sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Disfagia

O que é Disfagia?

No dia a dia do consultório, é muito comum ouvir pacientes dizerem: “Doutor, a comida parece que para no meio do caminho” ou “vivo me engasgando com água”. Essa dificuldade para engolir, seja para iniciar a deglutição ou para conduzir o alimento da boca ao estômago, tem nome: disfagia. Não se trata simplesmente de uma “garganta arranhada” ou de um episódio isolado de engasgo — quando a disfagia se torna frequente, ela é um sinal de que algo não vai bem no complexo mecanismo da deglutição.

Como clínico que atua na ponta do SUS e em clínicas populares, vejo a disfagia todos os dias, principalmente em três grupos: idosos acima de 70 anos, pacientes que tiveram AVC (acidente vascular cerebral) e pessoas com doenças neurológicas progressivas, como Parkinson e Alzheimer. Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 15% dos idosos brasileiros hospitalizados apresentam algum grau de disfagia, e esse número sobe para mais de 50% entre os que sofreram um AVC. É uma condição subdiagnosticada, muitas vezes confundida com “falta de apetite” ou “preguiça de comer”, o que atrasa o tratamento e aumenta o risco de complicações graves.

A disfagia não é uma doença em si, mas sim um sintoma de outra condição subjacente. Pode ser desde uma causa simples, como refluxo gastroesofágico mal controlado, até algo mais sério, como tumores de esôfago ou doenças neuromusculares. Por isso, na minha prática, sempre investigo a fundo quando um paciente relata engasgos repetidos, perda de peso sem explicação ou sensação de “nó na garganta”. O diagnóstico precoce, com exames como a videofluoroscopia da deglutição disponível em alguns serviços do SUS, transforma o prognóstico e evita a temida broncoaspiração, que leva a pneumonias de repetição e internações prolongadas.

Como funciona / Características

Engolir parece um ato simples, mas envolve uma coreografia precisa de mais de 30 pares de músculos e seis nervos cranianos. Na disfagia, essa coreografia desanda. Pode acontecer em duas fases principais:

Na fase oral (boca): a pessoa tem dificuldade para mastigar, formar o bolo alimentar ou levar a comida para o fundo da garganta. É comum ver pacientes que mantêm a comida na boca por muito tempo, deixam escapar saliva ou apresentam “acúmulo de alimento” nas bochechas. Nas clínicas populares, atendo muitos idosos com próteses dentárias mal ajustadas que desenvolvem esse tipo de disfagia simplesmente por não conseguirem triturar bem os alimentos.

Na fase faríngea (garganta): ocorre o “engasgo” propriamente dito. O paciente sente que o alimento “entrou pelo caminho errado” — vai para o pulmão em vez do esôfago. Isso provoca tosse intensa, sensação de sufocamento e, nos casos mais silenciosos (principalmente em idosos frágeis), pode ocorrer broncoaspiração sem que a pessoa tosse. Esse tipo de disfagia é o mais perigoso, pois muitas vezes passa despercebido até que uma pneumonia instala-se.

No cotidiano do SUS, percebo dois padrões: o paciente que relata claramente o engasgo com líquidos (mais comum em lesões neurológicas) e aquele que se queixa de “empacamento” de alimentos sólidos no peito (mais sugestivo de obstrução mecânica, como estreitamento do esôfago). A duração dos sintomas também é uma pista importante: disfagia progressiva (que piora ao longo de semanas ou meses) sempre acende um alerta para causas estruturais, incluindo câncer de esôfago, que no Brasil tem incidência significativa nas regiões Sul e Sudeste, associada ao consumo de chimarrão e bebidas muito quentes.

Tipos e Classificações

Na prática clínica brasileira, classificamos a disfagia de duas maneiras principais, e essa distinção ajuda a guiar os exames e o encaminhamento:

  • Disfagia orofaríngea (ou alta): a dificuldade está entre a boca e a entrada do esôfago. É típica de pacientes neurológicos (AVC, Parkinson, Esclerose Lateral Amiotrófica) ou com alterações estruturais da faringe (divertículo de Zenker, tumores de laringe). O paciente engasga principalmente com líquidos e tem dificuldade para iniciar a deglutição.
  • Disfagia esofágica (ou baixa): o alimento passa da garganta para o esôfago, mas “para” no meio do peito ou atrás do osso do peito (esterno). As causas mais comuns no Brasil são estenose péptica (estreitamento por refluxo crônico), acalasia (dificuldade de relaxamento do esfíncter esofágico) e, infelizmente, o carcinoma espinocelular de esôfago. Essa forma costuma se manifestar primeiro com sólidos e, depois, até com líquidos, em fases avançadas.

O Ministério da Saúde, através de protocolos como o Protocolo de Disfagia para Atenção Básica, orienta o uso de uma classificação funcional adicional que leva em conta o risco de broncoaspiração: disfagia leve (engasgos eventuais), moderada (necessidade de adaptação de dieta) e gravevideofluoroscopia (disponível em centros de referência) e a nasofibrolaringoscopia funcional da deglutição.

Quando procurar um médico

Muitos pacientes chegam ao meu consultório dizendo: “Doutor, acho que é normal, pois estou ficando velho”. Não é. A disfagia nunca é “normal da idade”. Recomendo procurar atendimento médico sempre que houver um ou mais destes sinais de alerta:

  • Engasgos frequentes com líquidos ou alimentos (mais de duas vezes por semana).
  • Tosse durante ou logo após as refeições, especialmente se associada a sensação de falta de ar.
  • Voz “molhada” ou anasalada depois de comer (sinal de que comida ou saliva está nas cordas vocais).
  • Perda de peso involuntária sem motivo aparente.
  • Sensação de “nó na garganta” ou de alimento parado no peito por mais de alguns segundos.
  • Pneumonias de repetição (dois ou mais episódios no último ano), especialmente em idosos.
  • Dificuldade para engolir alimentos sólidos que progride para líquidos ao longo do tempo.

Na rede pública, o primeiro passo é procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou uma clínica popular. O clínico geral ou o médico de família fará uma avaliação inicial, solicitando exames simples como o teste de deglutição com água (beber 100 ml de água e observar tosse ou alteração na voz) e, se necessário, encaminhará para o fonoaudiólogo ou para o gastroenterologista. O Brasil conta com a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa, que inclui a triagem de disfagia nas consultas de rotina. Quanto antes o diagnóstico, maiores as chances de tratar a causa base e evitar complicações graves como desnutrição e pneumonia aspirativa, que são causas comuns de internação e morte em idosos no SUS.

Termos Relacionados

  • Odinofagia: dor ao engolir. Muitas pessoas confundem com disfagia, mas na odinofagia a dificuldade é pela dor (ardência, pontada), e não pelo bloqueio mecânico ou neurológico. Comum em faringites e refluxo intenso.
  • Broncoaspiração: passagem de alimento, líquido ou saliva para as vias aéreas (pulmão). É a complicação mais temida da disfagia, pois pode causar pneumonia aspirativa, que no SUS é uma das principais causas de óbito em idosos acamados.
  • Videofluoroscopia da deglutição: exame padrão-ouro para diagnosticar disfagia orofaríngea. O paciente ingere alimentos com contraste e é filmado em raios-X durante a deglutição. No Brasil, está disponível em hospitais de referência e centros de reabilitação.
  • Fonoaudiologia: especialidade responsável pela avaliação e reabilitação da deglutição. No SUS, os fonoaudiólogos atuam em hospitais, CAPS e centros de reabilitação, ensinando manobras posturais e exercícios para fortalecer os músculos da deglutição.
  • Estenose esofágica: estreitamento do esôfago, geralmente por cicatrizes de refluxo crônico ou cáusticos (ingestão de produtos de limpeza). Causa disfagia progressiva para sólidos. O tratamento no SUS inclui dilatação endoscópica.
  • Acalasia: doença em que o esfíncter inferior do esôfago não relaxa adequadamente, causando disfagia, regurgitação e dor torácica. O diagnóstico é feito por manometria esofágica e o tratamento pode ser medicamentoso, cirúrgico ou com dilatação.
  • Sonda nasogástrica (SNG) / Gastrostomia: via alternativa de alimentação quando a disfagia é grave e há risco de broncoaspiração. A gastrostomia (GTT) é mais confortável e de longo prazo, sendo ofertada pelo SUS após avaliação multiprofissional.
  • Refluxo gastroesofágico: retorno do ácido do estômago para o esôfago. Pode causar disfagia por inflamação ou estreitamento. Muito prevalente no Brasil, afeta cerca de 12% da população adulta, segundo dados da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia.

Perguntas Frequentes sobre O que é Disfagia

Disfagia tem cura?

Depende da causa. Se a disfagia for decorrente de uma condição reversível, como estenose por refluxo ou AVC recente com boa recuperação neurológica, sim, há cura. Em doenças crônicas e progressivas, como demência avançada ou doença de Parkinson, a cura não é possível, mas o manejo adequado (fonoaudiologia, adaptação da dieta, medicamentos) melhora muito a qualidade de vida e previne complicações. O importante é não desistir: mesmo sem cura, há sempre algo a fazer.

É normal engasgar com frequência depois dos 60 anos?

Não, não é normal. Embora o envelhecimento traga alterações naturais na musculatura da deglutição (presbifagia), engasgos frequentes, tosse após as refeições ou perda de peso indicam que algo está além do esperado para a idade. Procure avaliação. Muitos idosos se beneficiam de orientações simples, como comer devagar, manter a cabeça levemente inclinada para baixo e evitar líquidos muito finos (engrossar a água com espessante pode ser a solução).