sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Displasia da anca do desenvolvimento

O que é Displasia da anca do desenvolvimento?

A displasia da anca do desenvolvimento (DAD), também conhecida popularmente como “luxação congênita do quadril” ou “problema no encaixe do fêmur”, é uma condição em que a articulação do quadril (anca) não se forma adequadamente durante o crescimento da criança. Na prática de 15 anos de clínica popular e SUS, vejo muitos pais preocupados com o famoso “teste do quadril” feito na maternidade. O que acontece é que a cabeça do fêmur (a “bolinha” do osso da coxa) não se encaixa direitinho no acetábulo (a “cavidade” do osso da bacia). Em vez de ficar firme, ela fica frouxa ou pode até sair totalmente do lugar (luxação).

No Brasil, a prevalência estimada da DAD é de cerca de 1 a 2 casos para cada 1.000 nascidos vivos, sendo mais comum em meninas, em bebês que nasceram de parto pélvico (sentados) e em famílias com histórico do problema. Dados do Ministério da Saúde (MS) indicam que a DAD é uma das principais causas de artrose precoce do quadril em adultos jovens se não tratada a tempo. Por isso, o diagnóstico precoce é uma prioridade nas maternidades do SUS e na atenção básica, com o exame clínico obrigatório (Manobra de Ortolani e Barlow) nas primeiras consultas do recém-nascido.

Nas clínicas populares, muitas mães chegam com a queixa de “uma perna mais curta” ou “dobra da perna diferente” no bebê. É fundamental explicar que, com tratamento simples (como o uso de um coxim de abdução ou suspensório, no início), a maioria das crianças se desenvolve normalmente e evita cirurgias ou sequelas permanentes. O olhar atento do pediatra e do ortopedista infantil nas UBS e nos ambulatórios do SUS faz toda a diferença.

Como funciona / Características

Imaginem uma articulação que precisa ser estável para sustentar o peso do corpo e permitir movimentos como andar, correr e pular. Na displasia da anca do desenvolvimento, a cavidade do quadril é rasa (como um prato raso em vez de uma concha funda), e o ligamento que segura a cabeça do fêmur é frouxo. Durante o crescimento do bebê, o quadril vai se “moldando” com o movimento e a pressão. Se a cabeça do fêmur não estiver bem encaixada, a cavidade não se desenvolve direito. É como tentar modelar o barro com o dedo torto – o formato final fica errado.

No cotidiano das clínicas, vemos dois cenários comuns:

  • Bebês – O diagnóstico é feito com manobras específicas durante as consultas de puericultura. O pai ou a mãe pode notar que uma perninha parece mais curta ou que as pregas das coxas são assimétricas. O tratamento inicial é não cirúrgico: usar o suspensório (órtese) por algumas semanas ou meses, que mantém os quadris abertos e voltados para fora (posição de “perna de sapo”), favorecendo o encaixe.
  • Crianças maiores ou adultos – Quando o diagnóstico é tardio (o que infelizmente ainda acontece em regiões com menor acesso à saúde), a pessoa pode sentir dor na virilha, claudicação (manqueira) e cansaço ao andar. O quadril perde amplitude de movimento, e o tratamento costuma ser cirúrgico, com osteotomias (cortes e reposicionamento dos ossos) nos casos mais graves.

Tipos e Classificações

A displasia da anca do desenvolvimento é classificada de acordo com a gravidade e a idade do paciente. No Brasil, seguimos principalmente a Classificação de Graf (usada na ultrassonografia do quadril do recém-nascido) e a Classificação de Tönnis (para radiografias em crianças maiores). Em termos práticos, no dia a dia das clínicas, costumamos falar em:

  • Quadril imaturo: ainda em desenvolvimento, mas com tendência a normalizar sozinho (acompanhamento apenas).
  • Displasia leve a moderada: a cabeça do fêmur está instável, mas não sai completamente do lugar. Geralmente responde bem ao tratamento com órtese.
  • Luxação: a cabeça do fêmur está totalmente fora do acetábulo. Necessita de tratamento mais intensivo, muitas vezes com gesso ou cirurgia.

No SUS, a ultrassonografia do quadril (para bebês até 6 meses) e a radiografia simples (após os 4 meses) são os exames mais acessíveis. A classificação ajuda a definir o tempo de uso da órtese e a necessidade de encaminhamento para centros de ortopedia pediátrica.

Quando procurar um médico

Se você é pai, mãe ou cuidador de uma criança, fique atento a esses sinais que podem indicar uma displasia da anca do desenvolvimento:

  • Uma perna parece mais curta que a outra.
  • As pregas da coxa ou da região das nádegas são assimétricas (de um lado tem uma dobra a mais ou mais fundo).
  • A criança manca ao andar (quando já começou a andar) ou anda na ponta dos pés de um lado só.
  • Dificuldade para abrir as pernas (abdução limitada) ao trocar a fralda.
  • Histórico familiar de displasia do quadril.
  • Parto pélvico (bebê sentado) ou gemelar.

Importante: Todo recém-nascido deve passar pelo exame clínico do quadril na maternidade e nas consultas de puericultura (primeira semana, 1 mês, 2 meses, 4 meses, etc.). Na ausência desses exames no SUS, procure um pediatra ou ortopedista infantil em uma clínica popular. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais simples e eficaz o tratamento.

Termos Relacionados

  • Luxação congênita do quadril: termo antigo, mas ainda usado, que se refere à forma grave da displasia em que a cabeça do fêmur está completamente deslocada.
  • Manobra de Ortolani: teste clínico em que o médico sente um “clique” quando recoloca a cabeça do fêmur no acetábulo, indicando que o quadril está luxado mas redutível.
  • Manobra de Barlow: teste que desloca a cabeça do fêmur para fora, avaliando a instabilidade do quadril.
  • Coxim de abdução (órtese): aparelho ortopédico que mantém os quadris do bebê abertos e flexionados, favorecendo o desenvolvimento normal da articulação.
  • Acetábulo: cavidade do osso da bacia (ilíaco) onde se encaixa a cabeça do fêmur.
  • Osteotomia pélvica ou femoral: cirurgia para reposicionar os ossos, indicada quando o tratamento conservador não teve sucesso ou em casos diagnosticados tardiamente.
  • Artrose do quadril (coxartrose): desgaste da cartilagem da articulação, que pode surgir precocemente em adultos que tiveram displasia não tratada na infância.
  • Puericultura: conjunto de consultas médicas regulares para acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança (feitas nas UBS do SUS).

Perguntas Frequentes sobre O que é Displasia da anca do desenvolvimento

Meu bebê nasceu com displasia. Ele vai precisar de cirurgia?

Na maioria dos casos, não. Cerca de 90% dos bebês diagnosticados nos primeiros meses de vida respondem bem ao tratamento com o uso do suspensório (órtese de abdução). A cirurgia é reservada para casos mais graves, diagnóstico tardio (após 1 ano de idade) ou quando o tratamento conservador falha. O importante é seguir o plano de tratamento indicado pelo ortopedista infantil e comparecer às consultas de reavaliação.

O que causa a displasia da anca?

A causa exata não é sempre clara, mas envolve fatores genéticos (histórico familiar) e mecânicos. A posição do bebê dentro do útero tem grande influência: parto pélvico (bebê sentado), oligoidrâmnio (pouco líquido amniótico) e gestações gemelares aumentam o risco. Meninas são mais afetadas por causa de hormônios que relaxam os ligamentos. Também há relação com o fato de algumas culturas enfaixarem os bebês com as pernas esticadas – no Brasil, isso é contraindicado.

Como é feito o diagnóstico no SUS?

O diagnóstico começa com o exame clínico na maternidade (teste de Ortolani e Barlow). Se houver suspeita, o médico pede uma ultrassonografia do quadril (para bebês até 6 meses) ou radiografia (após 4 meses). Ambos os exames são disponibilizados pelo SUS, embora o acesso possa ter filas em algumas regiões. Em clínicas populares, costumamos solicitar o ultrassom com urgência quando a suspeita é alta, para não perder a janela de tratamento conservador.

Meu filho já anda e manca. Ainda tem tratamento?

Sim, tem tratamento, mas ele será mais complexo. Quanto mais tarde o diagnóstico, maiores as chances de precisar de cirurgia e de fisioterapia intensiva. Mesmo em crianças maiores ou adultos, a cirurgia pode melhorar a função e aliviar a dor. Procure um ortopedista especializado em quadril o quanto antes.

É verdade que colocar o bebê de bruços ou com as pernas juntas piora a displasia?

Sim. A posição recomendada para o bebê dormir (de barriga para cima) é segura e não piora a displasia. Já o uso de “andadores” e cadeirinhas que forçam as pernas juntas e esticadas pode prejudicar o quadril com displasia. O melhor é manter os quadris do bebê abertos naturalmente (posição de “pernas de sapo”), evitando enfaixar as pernas esticadas. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Pediatria orienta o “colo materno” com as pernas afastadas e o uso de slings que respeitem essa posição.

Displasia da anca tem cura?

Tem cura, sim, quando diagnosticada e tratada precocemente. O quadril se desenvolve normalmente e a criança não terá sequelas. Mesmo nos casos tardios, o tratamento (cirúrgico ou não) pode trazer uma vida funcional com pouco ou nenhum desconforto. A palavra “cura” no sentido médico significa que a articulação fica estável e sem dor. O acompanhamento até o final do crescimento é essencial.

Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


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