O que é O que é Disfunção diastólica?
Na minha prática de 15 anos no SUS e em clínicas populares, uma das perguntas que mais ouço é: “Doutor, meu coração está bom? O exame disse que a fração de ejeção está normal, mas eu continuo com falta de ar.” Pois é, muitas vezes o problema não está na força de bombeamento, mas no relaxamento do coração. Isso é a disfunção diastólica – uma condição em que o músculo cardíaco fica mais rígido, incapaz de se encher de sangue adequadamente durante a fase de descanso (diástole). É como se o coração fosse um balão que perdeu a elasticidade: enche menos, mesmo que a “bomba” esteja funcionando.
No Brasil, essa situação é muito comum, especialmente entre pessoas acima de 65 anos com hipertensão arterial e diabetes. Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 50% dos pacientes com insuficiência cardíaca têm a forma com fração de ejeção preservada, e a disfunção diastólica é a base desse quadro. Um estudo do DATASUS mostrou que, em 2023, mais de 1,2 milhão de internações por doenças cardiovasculares estavam relacionadas a complicações da rigidez cardíaca, muitas vezes não diagnosticada precocemente. Na realidade das clínicas populares, atendo pacientes que chegam com ecocardiograma “limpo”, mas com sintomas típicos como cansaço após comer ou ao subir um lance de escada. Aí entra a sensibilidade clínica: o exame pode não mostrar fração de ejeção baixa, mas o Doppler revela a disfunção diastólica.
É fundamental entender que a disfunção diastólica não é uma doença isolada, mas um marcador de que o sistema cardiovascular está sobrecarregado. No SUS, a avaliação é feita principalmente pelo ecocardiograma transtorácico, disponível em hospitais de referência e algumas Unidades Básicas de Saúde (UBS) com equipamentos modernos. A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) recomenda que todo paciente hipertenso ou diabético com mais de 50 anos realize esse exame pelo menos uma vez, mesmo sem sintomas – um cuidado que muitas vezes esbarra na fila de espera, mas que pode evitar internações graves por insuficiência cardíaca.
Como funciona / Características
Para entender a disfunção diastólica, pense no ciclo cardíaco como dois movimentos: a sístole (aperto) e a diástole (relaxamento). Na diástole, o coração se enche de sangue vindo dos pulmões. Quando o ventrículo esquerdo está rígido, ele não se distende bem – é como tentar encher uma garrafa de plástico duro com água: o líquido bate na parede e volta. Essa resistência gera um aumento da pressão dentro do coração e, em consequência, nos vasos dos pulmões. O resultado? Falta de ar, especialmente ao deitar (ortopneia) ou durante esforços leves.
No cotidiano da clínica popular, vejo exemplos típicos: Dona Maria, 68 anos, hipertensa, controlada com losartana, mas que acorda ofegante à noite e precisa dormir com dois travesseiros. O ecocardiograma mostrou fração de ejeção normal (60%), mas a disfunção diastólica grau II. Outro caso: Seu João, 72 anos, diabético, com inchaço nos tornozelos e tosse seca. A pressão arterial estava 150/90, e o exame de sangue mostrou BNP (um marcador de estresse cardíaco) elevado. Ambos tinham a mesma condição – o coração “duro”. O diagnóstico é clínico somado ao ecocardiograma com Doppler, que mede a velocidade do fluxo sanguíneo de entrada no ventrículo e a movimentação do anel mitral.
Vale destacar que a disfunção diastólica piora com a idade, com a obesidade e com a falta de controle da pressão. Na prática, o tratamento não é “curar” a rigidez, mas sim reduzir a carga sobre o coração: controlar a hipertensão, usar diuréticos para diminuir o volume de sangue e, em alguns casos, medicamentos como os inibidores da ECA ou bloqueadores do receptor da angiotensina, que também melhoram a elasticidade do músculo cardíaco. No SUS, esses remédios estão disponíveis na Farmácia Popular ou nas Unidades de Dispensação de Medicamentos (UDM).
Tipos e Classificações
Os cardiologistas classificam a disfunção diastólica em três graus, de acordo com o padrão do enchimento ventricular no ecocardiograma. Essa classificação é padronizada pelas Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (2022) e pela American Society of Echocardiography:
- Grau I (Relaxamento anormal): forma mais leve. O coração demora mais para relaxar, mas ainda consegue se encher com a força da contração atrial. É comum em idosos acima de 70 anos e geralmente não causa sintomas significativos. A conduta é monitorar e controlar fatores de risco.
- Grau II (Pseudonormal): intermediário. O padrão de fluxo parece normal, mas a análise com Doppler tecidual mostra que o relaxamento está prejudicado. Aqui, os sintomas como cansaço e falta de ar aos esforços são mais frequentes. Exige tratamento mais agressivo, como ajuste de diuréticos e antihipertensivos.
- Grau III (Restritivo): o mais grave. O ventrículo está tão rígido que o sangue só consegue entrar rapidamente no início da diástole. O paciente tem falta de ar mesmo em repouso, inchaço significativo e risco elevado de hospitalização. Esse grau está associado a pior prognóstico e exige acompanhamento próximo com cardiologista.
Na rotina das clínicas populares, a maioria dos pacientes que detecto está no grau I ou II, mas muitos evoluem para o grau III por falta de acompanhamento. Por isso, o diagnóstico precoce é tão importante. A disfunção diastólica grau III pode ser confundida com outras causas de insuficiência cardíaca, daí a necessidade de exames complementares como ecocardiograma com Doppler e dosagem de BNP (ou NT-proBNP), disponível em laboratórios conveniados ao SUS.
Quando procurar um médico
Na consulta de clínica geral, muitas vezes o paciente descobre a disfunção diastólica por acaso, ao fazer um exame de rotina. Mas existem sinais de alerta que indicam a necessidade de avaliação médica:
- Falta de ar progressiva: cansaço que antes surgia só em atividades intensas e agora aparece ao caminhar devagar ou até ao falar. Isso é o sintoma mais comum.
- Dificuldade para deitar: precisar de dois ou mais travesseiros para dormir (ortopnéia) ou acordar repentinamente com sensação de sufocamento (dispneia paroxística noturna).
- Inchaço nos pés, tornozelos ou pernas: sinal de que o coração não está conseguindo bombear o sangue de volta para o corpo, acumulando líquido.
- Tosse seca persistente, especialmente à noite, sem sinais de infecção respiratória.
- Fraqueza para realizar tarefas do dia a dia como subir escadas, carregar compras ou arrumar a casa.
Se você apresenta um ou mais desses sintomas, procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou uma clínica popular. O médico fará anamnese, exame físico (escutará os pulmões, checará pressão e avaliará inchaço) e, se houver suspeita, solicitará um ecocardiograma. No SUS, o acesso ao exame pode levar algumas semanas, mas as clínicas populares costumam oferecer prazos menores. Não espere o quadro piorar: a disfunção diastólica quando não tratada pode evoluir para insuficiência cardíaca franca, com necessidade de internação.
Termos Relacionados
- Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Preservada (ICFEp): condição em que o coração bombeia normalmente (fração ≥ 50%), mas não relaxa bem. A disfunção diastólica é a causa principal desse tipo de insuficiência cardíaca.
- Fração de Ejeção (FE): percentual de sangue que o coração ejeta a cada batimento. Normal acima de 50%. Na disfunção diastólica, a FE geralmente é normal, mas a complacência está reduzida.
- Hipertrofia Ventricular Esquerda (HVE): espessamento do músculo cardíaco, comum em hipertensos crônicos. A rigidez resultante contribui para a disfunção diastólica.
- Doppler Tecidual: técnica de ecocardiografia que mede a velocidade de movimento do anel mitral, padrão-ouro para classificar os graus de disfunção diastólica.
- BNP (Peptídeo Natriurético Cerebral): exame de sangue que indica sobrecarga cardíaca. Elevado na insuficiência cardíaca, inclusive na ICFEp.
- Diuréticos: medicamentos que ajudam a eliminar o excesso de líquido e reduzem a pressão no coração. Ex: furosemida (Lasix), hidroclorotiazida. Disponíveis no SUS.
- Comorbidades: condições que pioram a disfunção diastólica, como hipertensão, diabetes, obesidade e doença renal crônica. Controlá-las é parte essencial do tratamento.
- Ecocardiograma transtorácico: exame de ultrassom do coração que avalia estrutura, função sistólica e diastólica. É o principal método diagnóstico no SUS e nas clínicas populares.
Perguntas Frequentes sobre O que é Disfunção diastólica
1. Disfunção diastólica tem cura?
Não, não tem cura definitiva, porque a rigidez do músculo cardíaco está relacionada a processos de envelhecimento e doenças crônicas. Mas ela pode ser controlada e estabilizada com tratamento adequado. Muitos pacientes convivem bem com a condição por anos, desde que mantenham a pressão controlada, o diabetes sob rédea curta e realizem acompanhamento regular. O objetivo é evitar a progressão para insuficiência cardíaca grave.


