sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Diarreia

O que é O que é Diarreia?

Na rotina de um clínico geral que atende há 15 anos no SUS e em clínicas populares, a diarreia é uma das queixas mais frequentes. Ela é definida como o aumento do número de evacuações (mais de três vezes ao dia) e/ou a diminuição da consistência das fezes, que se tornam líquidas ou pastosas. No Brasil, estima-se que cada criança menor de 5 anos tenha em média 2 a 3 episódios de diarreia aguda por ano, segundo dados do Ministério da Saúde. Adultos também são muito afetados, principalmente em surtos sazonais de viroses transmitidas por alimentos ou água contaminada.

Na prática clínica do SUS, muitas vezes o paciente chega ao pronto-atendimento ou à unidade básica com um balde de plástico ou uma sacola para mostrar as fezes, o que é um sinal de desespero e cansaço. A diarreia, embora comum, pode levar à desidratação grave, especialmente em crianças pequenas, idosos e pessoas com doenças crônicas. Por isso, o médico deve sempre avaliar o grau de hidratação, a duração dos sintomas e a presença de sangue ou muco nas fezes. A abordagem inicial no SUS segue o protocolo da Atenção Primária, que prioriza a reidratação oral com soro caseiro (a famosa “água com açúcar e sal”) e a identificação de sinais de alarme.

É importante destacar que a diarreia não é uma doença em si, mas um sintoma de várias condições, desde infecções virais (como rotavírus e norovírus) até intolerâncias alimentares, efeitos colaterais de medicamentos (especialmente antibióticos) e doenças inflamatórias intestinais. No contexto das clínicas populares, muitos pacientes relatam o uso de remédios “para prender o intestino” por conta própria, o que pode ser perigoso em casos de diarreia infecciosa, pois retém os germes no organismo. O papel do médico, nesses casos, é acolher e orientar com empatia, explicando a importância da hidratação e do repouso intestinal.

Como funciona / Características

Para entender a diarreia, imagine o intestino como uma mangueira que absorve água e nutrientes dos alimentos. Quando há uma infecção, inflamação ou irritação na parede do intestino, ele perde a capacidade de absorver líquidos adequadamente, e o conteúdo passa muito rápido. O resultado são fezes moles ou líquidas, muitas vezes acompanhadas de cólicas, gases e urgência para evacuar. No dia a dia da clínica, os pacientes descrevem como “água de feijão” ou “como torneira”, especialmente nos casos de cólera ou diarreia viral intensa.

Na prática, o que vemos no SUS é uma variação enorme: desde uma diarreia leve que dura um ou dois dias (autolimitada) até quadros prolongados que podem levar a desnutrição. O mecanismo pode ser secretório (o intestino libera excesso de água e eletrólitos, como na cólera ou nas infecções por Escherichia coli enterotoxigênica), inflamatório (quando há lesão na mucosa, com presença de sangue e muco, como na shiguelose ou na doença de Crohn) ou osmótico (quando uma substância não absorvida “puxa” água para dentro do intestino, como ocorre com a lactose em intolerantes ou com laxantes).

Um exemplo clássico no consultório: o paciente chega dizendo “doutor, comecei a tomar antibiótico e estou com diarreia há 3 dias”. Isso pode ser um efeito colateral do medicamento (alteração da flora intestinal) ou uma infecção oportunista como a Clostridioides difficile. Outro caso comum é a diarreia do viajante, muito relatada em clínicas populares nas regiões litorâneas ou após férias. Em ambos, a orientação é manter a hidratação e, se necessário, usar probióticos (como iogurtes ou suplementos de lactobacilos) e evitar antidiarreicos sem prescrição.

Tipos e Classificações

No Brasil, os médicos e os serviços de saúde classificam a diarreia de acordo com o tempo de duração e a presença de sangue. Essa classificação é fundamental para definir a conduta, pois determina se o paciente precisa de exames complementares, antibióticos ou internação.

  • Diarreia aguda: dura até 14 dias. É a mais comum, geralmente causada por vírus (rotavírus, norovírus, adenovírus), bactérias (Salmonella, Shigella, E. coli) ou parasitas (Giardia, ameba). No SUS, a maioria dos casos é viral e se resolve com hidratação oral.
  • Diarreia persistente: dura entre 14 e 30 dias. Pode ser consequência de infecção não tratada, desnutrição ou alergia alimentar. Exige investigação mais detalhada, como exame de fezes e parasitológico.
  • Diarreia crônica: dura mais de 30 dias. Está associada a doenças como síndrome do intestino irritável, doença inflamatória intestinal (Doença de Crohn, retocolite ulcerativa), intolerância à lactose, doença celíaca ou uso crônico de medicamentos.
  • Disenteria: diarreia com presença de sangue e muco nas fezes, geralmente acompanhada de cólicas fortes e febre. Indica infecção bacteriana invasiva (Shigella, Salmonella, amebíase) e requer tratamento específico com antibiótico, após avaliação médica.

Além disso, a Classificação da OMS para diarreia em crianças é usada nos postos de saúde: classifica-se em diarreia sem desidratação, com alguma desidratação e com desidratação grave. Isso orienta o plano de hidratação (A, B, C). O Ministério da Saúde padroniza o soro de reidratação oral (SRO) como primeira linha, disponibilizado gratuitamente no SUS.

Quando procurar um médico

Muitas pessoas ficam em dúvida sobre quando a diarreia é “apenas um resfriado do intestino” e quando precisa de atendimento. Na minha experiência, o principal erro é esperar demais. Oriento meus pacientes a procurarem um médico imediatamente se apresentarem os seguintes sinais de alerta:

  • Desidratação grave: boca seca, olhos fundos, sede intensa, urina escura e em pouca quantidade, ou, em crianças, ausência de lágrimas ao chorar e moleira funda (no caso de bebês).
  • Presença de sangue ou muco nas fezes (disenteria).
  • Febre alta (acima de 38,5°C) que não cede com antitérmicos.
  • Dor abdominal intensa e contínua, que não melhora com cócegas ou posição fetal.
  • Vômitos frequentes que impedem a hidratação oral.
  • Diarreia que dura mais de 3 dias em adultos ou mais de 24 horas em crianças e idosos.
  • Pessoas com doenças crônicas (diabetes, insuficiência renal, imunossuprimidos, gestantes) ou extremos de idade (menores de 6 meses e maiores de 65 anos) devem buscar avaliação precoce.

Nas clínicas populares e no SUS, o médico vai avaliar o estado geral, verificar sinais de desidratação, solicitar exames de fezes se necessário, e orientar o tratamento. Nunca tome medicamentos para “prender o intestino” (como loperamida) sem orientação, pois podem piorar infecções bacterianas. Se o paciente não conseguir ingerir líquidos por via oral, pode ser necessário soro intravenoso na unidade de saúde.

Termos Relacionados

  • Soro de Reidratação Oral (SRO): solução de água, sal, açúcar e eletrólitos, recomendada pela OMS e disponível gratuitamente no SUS para prevenir e tratar a desidratação causada pela diarreia. Pode ser feita em casa com a receita: 1 litro de água filtrada, 1 colher de chá de sal, 2 colheres de sopa de açúcar.
  • Gastroenterite: inflamação do estômago e intestinos, geralmente causada por vírus, que provoca diarreia, vômito, náusea e dor abdominal. É a principal causa de diarreia aguda no Brasil.
  • Disenteria: diarreia com sangue e muco, geralmente de origem bacteriana (Shigella, Salmonela) ou parasitária (ameba). Exige tratamento com antibiótico após exame de fezes.
  • Rotavírus: principal causa de diarreia grave em crianças menores de 5 anos. Existe vacina incluída no Calendário Nacional de Vacinação do SUS (gratuita).
  • Intolerância à lactose: incapacidade de digerir o açúcar do leite, causando diarreia osmótica, gases e cólicas após consumo de laticínios. Muito frequente na população brasileira.
  • Probióticos: microrganismos vivos (como lactobacilos) que ajudam a restaurar a flora intestinal após diarreia, especialmente por uso de antibióticos. São vendidos em farmácias e também encontrados em iogurtes.
  • Cólera: doença infecciosa intestinal grave causada pela bactéria Vibrio cholerae, que provoca diarreia aquosa abundante (“água de arroz”) e pode levar à desidratação fatal em horas. No Brasil, a transmissão é rara, mas ainda ocorre em áreas com saneamento precário.
  • Hidratação intravenosa (soro na veia): administração de líquidos diretamente na corrente sanguínea, necessária quando a desidratação é grave ou o paciente não consegue beber. Feita em unidades de saúde do SUS.

Perguntas Frequentes sobre O que é Diarreia

Posso tomar remédio para parar a diarreia?

Não é recomendado sem orientação médica. Medicamentos como loperamida (conhecido como “IMOSEC” ou “Flux”) “prendem” o intestino, mas podem piorar infecções bacterianas, pois impedem a eliminação dos germes. Além disso, podem causar íleo paralítico (intestino parado). A conduta correta é hidratar-se bem e, se houver dor ou febre, tratar os sintomas com analgésicos e antitérmicos comuns (paracetamol ou dipirona). Se a diarreia for prolongada ou houver sangue, o médico pode prescrever antibióticos específicos. Lembre-se: diarreia é uma defesa do organismo para eliminar agentes agressores – não a bloqueie sem necessidade.

O que comer quando estou com diarreia?

O mais importante é beber líquidos para repor o que se perde. Alimentos leves e de fácil digestão são os melhores: arroz branco, frango sem pele grelhado, batata cozida, cenoura cozida, banana-nanica (bem madura), maçã sem casca, torradas e gelatina. Evite leite e derivados (podem piorar a diarreia por deficiência temporária de lactase), alimentos gordurosos, frituras, refrigerantes, café, alimentos muito condimentados e frutas ácidas. O famoso “soro caseiro” deve ser tomado em pequenos goles ao longo do dia. Uma dica prática: tome cerca de meio copo de soro a cada evacuação.

Diarreia pode ser sinal de Covid-19?

Sim, a infecção pelo SARS-CoV-2 pode causar sintomas gastrointestinais, incluindo diarreia, náusea, vômito e dor abdominal, que às


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