quinta-feira, maio 28, 2026

O que é Difteria

O que é O que é Difteria?

A difteria é uma doença infecciosa grave causada pela bactéria Corynebacterium diphtheriae, que afeta principalmente as vias respiratórias superiores (garganta, nariz e, em alguns casos, a pele). No meu dia a dia como clínico geral no SUS e em clínicas populares, a difteria aparece como um diagnóstico de alerta, especialmente em pacientes com histórico vacinal incompleto ou em regiões com baixa cobertura de imunização. Embora a vacinação tenha reduzido drasticamente o número de casos no Brasil desde a década de 1980, a doença ainda circula, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, e surtos localizados podem ocorrer quando a cobertura vacinal cai abaixo de 90%. Segundo dados do Ministério da Saúde, entre 2020 e 2023 foram registrados em média 5 a 10 casos confirmados por ano no país, mas a subnotificação é uma preocupação real em áreas remotas.

O principal mecanismo da difteria é a produção de uma toxina – a toxina diftérica – que destrói os tecidos da garganta e pode se espalhar pela corrente sanguínea, atingindo o coração, o sistema nervoso e os rins. Nas clínicas populares, costumo explicar para os pacientes que a doença age como se uma “película cinzenta” (a pseudomembrana) se formasse na garganta, dificultando a respiração e a deglutição. Essa imagem é útil para que as pessoas entendam o perigo imediato. A transmissão ocorre por gotículas de saliva (tosse, espirro) ou contato direto com lesões de pele, e o período de incubação varia de 2 a 5 dias. Crianças não vacinadas ou com vacinação atrasada são o grupo mais vulnerável, mas adultos também podem adoecer se não receberem reforços vacinais a cada 10 anos.

O diagnóstico é clínico-epidemiológico e laboratorial: na suspeita, coletamos swab de garganta para cultura e pesquisa de toxina. No SUS, o tratamento é feito com soro antidiftérico (antitoxina) e antibióticos (eritromicina ou penicilina), além de suporte respiratório quando necessário. A notificação é obrigatória e imediata – assim que identifico um caso suspeito, já aciono a vigilância epidemiológica do município. Infelizmente, ainda vejo pacientes que chegam com quadros avançados porque a família não reconheceu os sinais iniciais, como febre baixa e dor de garganta “com placa”. Por isso, reforço sempre a importância da vacina pentavalente (aos 2, 4 e 6 meses) e dos reforços com a DTP (aos 15 meses e 4 anos) e a dT (a cada 10 anos).

Como funciona / Características

No consultório, oriento os pacientes a ficarem atentos ao início gradual dos sintomas: febre baixa (até 38°C), cansaço, dor de garganta e uma sensação de “algo preso” na região da faringe. O que diferencia a difteria de uma amigdalite comum é o aparecimento de uma placa branco-acinzentada aderida à mucosa, que sangra se tentar removê-la – a famosa pseudomembrana. Em crianças pequenas, a doença pode se manifestar com coriza, rouquidão e tosse ladrante (semelhante ao crupe). Se a toxina já tiver se espalhado, podem surgir complicações como miocardite (inflamação do coração), que causa palpitações e falta de ar, ou paralisia do véu palatino, dificultando a fala e a deglutição.

Em clínicas populares, pego casos de difteria cutânea, menos comum no Brasil, mas presente em populações de baixa renda com más condições de higiene. Aparece como úlceras crônicas com crosta acinzentada, muitas vezes confundidas com feridas comuns. A forma cutânea é menos tóxica, mas também contagiosa. Sempre que atendo um paciente com ferida que não cicatriza e que tem contato com alguém com difteria respiratória, suspeito dessa apresentação. O tratamento é o mesmo: antitoxina e antibióticos, além de limpeza local.

Um ponto prático do dia a dia: a difteria é uma doença de notificação compulsória imediata. Isso significa que, ao suspeitar, devo preencher a ficha do SINAN (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) e informar a Secretaria Municipal de Saúde em até 24 horas. A vigilância então investiga contatos e realiza bloqueio vacinal. Muitos pacientes estranham quando pergunto sobre o cartão vacinal de toda a família, mas é essencial para evitar surtos.

Tipos e Classificações

A difteria é classificada principalmente pelo local de infecção:

  • Difteria respiratória (faríngea/laríngea): a forma clássica, responsável pela maioria dos casos graves. Acomete a garganta, faringe e laringe. A pseudomembrana pode obstruir as vias aéreas, exigindo traqueostomia de emergência.
  • Difteria cutânea (ou dérmica): infecção na pele, comum em regiões tropicais e associada a más condições de higiene. As lesões são ulceradas, com bordas elevadas e uma membrana acinzentada.
  • Difteria nasal: forma leve, geralmente em bebês, com secreção nasal sanguinolenta e crostas. Pode ser assintomática em alguns casos.
  • Difteria ocular, genital ou auricular: raras, mas possíveis, especialmente em pacientes com higiene precária.

No Brasil, o Ministério da Saúde adota a classificação baseada no agente etiológico (C. diphtheriae produtor de toxina vs. não produtor) e na gravidade clínica (leve, moderada ou grave). A notificação é sempre por caso suspeito, independentemente da forma.

Quando procurar um médico

Procure atendimento médico imediatamente se você ou seu filho apresentar:

  • Dor de garganta intensa com placas esbranquiçadas ou acinzentadas que não saem com gargarejo.
  • Febre baixa persistente (acima de 37,5°C) com cansaço e mal-estar.
  • Dificuldade para engolir ou respirar, rouquidão ou tosse metálica.
  • Nódulos no pescoço (linfonodos aumentados) – o chamado “pescoço de touro”.
  • Feridas na pele que não cicatrizam e têm aspecto “sujo” ou com membrana acinzentada.
  • Criança com secreção nasal sanguinolenta persistente, especialmente se não vacinada.

Na dúvida, não espere. Lembre-se: a difteria evolui rápido e o soro antidiftérico é mais eficaz quanto mais cedo for administrado. Não use medicamentos caseiros ou gargarejos fortes – eles podem piorar a lesão. Vá a uma UBS, UPA ou pronto-socorro. Se o médico suspeitar, ele fará a coleta de swab e iniciará o tratamento de imediato, mesmo antes do resultado laboratorial.

Termos Relacionados

  • Corynebacterium diphtheriae – A bactéria que causa a difteria. Existem quatro biotipos (gravis, mitis, intermedius, belfanti), todos capazes de produzir toxina.
  • Toxina diftérica – A principal arma da bactéria. É uma proteína que inibe a síntese de proteínas nas células humanas, causando necrose e danos ao coração e nervos.
  • Pseudomembrana – Formação de fibrina, células mortas e bactérias que adere à mucosa da garganta. É característica da difteria respiratória.
  • Vacina DTP / dTpa – Vacina que protege contra difteria, tétano e coqueluche. A DTP é usada em crianças; a dTpa é recomendada para gestantes e adultos como reforço.
  • Anti-toxina diftérica (soro antidiftérico) – Imunoglobulina heteróloga (equina) que neutraliza a toxina circulante. Deve ser usada precocemente, após teste de sensibilidade.
  • Notificação compulsória – Obrigação legal de todo médico ou serviço de saúde de informar casos suspeitos ou confirmados de difteria às autoridades de saúde (SINAN).
  • Bloqueio vacinal – Estratégia de vacinar todos os contatos próximos de um caso suspeito para prevenir a disseminação.
  • Miocardite diftérica – Complicação cardíaca grave, que pode ocorrer na segunda semana de doença, manifestando-se como arritmias e insuficiência cardíaca.

Perguntas Frequentes sobre O que é Difteria

A difteria é contagiosa? Como se pega?

Sim, a difteria é altamente contagiosa. A transmissão ocorre pelo contato direto com gotículas de saliva de uma pessoa infectada (ao tossir, espirrar, falar) ou pelo contato indireto com objetos contaminados (copos, talheres). A forma cutânea também transmite pelo contato com a ferida. Uma pessoa pode transmitir a bactéria por até 2 semanas após o início dos sintomas, mesmo sem tratamento adequado. O período de incubação é de 2 a 5 dias.

Existe vacina para difteria? Quem deve tomar?

Sim, a vacina contra a difteria está disponível gratuitamente no SUS. As crianças recebem a vacina pentavalente (que inclui a DTP) aos 2, 4 e 6 meses e os reforços com a DTP aos 15 meses e 4 anos. A partir dos 7 anos, e para adultos, é usada a vacina dupla adulto (dT), que protege contra difteria e tétano, com reforços a cada 10 anos.


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