O que é Displasia fibromuscular?
A displasia fibromuscular (DFM) é uma doença não inflamatória e não aterosclerótica que afeta as paredes das artérias, causando um crescimento anormal de células e fibras musculares e elásticas. Isso leva a estreitamentos (estenoses), dilatações (aneurismas) ou torções (tortuosidades) nos vasos sanguíneos. As artérias mais comumente envolvidas são as renais (que irrigam os rins), as carótidas (que levam sangue ao cérebro) e as vertebrais, mas qualquer artéria do corpo pode ser afetada.
No Brasil, a DFM é considerada uma doença rara, mas acredita-se que seja subdiagnosticada. Estimativas internacionais apontam uma prevalência de 3% a 5% na população geral, com forte predomínio em mulheres entre 30 e 50 anos. No consultório de clínica geral, especialmente nas unidades básicas de saúde (UBS) do SUS e em clínicas populares, a DFM aparece frequentemente como causa de hipertensão arterial secundária – ou seja, pressão alta que não melhora com os remédios comuns e exige investigação mais aprofundada. Muitos pacientes chegam com queixas de cefaleia (dor de cabeça) persistente, tontura ou zumbido no ouvido, sem saber que podem ter uma alteração arterial.
O diagnóstico da DFM no contexto do SUS é um desafio, pois exige exames de imagem como ultrassom com doppler, angiotomografia ou angiografia. Felizmente, o Ministério da Saúde inclui a investigação de hipertensão secundária nos protocolos de atenção básica, e muitas UBS contam com encaminhamento para serviços de referência em cardiologia e nefrologia. A ANVISA regula os contrastes e dispositivos usados nos exames, e o CFM orienta a realização de procedimentos como a angioplastia quando indicada. Como médico, sempre oriento que pacientes jovens com pressão alta de difícil controle ou com histórico familiar de aneurisma devem ser avaliados para DFM.
Como funciona / Características
A displasia fibromuscular é uma doença da parede arterial que não tem relação com o acúmulo de gordura (colesterol) típico da aterosclerose. A alteração ocorre na camada média das artérias, onde as células musculares lisas e as fibras elásticas se proliferam de forma desordenada. Isso faz com que a artéria perca sua elasticidade natural e desenvolva áreas de estreitamento (como um “laço” apertando o vaso) e áreas de dilatação (como um balão). Em alguns casos, formam-se verdadeiras “cortinas” ou “contas de rosário” nas artérias renais, um achado clássico na angiografia.
No dia a dia da clínica popular, o que mais vejo é o paciente chegar com pressão arterial elevada mesmo tomando três ou quatro medicamentos anti-hipertensivos. Muitas vezes a pressão não baixa nem com doses altas de remédio. Ao examinar o paciente, posso auscultar um sopro na região do abdômen (sopro renal) ou no pescoço (sopro carotídeo), que é um ruído anormal causado pela passagem turbulenta do sangue pela artéria estreitada. Esse sinal clínico simples, que aprendemos na faculdade, pode ser o primeiro alerta para suspeitar de DFM.
Outra característica importante é que a DFM pode causar aneurismas (dilatações perigosas) e dissecções arteriais (rasgos na parede do vaso). Isso pode levar a eventos graves como acidente vascular cerebral (AVC) ou infarto renal. Por isso, mesmo sem sintomas, quando diagnosticada, a DFM exige acompanhamento regular com exames de imagem para monitorar as artérias. No SUS, o paciente é encaminhado para um ambulatório de doenças vasculares, onde faz controle periódico com ultrassom doppler.
Tipos e Classificações
A classificação da displasia fibromuscular mais usada no Brasil é baseada no aspecto histológico (tipo de alteração na parede arterial) e na localização. A classificação histológica, descrita por Stanley e colaboradores, divide a DFM em quatro tipos principais:
- Fibroplasia íntimal: rara, afeta a camada mais interna da artéria (íntima), causando estenose concêntrica.
- Fibroplasia medial: a forma mais comum (até 80% dos casos). Apresenta o aspecto clássico de “colar de contas” na angiografia, com áreas de estreitamento e dilatação.
- Fibroplasia subadventicial: atinge a camada mais externa da artéria, podendo formar aneurismas.
- Displasia fibromuscular complexa: combinação dos tipos anteriores.
Na prática clínica brasileira, a classificação por localização é mais útil. As artérias renais são envolvidas em 60-75% dos casos, seguidas das carótidas e vertebrais (25-30%). Menos comumente, podem ser afetadas as artérias ilíacas, mesentéricas e coronárias. No SUS, ao solicitar uma angiotomografia, o laudo do radiologista geralmente descreve a artéria comprometida e o tipo de lesão (estenose focal, multifocal ou aneurisma). Isso orienta o tratamento: estenoses focais podem ser tratadas com angioplastia, enquanto as multifocais muitas vezes requerem apenas controle clínico com medicamentos.
Vale destacar que a classificação mais recente da displasia fibromuscular proposta pela Sociedade Europeia de Cardiologia divide a doença em dois grandes grupos: a DFM focal (uma única estenose curta) e a DFM multifocal (várias estenoses alternadas com dilatações, o famoso “colar de contas”). Essa classificação simplificada está sendo adotada nos centros de referência do Brasil, como o Instituto do Coração (InCor) e os hospitais universitários.
Quando procurar um médico
Qualquer pessoa, especialmente mulheres entre 30 e 55 anos, que apresente hipertensão arterial de início recente ou hipertensão de difícil controle (não responde bem a dois ou mais medicamentos) deve procurar um clínico geral ou cardiologista para investigação. Outros sinais de alerta incluem:
- Dor de cabeça latejante e persistente, principalmente na nuca.
- Tontura ou zumbido no ouvido (sintomas de estenose carotídea).
- Pressão arterial muito diferente entre os braços (sugere estenose de artéria subclávia).
- Histórico de aneurisma ou dissecção arterial (como AVC hemorrágico) em familiares.
- Dor abdominal ou nas costas após refeições (piora fluxo para o intestino).
- Sopro audível no abdômen ou no pescoço durante exame físico.
Nas clínicas populares, muitos pacientes chegam com receio de ter “pressão alta que não sara”. É importante não normalizar a hipertensão só porque o paciente é jovem. Se a pressão não baixar mesmo com medicação adequada e adesão ao tratamento, o SUS oferece encaminhamento para ambulatório de hipertensão resistente, onde a DFM é uma das causas investigadas. Não hesite em pedir ao médico que ausculte seu abdômen e pescoço – é um exame simples, barato e que pode salvar sua vida.
Termos Relacionados
- Hipertensão renovascular: pressão alta causada por estreitamento de uma ou ambas as artérias renais. A displasia fibromuscular é a segunda causa mais comum (depois da aterosclerose) em mulheres jovens.
- Aneurisma: dilatação localizada da parede arterial. Na DFM, aneurismas podem ocorrer nas artérias renais ou carótidas e trazem risco de ruptura.
- Dissecção arterial: rasgo na camada interna da artéria, que pode obstruir o fluxo sanguíneo. A DFM é um fator de risco para dissecção espontânea de artérias cervicais.
- Angiografia: exame de imagem que usa contraste para visualizar o interior das artérias. É o padrão-ourado para diagnosticar a displasia fibromuscular.
- Angioplastia: procedimento minimamente invasivo em que um balão é inflado dentro da artéria para desobstruir a estenose. Pode ser indicado em casos de DFM focal com sintomas ou hipertensão refratária.
- Hipertensão arterial secundária: pressão alta que tem uma causa identificável, como DFM, doenças renais ou tumores. O tratamento da causa pode curar ou melhorar a hipertensão.
- Sopro vascular: ruído anormal ouvido com estetoscópio sobre uma artéria estreitada. É um sinal clínico importante na suspeita de DFM.
- Estenose: estreitamento de um vaso sanguíneo. Na DFM, as estenoses podem ser focais (únicas) ou multifocais (múltiplas).
Perguntas Frequentes sobre O que é Displasia fibromuscular
O que causa a displasia fibromuscular?
A causa exata ainda não é conhecida, mas acredita-se que envolva fatores genéticos e hormonais. A doença é mais comum em mulheres, especialmente na faixa etária fértil, sugerindo influência dos hormônios femininos. Tabagismo e histórico familiar de aneurisma ou AVC também aumentam o risco. Não é causada por alimentação ou estresse, embora esses fatores possam piorar a pressão arterial.
A displasia fibromuscular tem cura?
Não existe uma cura definitiva, pois a doença é uma alteração estrutural da parede arterial que não regride espontaneamente. No entanto, com tratamento adequado, é possível controlar os sintomas, normalizar a pressão arterial e prevenir complicações como AVC e infarto renal. A angioplastia pode resolver uma estenose específica, mas a doença pode progredir em outras artérias ao longo dos anos. Por isso, o acompanhamento médico contínuo é fundamental.
Displasia fibromuscular é hereditária?
Há uma clara agregação familiar: cerca de 7% dos pacientes com DFM têm um familiar de primeiro grau também com a doença. Estudos identificaram mutações em genes relacionados ao colágeno e ao tecido conjuntivo, como o gene ACTA2 e SMAD3. Se você tem DFM, é recomendável que seus irmãos e filhos também façam triagem com ultrassom doppler, especialmente se houver histórico de hipertensão ou AVC precoce.
Como é feito o diagnóstico no SUS?
Na atenção básica, o médico suspeita pela clínica e pelo exame físico. Se houver sinais (sopro, hipertensão refratária), o paciente é encaminhado para um serviço de referência. O exame inicial mais acessível é o ultrassom doppler das artérias renais e carótidas, disponível em muitos hospitais públicos. Se houver dúvida, solicita-se angiotomografia ou angiografia por ressonância magnética. A angiografia com contraste continua sendo o padrão-ouro, mas é mais invasiva e reservada para casos em que a intervenção (angioplastia) está sendo considerada.
Quais são os riscos da displasia fibromuscular durante a gravidez?
A gravidez é um período de maior risco para complicações vasculares em mulheres com DFM. O aumento do volume sanguíneo e as mudanças hormonais podem elevar a pressão arterial e sobrecarregar as artérias. Há maior chance de pré-eclâmpsia, hipertensão grave e dissecção arterial, especialmente no terceiro trimestre. Toda paciente com DFM deve planejar a gestação com acompanhamento conjunto do cardiologista, nefrologista e obstetra de alto risco. O SUS oferece pré-natal especializado para gestantes com doenças crônicas.
A displasia fibromuscular pode causar AVC?
Sim, especialmente quando afeta as artérias carótidas ou vertebrais. A DFM é uma das principais causas de dissecção espontânea dessas artérias em adultos jovens, que pode levar a um AVC isquêmico (por entupimento) ou hemorrágico (por ruptura de aneurisma). Por isso, qualquer sintoma neurológico súbito – como fraqueza de um lado do corpo, dificuldade para falar, dor de cabeça intensa – deve ser levado imediatamente a uma emergência. A prevenção inclui controle


