O que é Dispareunia?
Dispareunia é o nome técnico para a dor persistente ou recorrente durante ou após a relação sexual. No dia a dia de um clínico geral que atende no SUS e em clínicas populares brasileiras, essa queixa aparece com muito mais frequência do que se imagina, mas quase sempre envolta em vergonha e silêncio. Muitas pacientes chegam ao consultório dizendo apenas que “está doendo na hora de ter relação”, sem saber que existe um nome e, mais importante, tratamento para isso.
Do ponto de vista clínico, a dispareunia não é uma doença em si, mas um sintoma que pode ter diversas causas – físicas, hormonais, emocionais ou uma combinação delas. No Brasil, estimativas de serviços públicos de saúde indicam que cerca de 10% a 30% das mulheres em idade reprodutiva já experimentaram dispareunia em algum momento da vida. Esse número sobe para mais de 40% entre mulheres na pós-menopausa, principalmente por conta da atrofia vaginal causada pela queda do estrogênio. Infelizmente, por falta de informação ou por tabu, a maioria não busca ajuda. Na minha experiência, a cada 10 mulheres que relatam dor na relação, apenas 3 haviam conversado sobre o assunto com outro profissional antes.
Causas comuns no contexto brasileiro incluem falta de lubrificação adequada (muitas vezes por uso de anticoncepcionais hormonais, amamentação ou menopausa), infecções ginecológicas de repetição (como candidíase ou vaginose bacteriana), endometriose, cicatrizes de parto ou episiotomia, além de fatores psicológicos como ansiedade, medo de engravidar, histórico de violência sexual ou tensão no relacionamento. Homens também podem ter dispareunia, geralmente por problemas como fimose, prostatite ou doença de Peyronie, embora a queixa seja menos comum.
Como funciona / Características
A dispareunia pode se manifestar de formas diferentes. Muitas mulheres descrevem como uma dor aguda na entrada da vagina logo no início da penetração, outras como uma dor profunda no baixo ventre durante ou após o ato, e algumas sentem ardência, queimação ou uma sensação de “rasgo”. Esses detalhes ajudam o médico a investigar a causa.
No consultório, costumo perguntar: “A dor começou de repente ou sempre existiu?”; “Ela acontece com todas as tentativas ou só em algumas posições?”; “Você sente muito ressecamento?”. Essas perguntas são fundamentais para classificar o problema. Por exemplo, uma paciente de 35 anos que começou a sentir dispareunia profunda após cirurgia de endometriose tem uma causa mecânica; já uma jovem de 20 anos com dor superficial desde a primeira relação, associada a contração involuntária dos músculos da vagina, provavelmente tem vaginismo (um tipo específico de dispareunia).
Na prática das clínicas populares, o que mais vejo é a dispareunia por falta de lubrificação. Muitas mulheres usam anticoncepcionais orais por anos e não sabem que isso pode reduzir a lubrificação natural. A orientação de usar lubrificantes à base de água (vendidos em farmácias e até distribuídos em algumas Unidades Básicas de Saúde) já resolve boa parte dos casos. O simples ato de “quebrar o gelo” e conversar sobre o assunto já traz alívio emocional.
Tipos e Classificações
Na prática clínica brasileira, costumamos classificar a dispareunia de acordo com a localização, o momento de início e a causa.
- Quanto à localização: superficial (dor na entrada da vagina, vulva ou intróito) e profunda (dor no fundo da vagina, no baixo ventre ou na pelve).
- Quanto ao tempo de início: primária (sempre houve dor, desde o início da vida sexual) e secundária (a dor começou após um período de relações sem dor).
- Quanto à causa: orgânica (física: infecção, endometriose, atrofia, cicatriz) e psicogênica (fatores emocionais ou relacionais). Na maioria dos casos há uma mistura – a dor física gera medo, que piora a contração muscular, que aumenta a dor.
No CID-10 (Classificação Internacional de Doenças, adotada pelo SUS), a dispareunia feminina é codificada como N94.1 (Dispareunia) e a masculina como F52.6 (Dispareunia não-orgânica). Esses códigos são usados para registro nos prontuários e para autorização de exames e tratamentos.
Quando procurar um médico
Você deve procurar um médico (clínico geral, ginecologista ou urologista) sempre que a dor durante ou após a relação sexual estiver atrapalhando sua vida, seu prazer ou seu relacionamento. Não é preciso sentir dor “todo dia” para buscar ajuda – uma única experiência dolorosa que gera medo já merece atenção.
Sinais de alerta que indicam urgência:
- Dor intensa que impede a penetração.
- Sangramento após a relação.
- Febre, corrimento com mau cheiro ou ardência para urinar.
- Aparecimento de nódulos ou feridas na região genital.
- Histórico de câncer ginecológico ou cirurgia pélvica recente.
No SUS, você pode começar pelo posto de saúde (UBS). O clínico geral faz a primeira avaliação, solicita exames simples (como urina, preventivo, ultrassom pélvico) e encaminha para o ginecologista ou para a fisioterapia pélvica quando necessário. O tratamento pode incluir desde orientações simples (uso de lubrificante, mudança de posição) até medicações (cremes hormonais, analgésicos), fisioterapia, terapia sexual ou cirurgia em casos específicos.
Importante: não tenha vergonha de falar sobre isso. A dor na relação sexual não é “frescura” nem faz parte do “normal”. Você tem direito ao tratamento e ao alívio.
Termos Relacionados
- Vaginismo – Contração involuntária dos músculos do assoalho pélvico, dificultando ou impedindo a penetração. Muitas vezes associado à dispareunia superficial.
- Vulvodinia – Dor crônica


