda de visão (“cegueira conversiva”): a pessoa diz não enxergar nada, mas as pupilas reagem à luz e o exame oftalmológico não encontra lesão.
Afonia (perda da voz): após uma briga ou susto, a pessoa fala apenas em sussurros, sem qualquer alteração nas cordas vocais.

Em uma clínica popular, o paciente chega muitas vezes com uma “crise de desmaio” que já se repetiu várias vezes. Ele já foi levado ao pronto-socorro, fez eletrocardiograma, exames de sangue e até tomografia, e tudo deu normal. O médico precisa ouvir a história com atenção: perguntar sobre eventos estressantes recentes (perda de emprego, luto, violência doméstica) e observar se os sintomas pioram em situações de conflito ou melhoram quando a pessoa está distraída. A conversa deve ser feita sem julgamento, explicando que o sintoma é real e que o tratamento vai ajudar o cérebro e o corpo a se reconectarem.

Tipos e Classificações

No Brasil, a classificação mais utilizada no SUS ainda é a CID-10, que agrupa a desordem conversiva sob o código F44 (Transtornos dissociativos e de conversão). Já a CID-11, que começa a ser implementada, usa o termo “Transtorno de dissociação e conversão” (código 6B60). O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), muito usado por psiquiatras, classifica a condição como “Transtorno de Sintomas Neurológicos Funcionais” dentro da categoria de Transtornos de Sintomas Somáticos.

Os subtipos mais comuns descritos na prática clínica brasileira incluem:

  • Com fraqueza muscular ou paralisia – perda de força em um ou mais membros.
  • Com movimentos anormais – tremores, distonias ou crises semelhantes a convulsões.
  • Com sintomas sensoriais – perda de visão, audição, tato ou sensação de dormência/choque.
  • Com sintomas de fala – afonia, gagueira súbita ou dificuldade para articular palavras.
  • Com crises não epilépticas psicogênicas – o tipo mais frequente nos ambulatórios de neurologia do SUS.

É importante lembrar que o diagnóstico só deve ser feito após exclusão cuidadosa de causas orgânicas. O CFM, por meio de suas resoluções, orienta que o médico realize uma investigação completa e documente no prontuário os critérios utilizados para evitar erros diagnósticos.

Quando procurar um médico

Você deve procurar atendimento médico sempre que apresentar sintomas físicos repentinos e persistentes que não melhoram com repouso ou primeiros cuidados, como:

  • Paralisia ou fraqueza em um braço ou perna.
  • Convulsões ou crises de desmaio sem causa aparente.
  • Perda súbita de visão, audição ou da fala.
  • Sensação de “nó na garganta”, dificuldade para engolir ou engasgos frequentes.
  • Tremores, tiques ou movimentos involuntários que começaram após um evento estressante.

O primeiro passo é ir a uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou a uma clínica popular. O clínico geral vai solicitar exames iniciais (hemograma, glicemia, eletrólitos, tomografia se necessário) para descartar causas orgânicas. Se tudo estiver normal e o padrão dos sintomas sugerir uma origem psicológica, o médico encaminhará para a neurologia e, em seguida, para a psiquiatria e psicologia. Não se sinta constrangido: o tratamento funciona melhor quando você e sua família entendem que o sofrimento é real e que a mente e o corpo precisam de ajuda integrada.

Sinais de alerta que exigem atendimento de urgência: crises convulsivas prolongadas (mais de 5 minutos), perda de consciência com risco de queda, falta de ar intensa ou sintomas que aparecem após um traumatismo craniano. Nesses casos, procure um pronto-socorro.

Termos Relacionados

  • Transtorno de sintomas somáticos – condição em que a pessoa tem múltiplas queixas físicas persistentes, com grande sofrimento, mas sem causa médica clara. Diferencia-se da desordem conversiva por não haver necessariamente um “sintoma neurológico” específico.
  • Somatização – tendência a sentir e expressar desconfortos