terça-feira, junho 9, 2026

O que é Diálise

O que é O que é Diálise?

Na minha prática de 15 anos no SUS e em clínicas populares brasileiras, a pergunta que mais ouço é: “Doutor, o que é diálise?” De forma simples, diálise é um tratamento que substitui a função dos rins quando eles não conseguem mais filtrar o sangue adequadamente. Imagine os rins como dois filtros naturais que removem toxinas, excesso de água e sais do organismo. Quando esses filtros falham — condição chamada de insuficiência renal crônica — a máquina ou a própria barriga do paciente passa a fazer esse serviço. No Brasil, a doença renal crônica atinge cerca de 10% da população adulta, e mais de 150 mil pessoas dependem da diálise para viver, segundo dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia. É um número que cresce a cada ano, especialmente entre hipertensos e diabéticos, que são os principais candidatos a precisar desse tratamento.

Em uma clínica popular ou em um posto de saúde, o primeiro contato com a diálise costuma acontecer quando o paciente chega com sintomas como inchaço, cansaço extremo, náuseas e falta de ar. Após exames de sangue que mostram creatinina e ureia muito altas, o clínico geral encaminha para o nefrologista, que avalia a necessidade de iniciar a terapia. No SUS, o acesso à diálise é garantido por lei, mas as filas e a distância até as clínicas ainda são desafios reais, principalmente no Norte e Nordeste. Por isso, é tão importante falar sobre prevenção e diagnóstico precoce, que podem adiar ou até evitar a necessidade de diálise.

Vale destacar que a diálise não é uma cura, mas uma ponte para a qualidade de vida. Ela mantém o paciente vivo e funcional enquanto ele aguarda um transplante renal ou como tratamento definitivo para quem não pode fazer a cirurgia. A ANVISA regula todos os equipamentos e soluções usadas, garantindo a segurança do procedimento. E o CFM estabelece diretrizes claras sobre quando iniciar e como monitorar a terapia. Na prática, vejo pacientes que convivem bem com a diálise por décadas, desde que sigam as orientações médicas e mantenham o acompanhamento regular.

Como funciona / Características

Na rotina de uma clínica popular, explico o funcionamento da diálise com uma analogia: “É como ligar o carro no guincho quando o motor pifa”. Existem duas formas principais de fazer essa filtragem, e cada uma tem suas particularidades. Na hemodiálise, o sangue do paciente sai do corpo por uma agulha ou cateter, passa por um filtro especial (chamado de dializador) dentro de uma máquina que limpa o sangue e devolve para a veia. Esse processo leva de 3 a 5 horas por sessão, geralmente três vezes por semana, em uma clínica especializada. Já na diálise peritoneal, o filtro é a própria membrana que reveste a barriga (peritônio). O paciente coloca um líquido especial (solução de diálise) dentro do abdômen por meio de um cateter, e esse líquido absorve as toxinas ao longo de algumas horas, sendo depois drenado. Pode ser feito em casa, à noite durante o sono (diálise peritoneal automatizada) ou durante o dia com trocas manuais (diálise peritoneal ambulatorial contínua).

No cotidiano do SUS, a hemodiálise é a modalidade mais comum, porque as clínicas de diálise estão espalhadas pelo país, embora muitas vezes concentradas em cidades grandes. Para os pacientes de clínicas populares, a maior dificuldade é o deslocamento: muitos dependem de transporte público ou de vans cedidas pela prefeitura. Durante a sessão, o paciente fica sentado ou deitado, podendo ler, assistir TV ou até cochilar. É comum sentir um pouco de tontura, cãibras ou queda de pressão, mas a equipe de enfermagem está sempre atenta para ajustar a máquina. Antes da primeira sessão, o paciente precisa passar por uma pequena cirurgia para criar um acesso vascular — a fístula arteriovenosa, que é a ligação de uma artéria com uma veia no braço, facilitando a punção regular.

Uma característica fundamental que sempre reforço: a diálise exige disciplina. O paciente precisa controlar rigorosamente a ingestão de líquidos, sal, potássio e fósforo, além de tomar medicações como eritropoetina para anemia e quelantes para controlar o fósforo. É um estilo de vida que pode parecer pesado no começo, mas com apoio da equipe multidisciplinar — nutricionista, psicólogo, assistente social — é possível ter uma rotina ativa. Muitos dos meus pacientes trabalham, estudam e viajam, desde que planejem as sessões com antecedência.

Tipos e Classificações

No Brasil, a classificação usada pelo Ministério da Saúde e pelas clínicas segue dois grandes grupos, conforme a via de acesso e a tecnologia:

  • Hemodiálise (HD): É a forma mais difundida. O sangue é filtrado por uma máquina externa. Pode ser feita em clínicas, hospitais ou, em alguns casos, em casa (hemodiálise domiciliar, ainda pouco comum no Brasil). Exige um acesso vascular (fístula, cateter ou enxerto). Cada sessão dura em média 4 horas, três vezes por semana.
  • Diálise Peritoneal (DP): Utiliza a membrana do peritônio como filtro. Classifica-se em:
    • DPAC (Diálise Peritoneal Ambulatorial Contínua): trocas manuais feitas pelo próprio paciente, 4 a 5 vezes ao dia, durante o dia.
    • DPA (Diálise Peritoneal Automatizada): uma máquina (cicladora) realiza as trocas automaticamente à noite, enquanto o paciente dorme.

Uma classificação adicional, que uso na prática, é baseada na urgência. A diálise pode ser crônica (para pacientes com insuficiência renal terminal que precisam do tratamento contínuo) ou aguda (realizada em hospitais para tratar lesão renal súbita, como em casos de sepse ou intoxicação). O SUS oferece ambas as modalidades, com regulação da ANVISA para a qualidade das soluções e equipamentos. A escolha entre HD e DP depende de fatores clínicos, da preferência do paciente, da distância até a clínica e da disponibilidade de suporte domiciliar. Na clínica popular, a DP é menos frequente por falta de treinamento adequado e medo de infecções, mas quando bem indicada, oferece mais liberdade.

Quando procurar um médico

Sinais de que os rins podem estar falhando e que a diálise pode estar próxima não aparecem do nada. Na maioria dos casos, a doença renal crônica progride silenciosamente. Mas alguns sintomas devem acender o alerta, especialmente em pessoas com diabetes, hipertensão, histórico familiar de doença renal ou idade acima de 60 anos. Procure um médico (clínico geral ou nefrologista) se você apresentar:

  • Inchaço (edema) em pernas, tornozelos, pés ou ao redor dos olhos – sinal de retenção de líquidos.
  • Cansaço excessivo e falta de ar – podem indicar anemia ou acúmulo de líquido nos pulmões.
  • Náuseas, vômitos e perda de apetite – toxinas acumuladas afetam o sistema digestivo.
  • Urina espumosa, com sangue ou redução do volume urinário – possível dano renal.
  • Coceira intensa na pele (prurido) e pele seca – sinal de acúmulo de fósforo e outras substâncias.
  • Cãibras frequentes e dormência nas pernas – alteração de eletrólitos como potássio e cálcio.

Se você já tem diagnóstico de doença renal crônica em estágio avançado (estágio 4 ou 5), o nefrologista irá monitorar os exames e discutir o momento ideal para iniciar a diálise, antes que surjam complicações graves. Não espere para sentir falta de ar extrema ou confusão mental. Quanto mais cedo a diálise for planejada, menor o risco de internações e maior a qualidade de vida. Lembre-se: nas clínicas populares e no SUS, o encaminhamento é feito pela atenção básica. Faça seus exames de sangue e urina anualmente, mesmo sem sintomas.

Termos Relacionados

  • Fístula Arteriovenosa (FAV): é a conexão cirúrgica entre uma artéria e uma veia, geralmente no braço, criada para facilitar as punções repetidas da hemodiálise. É o acesso vascular mais seguro e durável.
  • Cateter para Hemodiálise: tubo fino inserido em uma veia grande do pescoço, tórax ou virilha, usado para acesso temporário ou quando a fístula não é possível. Exige cuidados rigorosos para evitar infecções.
  • Dializador (ou Filtro): componente da máquina de hemodiálise que contém milhares de fibras ocas que filtram o sangue, removendo toxinas e excesso de líquido.
  • Solução de Diálise: líquido estéril usado na diálise peritoneal, composto por água, glicose e eletrólitos, que atrai as toxinas do sangue para dentro da cavidade abdominal.
  • Creatinina: substância produzida pelos músculos e eliminada pelos rins. Níveis elevados no sangue indicam que os rins não estão filtrando bem; é o principal marcador para indicar diálise.
  • Ureia: produto da digestão de proteínas, também eliminado pelos rins. Altas concentrações causam sintomas como náuseas e cansaço.
  • Transplante Renal: cirurgia que implanta um rim saudável (de doador vivo ou falecido) no paciente, eliminando a necessidade de diálise. É a melhor alternativa para muitos pacientes com insuficiência renal terminal.
  • Nefrologista: médico especialista em doenças dos rins, responsável por diagnosticar