quarta-feira, maio 27, 2026

O que é Displasia cervical

O que é Displasia cervical?

Displasia cervical é o nome que os médicos dão para uma alteração nas células que revestem o colo do útero – aquela parte do útero que fica no fundo da vagina. No meu dia a dia no SUS e em clínicas populares, atendo muitas mulheres que descobrem essa condição exatamente no exame preventivo, o famoso Papanicolau. Elas chegam com o resultado na mão, preocupadas, e a primeira pergunta geralmente é: “Doutor, isso é câncer?”. A resposta é não, mas a displasia representa um sinal de alerta: são células que começaram a crescer de forma diferente do normal e, se não forem cuidadas, podem evoluir para um câncer de colo do útero daqui a alguns anos.

No Brasil, o câncer de colo do útero é o terceiro mais frequente entre as mulheres, com cerca de 17 mil casos novos por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Quase todos esses casos estão associados à infecção persistente pelo HPV (Papilomavírus Humano), um vírus transmitido por via sexual. A boa notícia é que a displasia é detectada precocemente e a maioria das lesões regride sozinha, especialmente em mulheres jovens. O papel do médico, principalmente na atenção primária que atendo todos os dias, é explicar isso com calma, acolher a paciente e garantir o acompanhamento correto.

Na prática da clínica popular, muitos exames são realizados pelo SUS ou convênios básicos, e o resultado costuma vir com termos como “ASCUS”, “LSIL” ou “HSIL”. Essas siglas assustam, mas fazem parte da classificação que usamos para decidir o próximo passo. O importante é saber que displasia cervical não é câncer – é uma chance de prevenir o câncer. Por isso, o Ministério da Saúde recomenda que toda mulher entre 25 e 64 anos faça o preventivo a cada três anos, e o Sistema Único de Saúde oferece todo o suporte, desde a coleta até o tratamento, se necessário.

Como funciona / Características

Imagine que o colo do útero é revestido por uma camada de células que se renovam constantemente. Quando o HPV infecta essas células, ele pode causar alterações no material genético delas, fazendo com que cresçam de forma desordenada – como se uma “má gestão” interna fizesse as células se multiplicarem sem controle. Esse processo é lento: leva, em média, de 5 a 10 anos para uma displasia grave se transformar em câncer. É justamente essa janela de tempo que torna o rastreio tão eficaz.

No consultório, a maioria das mulheres com displasia não sente absolutamente nada. Não há dor, sangramento ou corrimento visível. Por isso, o exame preventivo é a única forma de descobrir a alteração. Quando atendo pacientes que vêm com resultado alterado, explico que o corpo muitas vezes consegue combater o HPV sozinho, principalmente em mulheres com menos de 30 anos. Um exemplo comum: uma paciente de 28 anos chega com ASCUS no preventivo. Oriento repetir o exame em 6 meses, e em até 60% dos casos a lesão desaparece sem qualquer intervenção. Já em mulheres acima de 35, com lesões mais persistentes, a chance de progressão é maior, e aí entramos com exames mais específicos, como a colposcopia e a biópsia.

Vale lembrar que a displasia não é dolorosa e não interfere na fertilidade ou na vida sexual. Muitas pacientes me perguntam se vão precisar de cirurgia, e a resposta depende do grau da lesão. Lesões leves (NIC I) geralmente só exigem acompanhamento. Já as lesões de alto grau (NIC II e III) podem precisar de pequenos procedimentos, como a cauterização ou a conização, que são seguros e preservam o útero na maioria dos casos. O SUS oferece esses tratamentos em unidades de referência, com boa resolutividade.

Tipos e Classificações

No Brasil, usamos duas classificações principais para a displasia cervical. A primeira é citológica, baseada no resultado do Papanicolau – chamada de sistema Bethesda. A segunda é histológica, feita a partir da biópsia do colo do útero – a classificação de NIC (Neoplasia Intraepitelial Cervical).

Classificação citológica (Bethesda – usada no laudo do preventivo)

  • ASCUS (Células Escamosas Atípicas de Significado Indeterminado): alteração muito sutil, muitas vezes benigna. É a mais comum e geralmente regride.
  • LSIL (Lesão Intraepitelial Escamosa de Baixo Grau): lesão leve, frequentemente associada a infecção temporária por HPV.
  • HSIL (Lesão Intraepitelial Escamosa de Alto Grau): lesão mais grave, com maior risco de evolução para câncer se não tratada.
  • ASC-H (Células Atípicas que não podem excluir lesão de alto grau): um alerta para investigação mais aprofundada.

Classificação histológica (NIC – usada após biópsia)

  • NIC I (Neoplasia Intraepitelial Cervical Grau I): displasia leve, atinge apenas o terço inferior do epitélio. Muitas vezes regride sozinha.
  • NIC II (Grau II): displasia moderada, atinge dois terços da espessura. Pode regredir ou progredir, mas geralmente é tratada.
  • NIC III (Grau III): displasia grave, compromete mais de dois terços ou toda a espessura. É considerada lesão precursora imediata do câncer e exige tratamento.

Na prática, quando recebo uma paciente com NIC II ou NIC III, já encaminho para colposcopia e discuto as opções de tratamento. O SUS tem protocolos claros para isso, e o Ministério da Saúde disponibiliza diretrizes completas para o manejo.

Quando procurar um médico

O mais importante é saber que a displasia cervical é assintomática na grande maioria dos casos. Portanto, você não deve esperar sentir algo para procurar o médico. A recomendação do Ministério da Saúde é clara: toda mulher entre 25 e 64 anos deve realizar o exame preventivo a cada três anos, mesmo que não tenha queixas. No SUS, esse exame é gratuito e está disponível em todas as Unidades Básicas de Saúde.

Existem situações que merecem atenção especial. Procure um médico se você apresentar:

  • Sangramento vaginal fora do período menstrual, após a relação sexual ou após a menopausa
  • Dor ou desconforto durante a relação sexual
  • Corrimento vaginal com odor forte ou com sangue
  • Histórico de infecção por HPV de alto risco (como tipos 16 e 18)
  • Imunossupressão, como HIV, transplante ou uso prolongado de corticoide
  • Resultado anterior de displasia e abandono do acompanhamento

Além disso, se você recebeu um resultado alterado no preventivo, não entre em pânico. Agende uma consulta com seu médico de confiança ou com o ginecologista da unidade de saúde. Ele vai explicar o resultado e indicar os próximos passos – que podem ser apenas repetir o exame ou fazer uma colposcopia. Lembre-se: quanto mais cedo a lesão for detectada, mais simples e eficaz é o tratamento.

Termos Relacionados

  • HPV – Papilomavírus Humano, causador da maioria das displasias e do câncer de colo do útero. Existem mais de 150 tipos, sendo os de alto risco (16, 18, 31, 33, 45) os principais vilões.
  • Colo do útero – A porção inferior do útero que se abre para a vagina, local onde a displasia acontece.
  • Papanicolau (preventivo) – Exame ginecológico de rastreio que coleta células do colo do útero para identificar alterações.
  • Colposcopia – Exame que amplia a visão do colo do útero, permitindo visualizar lesões suspeitas e guiar a biópsia.
  • Biópsia cervical – Retirada de um pequeno fragmento do colo para análise ao microscópio, confirmando o grau da displasia.
  • Conização – Procedimento cirúrgico que remove um cone do colo do útero com a lesão, usado para tratar NIC II e NIC III.
  • Vacina contra HPV – Vacina oferecida pelo SUS para meninas e meninos a partir de 9 anos, que previne os tipos de HPV mais associados ao câncer e às verrugas genitais.
  • Câncer de colo do útero – Neoplasia maligna invasiva que pode surgir a partir de uma displasia não tratada. É evitável com rastreio e tratamento precoce.

Perguntas Frequentes sobre O que é Displasia cervical

Displasia cervical tem cura?

Sim, tem cura. A displasia é uma lesão reversível na maioria dos casos. As lesões leves (NIC I) regridem espontaneamente em até 60% das mulheres. Lesões moderadas e graves (NIC II e III) são tratadas com pequenos procedimentos ambulatoriais, como cauterização a laser, LEEP ou conização, que removem a área alterada. A taxa de cura desses tratamentos é superior a 95%. O importante é o diagnóstico precoce e o acompanhamento.

Displasia cervical é câncer?

Não. Displasia cervical é uma alteração pré-cancerosa, ou seja, um sinal de que as células estão se modificando, mas ainda não são malignas. O termo médico correto é “lesão precursora”. O câncer acontece quando essas células atravessam a membrana do colo do útero e invadem os tecidos vizinhos. Sem tratamento, uma displasia de alto grau pode levar de 5 a 10 anos para se tornar câncer – tempo mais do que suficiente para intervir.

Como é feito o tratamento da displasia cervical no SUS?

O SUS oferece todo o cuidado de forma gratuita. Primeiro, o preventivo é coletado nas unidades básicas. Se vier alterado, a paciente é encaminhada para uma colposcopia em um serviço especializado (policlínica ou hospital). Caso a


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