sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Desordem de sono REM

O que é Desordem de sono REM?

Na minha rotina como clínico geral no SUS e em clínicas populares de Fortaleza, atendo muitos pacientes que chegam com queixas como: “Doutor, minha esposa diz que eu grito e chuto durante a noite” ou “Acordo todo arranhado, parece que briguei enquanto dormia”. Esses relatos, quando acompanhados de lembranças de sonhos vívidos e intensos, podem apontar para um quadro chamado Desordem de sono REM, também conhecida como Transtorno do Comportamento do Sono REM (TCSREM).

O sono REM (Rapid Eye Movement) é a fase do sono em que sonhamos com mais intensidade. Normalmente, durante essa fase, o corpo fica temporariamente “paralisado” — é um mecanismo de proteção para que você não “encene” os sonhos. Na Desordem de sono REM, essa paralisia não acontece direito. A pessoa literalmente age os sonhos: fala, grita, dá socos, chuta, senta na cama e até sai andando. Isso não é “sonambulismo comum” — é uma parassonia específica da fase REM, mais comum em homens a partir dos 50 anos, mas que também pode aparecer em mulheres e pessoas mais jovens.

No Brasil, estima-se que entre 0,5% e 2% dos adultos tenham esse transtorno, mas os números são subestimados porque muitos confundem com “sono agitado” ou “estresse”. Dados do Ministério da Saúde mostram que cerca de 40% dos brasileiros têm algum distúrbio do sono, e dentro desse grupo o TCSREM corresponde a uma parcela significativa, especialmente entre idosos. Na prática do SUS, a queixa chega mais frequentemente pelo acompanhante — o(a) parceiro(a) que já levou um braço na cara durante a noite. É um problema que afeta não só o paciente, mas quem dorme ao lado, com risco de lesões físicas e impacto na qualidade de vida.

Como funciona / Características

Imagine o seguinte: você está sonhando que está correndo de um cachorro bravo. Normalmente, seu cérebro envia um sinal para a medula espinhal “travar” os músculos, então você fica imóvel na cama, só os olhos se mexem. Na Desordem de sono REM, essa trava falha. O cérebro libera os comandos motores, e o corpo obedece ao sonho. As pernas pedalam, os braços socam o ar, a boca fala frases sem sentido ou grita.

Nas clínicas populares, os pacientes descrevem cenas assim:
– “Sonhei que estava dirigindo e o carro ia bater, aí chutei o painel. Minha mulher acordou com o pé na costa dela.”
– “Toda noite acordo de madrugada com meu marido berrando ‘sai daí, sai daí’, e ele senta na cama com os olhos abertos, mas não acorda.”

Uma característica importante: os episódios costumam acontecer na segunda metade da noite, porque é quando os ciclos de sono REM são mais longos e frequentes. Diferente do sonambulismo (que ocorre no sono NREM e a pessoa não lembra de sonho), na Desordem de sono REM a pessoa quase sempre lembra do sonho — e o conteúdo costuma ser de agressão, fuga ou defesa. O sonhador está se defendendo de algo ou alguém, e o parceiro acaba virando o “alvo” dos golpes.

É fundamental entender que o paciente não está agindo de má-fé, não está fingindo e não tem controle sobre isso. Muitos se sentem envergonhados e culpados, especialmente se machucam alguém. O acolhimento na consulta precisa ser cuidadoso: “O senhor não é violento, é o cérebro que não desligou o freio dos músculos durante o sonho.”

Tipos e Classificações

No Brasil, usamos a Classificação Internacional de Doenças (CID-11) e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Na CID-11, a Desordem de sono REM está codificada como 7B00.1 (Parassonia do sono REM). No DSM-5, é classificada como um dos Transtornos do Sono.

Podemos dividir em dois grandes grupos quanto à causa:

  • Forma idiopática (primária): Não tem causa identificável. É a mais comum, principalmente em homens acima de 50 anos. Muitas vezes está associada ao envelhecimento natural dos mecanismos de controle do sono.
  • Forma secundária: Aparece junto com outras doenças neurológicas, como Doença de Parkinson, Demência com Corpos de Lewy ou Narcolepsia. Na prática, muitas vezes o TCSREM é um sinal precoce que aparece anos antes dos sintomas motores do Parkinson. Também pode ser desencadeada por medicamentos (especialmente antidepressivos como inibidores da recaptação de serotonina) ou por abstinência de álcool/sedativos.

A classificação auxilia no encaminhamento. Na clínica popular, se um paciente acima de 50 anos chega com desordem de sono REM sem explicação, já suspeito de que pode ser um marcador precoce de neurodegeneração e explico: “Precisamos investigar com um neurologista, porque isso pode ser o primeiro sinal de algo que vai aparecer daqui a 5 ou 10 anos.”

Quando procurar um médico

Muitas pessoas acham que “sono agitado” é normal, principalmente em homens mais velhos. Mas existem sinais de alerta que indicam a necessidade de avaliação médica:

  • Você ou seu parceiro(a) apresenta comportamentos como socos, chutes, gritos ou frases durante o sono com frequência (mais de uma vez por semana).
  • Houve lesões em você ou em quem dorme ao lado (hematomas, arranhões, cortes).
  • Você acorda cansaço durante o dia, com sensação de noite mal dormida.
  • Os episódios estão piorando com o tempo.
  • Você tem histórico familiar de doenças como Parkinson ou demência.
  • Começou a tomar um novo remédio (antidepressivo, por exemplo) e o problema surgiu depois.

No SUS, o caminho começa na Unidade Básica de Saúde (UBS). O clínico geral ou o médico de família pode fazer a primeira suspeita, solicitar exames simples (como hemograma e função tireoidiana) e encaminhar para um neurologista ou médico do sono. O exame padrão-ouro para confirmar é a polissonografia, que registra ondas cerebrais, movimentos oculares, tônus muscular e outros parâmetros. Esse exame é oferecido pelo SUS em hospitais de referência, mas as filas podem ser longas — em algumas regiões, chega a 6 meses ou mais. Enquanto espera, o paciente pode adotar medidas de segurança (veja as Perguntas Frequentes).

Não ignore o problema. Lesões podem ser graves: há relatos de quedas da cama, fraturas, e até parceiros que sofreram traumatismo craniano. Além disso, como falei, a desordem de sono REM pode ser a primeira pista de uma doença neurológica futura. Identificar precocemente permite acompanhamento e planejamento.

Termos Relacionados

  • Parassonia: Conjunto de comportamentos ou experiências indesejadas que ocorrem durante o sono (sonambulismo, terror noturno, pesadelos, desordem de sono REM).
  • Sonambulismo: Comportamento motor complexo durante o sono NREM, geralmente na primeira metade da noite. A pessoa não lembra dos sonhos e pode andar pela casa sem acordar.
  • Terror noturno: Episódio de pavor intenso no sono NREM, com gritos, choro e ativação autonômica (coração acelerado). A pessoa não acorda totalmente e não lembra do conteúdo.
  • Polissonografia: Exame que monitora múltiplos parâmetros fisiológicos durante o sono (eletroencefalograma, eletro-oculograma, eletromiograma, frequência cardíaca, respiração). Essencial para diagnosticar a desordem de sono REM.
  • Atonia muscular: Perda temporária do tônus muscular durante o sono REM, que nos impede de agir os sonhos. Na desordem de sono REM, a atonia está ausente ou incompleta.
  • Narcolepsia: Distúrbio do sono caracterizado por sonolência excessiva diurna, cataplexia (perda súbita de força muscular) e, frequentemente, associação com desordem de sono REM.
  • Melatonina: Hormônio que regula o ciclo sono-vigília. No Brasil, é vendida como suplemento alimentar (ANVISA não a aprova como medicamento). Pode ser usada como tratamento adjuvante para desordem de sono REM, mas sempre com orientação médica.
  • Clonazepam: Medicamento da classe dos benzodiazepínicos, frequentemente prescrito para tratamento da desordem de sono REM (em doses baixas). No SUS, está disponível na atenção básica, mas exige receita controlada (tarja preta).

Perguntas Frequentes sobre Desordem de sono REM

1. Eu bato no meu marido durante o sono, isso é perigoso?

Sim, pode ser perigoso. A Desordem de sono REM já causou desde hematomas até fraturas e traumatismos cranianos em parceiros de cama. O risco é real. Enquanto não inicia o tratamento, é importante proteger o ambiente: coloque barreiras (almofadas) entre vocês, afaste móveis com quinas, retire objetos cortantes ou perfurantes do quarto, e se necessário, durma em camas separadas temporariamente.


Veja Também