#
O que é Disfunção temporomandibular?
A **Disfunção temporomandibular (DTM)** é um termo que usamos para descrever um conjunto de problemas que afetam a **articulação temporomandibular (ATM)** — aquela “dobradiça” que conecta o maxilar inferior ao crânio, na frente das orelhas — e os músculos responsáveis pela mastigação, movimentação da mandíbula e até pela fala. Na prática clínica do SUS e nas clínicas populares, essa é uma queixa muito mais comum do que se imagina: cerca de 10% a 30% da população brasileira apresenta algum grau de DTM ao longo da vida, segundo dados do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor Orofacial. A prevalência é maior em mulheres, especialmente entre 20 e 45 anos, e muitas vezes está associada a estresse, ansiedade e hábitos como apertar os dentes à noite.
No dia a dia de um consultório de clínica geral, recebo pacientes que chegam com dores que parecem “não ter explicação”. Eles dizem: “Doutor, sinto dor no ouvido, mas o otorrino disse que não é infecção”, ou “Minha cabeça dóle todo dia de manhã, parece que estou rangendo os dentes”. Muitas vezes, a DTM é confundida com enxaqueca, otite, sinusite ou até problemas dentários. Isso acontece porque os sintomas se espalham para a face, cabeça, pescoço e ombros. O diagnóstico precoce é fundamental para evitar cronificação da dor e desgaste articular. No contexto do SUS, o acesso ao tratamento pode ser mais lento, mas existem protocolos de atenção básica que ajudam a identificar e encaminhar corretamente.
A DTM não é uma doença única, mas sim um grupo de condições que afetam a articulação e os músculos. Pode ser desde um estalo incômodo ao abrir a boca até uma dor intensa que impede de mastigar ou falar normalmente. O importante é saber que, na maioria dos casos, o tratamento conservador (sem cirurgia) é eficaz. Como médico do SUS, sempre explico aos pacientes que, assim como tratamos uma dor nas costas com fisioterapia e mudanças posturais, a DTM também responde bem a abordagens simples, desde que haja um diagnóstico adequado.
##
Como funciona / Características
A **articulação temporomandibular** é uma das mais complexas do corpo humano. Ela realiza movimentos de abrir e fechar a boca, deslizar para os lados e para frente. Para isso, conta com um disco de cartilagem que funciona como um “amortecedor” entre o osso da mandíbula e o osso temporal do crânio. Quando algo desregula nesse sistema — seja por tensão muscular excessiva, desalinhamento do disco, inflamação ou até mesmo artrose — surgem os sintomas.
Os sinais mais comuns que observo na clínica são:
– **Dor na face, na frente da orelha ou irradiada para a cabeça, pescoço e ombros**. Muitas vezes o paciente descreve como “dor surda” ou “sensação de peso”.
– **Estalos ou crepitação ao abrir ou fechar a boca**. Isso pode ser acompanhado de “travamento” — a mandíbula prende aberta ou fechada.
– **Dificuldade para abrir a boca totalmente** (o que chamamos de limitação de abertura bucal). Isso atrapalha comer uma maçã, bocejar ou até escovar os dentes.
– **Dor ao mastigar, falar ou bocejar**. O paciente evita certos alimentos por medo da dor.
– **Dor de cabeça matinal**, especialmente ao acordar, que muitas vezes está ligada ao **bruxismo** (apertar ou ranger os dentes durante o sono).
– **Zumbido, sensação de ouvido tampado ou dor de ouvido** sem infecção — isso confunde muito os pacientes.
Na prática popular, noto que o estresse emocional é um gatilho fortíssimo. Um paciente que perde o emprego ou está passando por um divórcio pode começar a apertar os dentes à noite sem perceber. O corpo “segura” a tensão na mandíbula. Também é comum em pessoas que trabalham com digitação, motoristas ou profissionais que passam muito tempo com a cabeça inclinada — a postura influencia diretamente a ATM.
##
Tipos e Classificações
Na prática clínica brasileira, a classificação mais usada é a **RDC/TMD (Critérios de Diagnóstico em Pesquisa para DTM)**, que divide os problemas em três grupos principais:
1. **Desordens musculares (mialgia)**: a dor está localizada nos músculos da mastigação (masseter, temporal, pterigoideos). É o tipo mais comum. O paciente sente dor ao tocar na região da bochecha ou têmpora, e a dor piora com a mastigação. Tratamento: fisioterapia, relaxamento muscular, medicação anti-inflamatória não esteroidal (AINEs) e, se necessário, placas oclusais.
2. **Desordens da ATM (artralgia, deslocamento de disco, artrose)**: envolve alterações na própria articulação. O **deslocamento do disco** é quando o “amortecedor” sai do lugar, causando estalos e travamentos. Já a **artrite da ATM** é uma inflamação (pode ser decorrente de artrite reumatoide, gota ou trauma). A **artrose** é o desgaste da cartilagem, mais comum em idosos. Os sintomas incluem dor na articulação, estalos e limitação de movimento.
3. **Desordens combinadas**: quando há tanto comprometimento muscular quanto articular. É o que vemos com mais frequência no SUS.
Além disso, na atenção básica, usamos uma classificação mais simples, voltada ao encaminhamento: **DTM aguda** (causada por trauma, extração dentária complicada ou hábito recente) e **DTM crônica** (sintomas há mais de três meses, geralmente associada a fatores emocionais e posturais). Essa separação ajuda a decidir se o paciente precisa de tratamento imediato (gelo, analgésicos) ou de suporte mais prolongado (fisioterapia, psicoterapia).
##
Quando procurar um médico
Se você apresenta algum dos sintomas abaixo, é hora de buscar avaliação:
– **Dor na face, mandíbula, ouvido ou cabeça que não passa com analgésicos comuns** e atrapalha suas atividades diárias.
– **Estalos ou travamentos da mandíbula que causam desconforto ou impedem de abrir a boca completamente**.
– **Dificuldade para mastigar, falar ou bocejar** devido à dor.
– **Sensação de que o maxilar “prende” aberto ou fechado** — isso pode ser uma emergência se durar muito tempo.
– **Desgaste visível dos dentes** (amolecimento, lascas) ou **dor ao acordar**, sinal de bruxismo severo.
– **Zumbido ou dor de ouvido sem causa identificada por otorrino**.
O primeiro passo pode ser um clínico geral no posto de saúde (UBS). Ele fará uma avaliação inicial, descartará outras causas (otite, abscesso dentário, neuralgia) e, se necessário, encaminhará para o **dentista especialista em dor orofacial** ou para **fisioterapia** — ambos disponíveis no SUS em algumas regiões. Em casos complexos, o reumatologista ou ortopedista também podem ser acionados. **Não deixe de procurar ajuda**; a DTM não tratada pode levar a dores crônicas e limitação funcional severa. E lembre-se: automedicação prolongada com anti-inflamatórios ou relaxantes musculares sem orientação médica pode trazer riscos como gastrite, sangramento digestivo e dependência.
##
Termos Relacionados
- ATM (Articulação Temporomandibular) — A articulação que conecta a mandíbula ao crânio, localizada na frente das orelhas. É o foco dos problemas da DTM.
- Bruxismo — Hábito involuntário
Veja Também


