quarta-feira, maio 27, 2026

O que é Diabetes

O que é O que é Diabetes?

No meu consultório, lá na clínica popular, atendo um ou dois pacientes por turno que chegam com exame de sangue mostrando glicose nas alturas. “Doutor, o que é isso?”, eles perguntam. Então explico: diabetes é uma doença crônica que acontece quando o pâncreas não produz insulina suficiente ou quando o corpo não consegue usar direito a insulina que ele mesmo fabrica. A insulina é como uma chave que abre a porta das células para a glicose (o açúcar do sangue) entrar e virar energia. Sem insulina funcionando bem, a glicose fica acumulada no sangue, fazendo um estrago silencioso em vasos, nervos, rins, olhos e coração.

No Brasil, a realidade é dura. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 7,7% da população adulta já recebeu diagnóstico de diabetes, e muitos nem sabem que têm. Na prática do SUS, a gente vê filas enormes para consulta com endocrinologista, falta de fitas glicêmicas e dificuldade para conseguir insulina. É um problema de saúde pública que exige prevenção e acolhimento.

Diabetes não escolhe idade, mas tem grupos mais vulneráveis: pessoas acima de 40 anos, com obesidade, sedentarismo, histórico familiar e hipertensão. O mais importante é saber que diabetes tem tratamento, e que com acompanhamento correto é possível ter qualidade de vida. Não é sentença de morte, mas exige compromisso diário.

Como funciona / Características

Pense no seu corpo como uma grande central de energia. Tudo que você come vira glicose, que vai para o sangue. O pâncreas, um órgão atrás do estômago, libera insulina para levar essa glicose para dentro das células. No diabetes, esse sistema quebra. A glicose bate na porta da célula, não entra, e fica passeando na corrente sanguínea. Com o tempo, esse excesso de açúcar começa a “enferrujar” os vasos.

Na clínica, os pacientes contam que sentem sede o tempo todo, acordam várias vezes à noite para fazer xixi, emagrecem sem motivo, têm visão embaçada, formigamento nos pés, ou feridas que demoram a cicatrizar. Mas tem casos silenciosos: a pessoa está bem, sem sintomas, e descobre o diabetes num exame de rotina. Por isso, na rede básica do SUS, incentivamos a testagem anual de glicemia em jejum para quem tem fatores de risco.

O que vejo no dia a dia é que o pior inimigo não é a doença em si, mas a falta de informação e o medo. Muitos pacientes acham que “só parar de comer açúcar” resolve, ou que insulina é castigo. Minha função é mostrar que é possível viver bem, com uma alimentação equilibrada, atividade física regular (nem que seja caminhar 30 minutos por dia), medicação correta e apoio da equipe de saúde.

Tipos e Classificações

Na prática brasileira, a gente classifica o diabetes principalmente em:

  • Diabetes tipo 1: geralmente aparece na infância, adolescência ou início da vida adulta. O sistema imunológico ataca as células que produzem insulina, e o pâncreas para de fabricá-la. A pessoa precisa de insulina desde o diagnóstico. No SUS, esses pacientes têm prioridade para receber insulina e frascos de glicemia, mas ainda há gargalos.
  • Diabetes tipo 2: o mais comum, responsável por mais de 90% dos casos no Brasil. O corpo produz insulina, mas as células não respondem bem (resistência insulínica). Surge geralmente em adultos acima dos 40 anos, associado a excesso de peso e sedentarismo. Pode ser controlado com dieta, atividade física, remédios orais e, com o tempo, insulina.
  • Diabetes gestacional: diagnosticado durante a gravidez, geralmente entre a 24ª e a 28ª semana. Se não controlado, traz riscos para a mãe e o bebê (macrossomia, pré-eclâmpsia). No pré-natal do SUS, o teste de tolerância à glicose (curva glicêmica) é ofertado gratuitamente.
  • Pré-diabetes: quando a glicemia está acima do normal, mas ainda não é diabetes. É uma fase de alerta. Mudanças no estilo de vida podem evitar a progressão. Na clínica popular, oriento pacientes com glicemia entre 100 e 125 mg/dL em jejum a adotar hábitos saudáveis e repetir o exame em seis meses.

O Ministério da Saúde e a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) recomendam o rastreamento precoce. Também existem tipos menos comuns, como o diabetes MODY (genético) e o diabetes secundário (causado por doenças do pâncreas, medicamentos ou cirurgias). No SUS, a classificação é feita com base em exames clínicos, autoanticorpos (para o tipo 1) e histórico.

Quando procurar um médico

Na minha experiência, muita gente espera sentir algo grave para procurar ajuda. Com o diabetes, o ideal é não esperar os sintomas aparecerem. Se você tem algum dos fatores de risco abaixo, marque uma consulta na UBS ou na nossa clínica:

  • Ter mais de 40 anos
  • Excesso de peso (IMC ≥ 25 kg/m²)
  • Histórico de diabetes na família (pais, irmãos)
  • Pressão alta ou colesterol alterado
  • Diabetes gestacional anterior ou ter tido bebê com mais de 4 kg

Sinais de alerta que exigem consulta rápida:

  • Sede excessiva (bebe muita água e não sacia)
  • Urinar demais, inclusive à noite
  • Perda de peso sem dieta
  • Cansaço fora do normal
  • Visão embaçada
  • Formigamento, dormência ou dor nos pés
  • Feridas que demoram a cicatrizar (principalmente nos pés)
  • Infecções de repetição (urina, pele, gengiva)

Importante: se você já tem diagnóstico de diabetes, procure o médico sempre que perceber alterações na glicemia, tonturas, confusão mental (pode ser hipoglicemia), sinais de infecção ou feridas nos pés. Na rede pública, o acolhimento na Atenção Primária é a porta de entrada para o acompanhamento multidisciplinar (médico, enfermeiro, nutricionista, psicólogo).

Termos Relacionados

  • Glicemia: é a quantidade de glicose (açúcar) no sangue. Em jejum normal, fica abaixo de 100 mg/dL. Valores entre 100 e 125 mg/dL indicam pré-diabetes; acima de 126 mg/dL já é diabetes.
  • Insulina: hormônio produzido pelo pâncreas que permite a entrada de glicose nas células. No diabetes tipo 1, precisa ser aplicada; no tipo 2, pode ser necessária com o avanço da doença.
  • Hemoglobina glicada (HbA1c): exame que mostra a média da glicose dos últimos 2 a 3 meses. É o melhor indicador de controle da doença.
  • Hipoglicemia: queda brusca da glicose (abaixo de 70 mg/dL), que pode causar suor, tremores, taquicardia, confusão e até desmaio. É uma emergência que deve ser tratada com açúcar imediato.
  • Hiperglicemia: excesso de glicose no sangue, geralmente acima de 200 mg/dL. a longo prazo, lesa vasos e órgãos.
  • Neuropatia diabética: dano nos nervos causado pelo excesso de glicose, resultando em formigamento, dormência ou dor em membros, especialmente nos pés.
  • Pé diabético: complicação grave que envolve infecção, úlceras e deformidades nos pés. Pode levar a amputações se não tratado precocemente.
  • Curva glicêmica (TOTG): exame em que se colhe sangue em jejum e depois de tomar um líquido com glicose, para avaliar como o corpo processa o açúcar. Usado no diagnóstico de diabetes gestacional e pré-diabetes.

Perguntas Frequentes sobre O que é Diabetes

Diabetes tem cura?

Não, diabetes não tem cura, mas tem controle. Com tratamento adequado, alimentação saudável, atividade física e acompanhamento médico, é possível manter a glicemia em níveis normais e evitar complicações. Em alguns casos de diabetes tipo 2 com grande perda de peso e mudança de estilo de vida, pode haver remissão (glicemia normal sem medicação), mas a vigilância continua. Nunca abandone o tratamento por conta própria.

Qual a diferença entre diabetes tipo 1 e tipo 2?

O tipo 1 é uma doença autoimune – o organismo ataca as células que produzem insulina, e por isso o paciente precisa de insulina desde o começo. Geralmente surge em jovens. Já o tipo 2 está mais ligado à obesidade, sedentarismo e genética; o corpo produz insulina, mas as células não respondem bem. O tratamento inicial é com mudança de hábitos e remédios orais, e com o tempo pode evoluir para uso de insulina. No Brasil, o tipo 2 é o mais comum, mas o tipo 1 também é frequente e exige atenção especial no SUS.

Posso comer doce se tenho diabetes?

Pode, mas com moderação e planejamento. O ideal é evitar açúcares simples (refrigerante, bolo, bala) e preferir carboidratos complexos (arroz integral, feijão, verduras). Se você vai comer um doce, tente associar a uma refeição rica em fibras e proteínas, e não exagere na quantidade. O mais importante é manter a glicemia controlada – seu médico ou nutricionista pode ajudar a montar um plano alimentar sem tirar totalmente o prazer de comer.

Diabetes pode matar?

Sim, se não tratado, pode levar a complicações fatais como infarto, AVC, insuficiência renal e infecções graves. Mas com controle adequado, a expectativa de vida de uma pessoa com diabetes é quase igual à de quem não tem. A chave é o diagnóstico precoce, o acompanhamento regular e o autocuidado. No SUS, há protocolos de prevenção de complicações, como exame de fundo de olho e avaliação dos pés anualmente.

Tomar insulina engorda?

Não é a insulina que engorda, mas sim a melhora do controle glicêmico que pode levar a uma maior absorção de nutrientes. Alguns pacientes podem ganhar algum peso, mas isso é manejável com dieta e atividade. A insulina é um medicamento salva-vidas – não ter medo dela. Muitas vezes, chegam pacientes no meu consultório com glicemia altíssima por medo de engordar. Reforço que o risco de ficar sem insulina é muito maior que um eventual ganho de peso.

O SUS fornece medicamentos e insulina gratuitos?

Sim. O Ministério da Saúde disponibiliza insulina (regular e NPH), fitas glicêmicas, seringas e medicamentos orais (metformina, glibenclamida, gliclazida, entre outros) nas farmácias das Unidades Básicas de Saúde e nos Centros de Saúde. Para ter acesso, é necessário cadastro no programa e receita médica válida. Infelizmente, pode haver desabastecimento em algumas regiões, mas a orientação é procurar a UBS de referência e, se necessário, acionar a ouvidoria do SUS. Na clínica popular, orientamos os pacientes a sempre manter a documentação em dia e não interromper o tratamento.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


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