O que é Displasia broncopulmonar?
A displasia broncopulmonar (DBP) é uma doença pulmonar crônica que afeta principalmente bebês prematuros, especialmente aqueles que nascem com menos de 32 semanas de gestação ou com peso muito baixo (abaixo de 1.500 gramas). Ela surge quando os pulmões ainda imaturos precisam de suporte respiratório intenso (respiradores artificiais e oxigênio suplementar) por longos períodos logo após o nascimento. O resultado é uma cicatrização anormal do tecido pulmonar, com inflamação crônica e dificuldade para o crescimento adequado dos alvéolos (as bolsas de ar onde ocorre a troca de oxigênio).
No contexto da clínica popular e do SUS, a displasia broncopulmonar é um diagnóstico cada vez mais frequente, pois, com a melhora dos cuidados intensivos neonatais, mais prematuros extremos sobrevivem. No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde (Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos – SINASC), a taxa de prematuridade gira em torno de 11% a 12% dos nascimentos. Estima-se que entre 20% e 40% dos recém-nascidos com peso inferior a 1.000 gramas desenvolvam algum grau de DBP. Isso significa que, a cada ano, milhares de bebês brasileiros iniciam uma jornada longa de acompanhamento nos ambulatórios de follow-up de recém-nascidos de risco, muitas vezes em unidades básicas de saúde (UBS) ou clínicas parceiras do SUS.
Na prática do dia a dia, o médico clínico geral e o pediatra da atenção primária precisam reconhecer os sinais tardios da DBP, como chiado recorrente, tosse crônica, infecções respiratórias de repetição (bronquiolites, pneumonias) e dificuldade de ganho de peso. Muitos desses bebês chegam às consultas com relato de internações frequentes por “bronquite” ou “pneumonia”, e os pais não associam o quadro à prematuridade. Por isso, o rastreamento ativo e a orientação sobre cuidados domiciliares – como evitar fumo passivo, manter vacinação em dia (especialmente a vacina contra o vírus sincicial respiratório – VSR, disponível no SUS para grupos de risco) e fisioterapia respiratória – são essenciais para reduzir complicações.
Como funciona / Características
A displasia broncopulmonar não é uma doença que aparece de repente. Ela se desenvolve ao longo das primeiras semanas de vida do prematuro, enquanto ele ainda está na UTI neonatal. O pulmão imaturo é exposto a fatores agressores: a pressão do respirador (ventilação mecânica), as altas concentrações de oxigênio (que geram radicais livres e lesam as células), a inflamação causada por infecções (como a sepse neonatal) e o próprio estresse do parto prematuro. Com o tempo, o tecido pulmonar reage formando fibrose (cicatrizes) e hiperplasia muscular lisa (espessamento das paredes dos brônquios), o que reduz a complacência pulmonar e dificulta a troca gasosa.
No cotidiano de uma clínica popular, um paciente típico com DBP pode ser um bebê de 8 meses que nasceu com 26 semanas, pesando 850 gramas. Ele já teve alta da UTI, mas continua fazendo uso de oxigênio domiciliar (em alguns casos, via cateter nasal) e precisa de monitoramento frequente. Os pais relatam que ele “pega resfriado fácil” e que, quando adoece, o chiado piora muito, às vezes precisando de nebulizações com broncodilatadores (como salbutamol) ou corticoides inalados (budesonida). É comum também que o bebê tenha dificuldade para mamar, cansaço durante a alimentação e ganho de peso lento – o que exige uma abordagem multidisciplinar com nutricionista, fisioterapeuta e fonoaudiólogo.
Uma característica importante é que a DBP não é uma doença estática. A maioria das crianças melhora progressivamente com o crescimento pulmonar (que continua até os 2–3 anos de idade), mas sequelas como asma na infância, hiper-reatividade brônquica e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) na vida adulta são mais comuns nesse grupo. Por isso, o acompanhamento longitudinal é fundamental, e a ANVISA regula os padrões de oxigênio e medicamentos usados na UTI neonatal, enquanto o CFM estabelece diretrizes para a indicação de ventilação mecânica não invasiva (CPAP) como forma de reduzir a incidência de DBP.
Tipos e Classificações
No Brasil, a classificação mais usada na prática clínica e nos serviços de referência do SUS é a proposta pela National Institutes of Health (NIH), adaptada pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Ela define a DBP com base na idade gestacional do bebê e na necessidade de oxigênio suplementar em um ponto específico do tempo:
- DBP leve (ou grau I): o bebê não precisa mais de oxigênio suplementar após 28 dias de vida (ou após 36 semanas de idade gestacional corrigida para prematuros com menos de 32 semanas).
- DBP moderada (grau II): o bebê ainda precisa de oxigênio suplementar com fração inspirada de oxigênio (FiO₂) menor que 30% nesse mesmo marco.
- DBP grave (grau III): o bebê necessita de oxigênio com FiO₂ igual ou superior a 30% e/ou ventilação mecânica (invasiva ou não invasiva) no ponto de avaliação (geralmente 36 semanas de idade corrigida).
Vale lembrar que muitos serviços brasileiros utilizam também a classificação de Jobe e Bancalari, que considera o uso de oxigênio aos 28 dias de vida e a persistência aos 36 semanas. Na prática, o médico da atenção básica não precisa decorar a classificação, mas deve entender que quanto mais grave e prolongada a necessidade de oxigênio, maior o risco de complicações pulmonares e extrapulmonares (como hipertensão pulmonar, doença do refluxo gastroesofágico e atraso no desenvolvimento neuropsicomotor).
É importante destacar que o Ministério da Saúde recomenda o registro obrigatório desses dados no sistema SISPRENATAL e no SIH-SUS (internações hospitalares) para planejamento de recursos – como a distribuição de concentradores de oxigênio e ventiladores para assistência domiciliar.
Quando procurar um médico
Para famílias que cuidam de um bebê que nasceu prematuro ou que já tem diagnóstico de displasia broncopulmonar, os sinais de alerta que exigem avaliação médica imediata (no pronto-socorro ou UBS) incluem:
- Dificuldade respiratória: o bebê respira mais rápido que o normal (mais de 60 respirações por minuto), com retrações no tórax (costelas ou esterno “afundando”) ou batimento de asas do nariz.
- Chiado ou gemido: um som agudo ao expirar ou um gemido constante, especialmente após esforço (mamar, chorar).
- Alteração na cor da pele ou mucosas: lábios, língua ou pontas dos dedos azulados (cianose).
- Recusa alimentar: o bebê mama menos, cansa rápido ou apresenta vômitos frequentes.
- Febre (acima de 38°C) ou hipoatividade: pode indicar infecção respiratória, que costuma ser mais grave em crianças com DBP.
- Piora do ganho de peso: um ganho menor que 20 gramas por dia por mais de uma semana merece investigação.
Além disso, mesmo sem sinais de urgência, toda criança com diagnóstico de prematuridade (idade gestacional < 37 semanas) e que teve suporte respiratório por mais de 28 dias deve ser encaminhada para um serviço de referência em pediatria de follow-up, que geralmente funciona nos hospitais-escola ou em centros especializados do SUS. Esse acompanhamento inclui avaliações periódicas da função pulmonar (espirometria quando a criança tiver idade adequada), ecocardiograma (para rastreio de hipertensão pulmonar) e suporte nutricional.
Termos Relacionados
- Prematuridade: nascimento antes de 37 semanas de gestação. É o principal fator de risco para DBP.
- Ventilação mecânica: uso de respiradores artificiais para ajudar o bebê a respirar. A duração da ventilação está diretamente ligada ao risco de DBP.
- Surfactante pulmonar: substância que reduz a tensão superficial dos alvéolos. Sua administração (disponível no SUS) reduziu a mortalidade de prematuros e a incidência de DBP.
- Oxigenoterapia domiciliar: tratamento com oxigênio suplementar em casa, muito comum em crianças com DBP grave. O SUS fornece concentradores de oxigênio e cilindros.
- Hipertensão pulmonar: aumento da pressão nas artérias do pulmão, complicação frequente da DBP grave que exige acompanhamento com cardiopediatra.
- Bronquiolite viral: infecção respiratória comum em lactentes, causada pelo vírus sincicial respiratório (VSR). Crianças com DBP têm maior risco de formas graves e hospitalização.
- Fisioterapia respiratória: técnica que ajuda a eliminar secreções e melhorar a expansão pulmonar. É parte do tratamento multidisciplinar no SUS.
- Acompanhamento de recém-nascido de risco (RNAR): programa do SUS que monitora prematuros e crianças com DBP para detectar precocemente atrasos e complicações.
Perguntas Frequentes sobre Displasia broncopulmonar
1. A displasia broncopulmonar tem cura?
Sim, na maioria dos casos há cura funcional. A DBP é uma doença que tende a melhorar com o crescimento e o desenvolvimento pulmonar, que continua até os 2–3 anos de idade. Muitas crianças deixam de precisar de oxigênio suplementar e têm uma vida normal, embora possam apresentar maior predisposição a asma, infecções respiratórias e menor capacidade pulmonar na vida adulta. O tratamento precoce e o acompanhamento adequado são essenciais para maximizar a recuperação.
2. Meu bebê nasceu com 30 semanas, mas não precisou de oxigênio. Ele pode ter DBP?
É improvável. A DBP está diretamente relacionada ao suporte respiratório (ventilação mecânica e/ou oxigênio suplementar) por pelo menos 28 dias. Bebês que respiram sozinhos desde o nascimento e não tiveram necessidade de oxigênio prolongado raramente desenvolvem a doença. No entanto, a prematuridade por si só já aumenta o risco de problemas respiratórios, então é importante manter as consultas de puericultura.
3. Quais são os tratamentos disponíveis no SUS para DBP?
O SUS oferece um pacote completo de cuidados: oxigenoterapia domiciliar (concentradores e cilindros), medicamentos inalatórios (corticoides e broncodilatadores, como budesonida e salbutamol), vacinação contra o VSR (palivizumabe) para bebês de alto risco, fisioterapia respiratória em centros de reabilitação, suporte nutricional (fórmulas especiais, consultas com nutricionista) e acompanhamento multidisciplinar nos ambulatórios de RNAR. A ANVISA regula a qualidade dos medicamentos e dispositivos, e o Ministério da Saúde estabelece protocolos clínicos.
4. A displasia broncopulmonar pode ser prevenida?
Nem sempre, mas medidas podem reduzir o risco. A melhor prevenção é evitar a prematuridade (pré-natal adequado, combate ao tabagismo e doenças maternas). Dentro da UTI neonatal, estratégias como uso de CPAP precoce (ventilação não invasiva), surfactante exógeno, ventilação protetora (volumes correntes baixos) e cafeína (para estimular a respiração do prematuro) diminuem a incidência de DBP. O CFM orienta os profissionais a adotar essas práticas baseadas em evidências.
5. Quanto tempo uma criança com DBP precisa de acompanhamento médico?
Recomenda-se acompanhamento até pelo menos os 2 a 3 anos de idade. Após esse período, a maioria das crianças não precisa mais de oxigênio suplementar e os sintomas se resolvem. Porém, como há maior risco de asma e infecções, o pediatra deve continuar a monitorar a função pulmonar e orientar a família. Adolescentes e adultos que tiveram DBP grave devem informar seus médicos sobre o histórico para avaliações periódicas da capacidade pulmonar.
6. É seguro amamentar um bebê com DBP?
Sim, o aleitamento materno é altamente recomendado. O leite humano fornece anticorpos, fatores anti-inflamatórios e nutrientes que ajudam a proteger o pulmão imaturo. Em bebês com DBP, o


