O que é Displasia da anca de Perthes?
A Displasia da anca de Perthes, também conhecida como Doença de Legg-Calvé-Perthes, é uma condição ortopédica que afeta a cabeça do fêmur (a “bola” que encaixa no quadril) em crianças. Ela ocorre quando há uma interrupção temporária do fluxo sanguíneo para essa região, provocando necrose (morte do tecido ósseo). Com o tempo, o osso se fragmenta, perde sua forma arredondada e, durante o processo de cicatrização, pode se deformar, gerando limitações de movimento e dor. A causa exata ainda não é completamente conhecida, mas fatores genéticos e hormonais parecem estar envolvidos.
No dia a dia de uma clínica popular brasileira, essa doença aparece com frequência entre meninos de 4 a 8 anos, que chegam mancando, sem dor intensa, mas com uma leve claudicação (andar torto). Muitas vezes os pais acham que é “preguiça” ou “dor de crescimento”. Dados do Ministério da Saúde indicam uma incidência de cerca de 1 a 2 casos por 10.000 crianças no Brasil, sendo mais comum na região Sudeste e em crianças que vivem em áreas urbanas com acesso a diagnóstico precoce. No SUS, o tratamento é oferecido nas unidades básicas de saúde (UBS), com encaminhamento para ortopedia pediátrica em hospitais de referência, como o Hospital Sarah ou o INTO.
É fundamental entender que a Displasia da anca de Perthes não é uma displasia propriamente dita (como a displasia do desenvolvimento do quadril), mas sim uma osteocondrose. O termo “displasia” é usado popularmente por alguns profissionais, mas o nome correto é Doença de Perthes. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado, que pode incluir fisioterapia, imobilização ou cirurgia, são essenciais para evitar sequelas permanentes, como artrose precoce na vida adulta.
Como funciona / Características
O processo da doença passa por quatro fases: necrose (morte do osso), fragmentação (reabsorção do tecido morto), reossificação (formação de osso novo) e remodelação (recuperação do formato). A duração total pode variar de 2 a 5 anos. Durante esse período, a criança sente dor leve na virilha, no quadril ou até no joelho (chamada de dor referida), e começa a poupar a perna, mancando.
Um exemplo prático: João, 6 anos, chegou ao posto com queixa de “andar mancando” há duas semanas. A mãe contou que ele brinca normal, mas reclama de dor na coxa à noite. Ao exame, o médico percebeu que a perna direita dele estava levemente encurtada e com limitação para rodar o quadril para dentro. O raio-X mostrou a cabeça femoral achatada, típica de Perthes. Iniciamos tratamento com fisioterapia e orientação para repouso relativo, além de acompanhamento com ortopedista pediátrico.
Caracteristicamente, a doença é unilateral (60-80% dos casos), mas pode afetar os dois quadris em até 20% das crianças. A idade média de início é entre 5 e 7 anos, sendo três a quatro vezes mais comum em meninos. Fatores como baixo peso ao nascer, retardo do crescimento e exposição ao fumo passivo estão associados a um risco maior, conforme estudos do Instituto Brasileiro de Ortopedia e Traumatologia (IBOT).
Tipos e Classificações
Para orientar o tratamento e o prognóstico, os ortopedistas no Brasil usam principalmente duas classificações:
- Classificação de Catterall: divide a necrose em quatro grupos (I a IV) conforme a porcentagem da cabeça femoral afetada. Quanto maior o grupo, pior o prognóstico. Grupos III e IV geralmente exigem tratamento mais agressivo, como cirurgia.
- Classificação de Salter-Thompson: mais simplificada, divide em tipo A (menos de 50% de comprometimento) e tipo B (mais de 50%). Muito usada na prática clínica para decisão rápida.
No SUS, a classificação de Catterall é a mais empregada porque ajuda a definir a necessidade de contenção (manter a cabeça femoral dentro do acetábulo) com órteses ou cirurgia. A escolha do tratamento depende da idade da criança, da classificação e do grau de deformidade.
Quando procurar um médico
Os sinais de alerta para a Displasia da anca de Perthes incluem:
- Claudicação (manqueira) que persiste por mais de uma semana, sem causa aparente (ex.: machucado).
- Dor no quadril, na coxa ou no joelho que piora com atividade física e melhora com repouso.
- Limitação para mover o quadril, especialmente para abrir as pernas (rotação interna) ou para o lado.
- Atrofia da coxa (perda de massa muscular) na perna afetada.
- Membros inferiores com comprimentos desiguais (uma perna mais curta que a outra).
Se a criança apresentar esses sintomas, o ideal é procurar primeiro uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um pediatra. O médico fará o exame físico e, se suspeitar de Perthes, solicitará radiografias do quadril (incidência anteroposterior e de Lauenstein). Em casos precoces, pode ser necessária ressonância magnética, disponível em serviços de referência do SUS. O diagnóstico rápido é essencial para evitar complicações e garantir o melhor prognóstico.
Termos Relacionados
- Necrose avascular: Morte do tecido ósseo por falta de irrigação sanguínea. É o processo que desencadeia a Perthes.
- Cabeça femoral: A extremidade arredondada do fêmur que se articula com o quadril. É a estrutura afetada na doença.
- Acetábulo: Cavidade do osso do quadril onde a cabeça do fêmur se encaixa.
- Osteotomia: Cirurgia de cortar e reposicionar o osso para melhorar o alinhamento do quadril. Indicada em casos graves.
- Contenção: Estratégia de manter a cabeça femoral dentro do acetábulo usando órteses (como o colete de Atlanta) ou cirurgia, para que o osso se regenere no formato correto.
- Fisioterapia: Conjunto de exercícios para fortalecer a musculatura, preservar a amplitude de movimento e evitar contraturas. Tratamento de primeira linha na maioria dos casos.
- Artrose secundária: Degeneração precoce da cartilagem do quadril que pode ocorrer na vida adulta se a Perthes não for tratada adequadamente.
- Doença de Perthes: Sinônimo de Displasia da anca de Perthes; nome científico recomendado pela Sociedade Brasileira de Ortopedia.
Perguntas Frequentes sobre O que é Displasia da anca de Perthes
A Displasia da anca de Perthes tem cura?
Sim, a doença tem cura natural em muitos casos, mas o tratamento adequado é fundamental para que a cabeça do fêmur se regenere com o formato mais próximo do normal. Cerca de 60 a 80% das crianças se recuperam bem sem cirurgia, desde que diagnosticadas cedo. O processo de cicatrização pode levar de 2 a 5 anos, e o acompanhamento médico deve ser feito até o final da fase de crescimento.
É hereditária?
Não é uma doença hereditária direta, mas existe uma predisposição genética. Estudos mostram que crianças com histórico familiar de Perthes têm risco ligeiramente maior. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica recomenda que, se um irmão tiver a doença, os outros irmãos sejam avaliados precocemente.
Precisa de cirurgia?
Nem sempre. A cirurgia (como osteotomia do fêmur ou da pelve) é indicada em casos mais graves (Catterall III/IV), em crianças com mais de 8 anos ou quando o tratamento conservador não está funcionando. O SUS oferece cirurgias nos hospitais de referência, com fila regulada pela central de marcação. O ideal é discutir as opções com o ortopedista pediátrico.
Qual o tratamento no SUS?
O tratamento começa na UBS com encaminhamento para ortopedista pediátrico. O SUS disponibiliza fisioterapia, órteses (como imobilizadores de quadril) e cirurgias quando necessário. Medicamentos para dor (como paracetamol) podem ser prescritos. O acompanhamento é feito com consultas periódicas e radiografias. O Ministério da Saúde tem protocolos clínicos para Perthes, e as unidades de saúde seguem as diretrizes do Protocolo de Doença de Legg-Calvé-Perthes.
A criança pode voltar a andar normalmente?
Na maioria das vezes, sim. Com tratamento adequado, a grande parte das crianças recupera a marcha normal e não tem limitações significativas. No entanto, algumas podem apresentar discreta diferença no comprimento das pernas ou leve rigidez do quadril. A fisioterapia é essencial para garantir o melhor resultado funcional.
Displasia da anca de Perthes é a mesma coisa que displasia do desenvolvimento do quadril?
Não. A displasia do desenvolvimento do quadril (DDQ) é um problema de formação da articulação, presente desde o nascimento, em que o acetábulo é raso e o fêmur pode sair do lugar. Já a Displasia da anca de Perthes é uma doença adquirida na infância, que leva à necrose da cabeça femoral. Embora os nomes pareçam, são condições diferentes, com causas e tratamentos distintos.
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