sexta-feira, junho 12, 2026

O que é Displasia renal multiquística

O que é Displasia renal multiquística?

A displasia renal multiquística é uma alteração congênita (presente desde o nascimento) em que um dos rins (ou, raramente, os dois) se desenvolve de forma anormal, transformando-se em um aglomerado de cistos — bolsas cheias de líquido — que substituem o tecido renal saudável. Esse rim afetado não consegue filtrar o sangue nem produzir urina adequadamente, funcionando como se fosse um “rim cego”. É uma das causas mais comuns de massa abdominal palpável em recém-nascidos, e na prática da clínica popular brasileira, muitos casos são descobertos durante o ultrassom de rotina do pré-natal ou em exames de imagem solicitados por suspeita de infecção urinária na infância.

No Brasil, a displasia renal multiquística ocorre em aproximadamente 1 a cada 4.000 nascidos vivos, sendo ligeiramente mais frequente em meninos e no rim esquerdo. A maioria dos diagnósticos acontece ainda na gestação, por meio da ultrassonografia obstétrica, permitindo que o pediatra e o nefrologista já planejem o acompanhamento logo após o parto. No âmbito do SUS, o paciente é encaminhado para o serviço de nefrologia pediátrica ou urologia, onde são feitos exames periódicos (ultrassom, cintilografia renal) para monitorar o rim normal e eventuais complicações.

É importante deixar claro: displasia renal multiquística não é câncer, nem um tumor maligno. Os cistos são benignos, mas a presença de um rim disfuncional exige vigilância, especialmente em relação à pressão arterial e à função do rim único (o do lado oposto). Na clínica do dia a dia, vejo famílias que ficam muito assustadas com o termo “cisto” e “doença renal”. Por isso, a primeira orientação que dou é: “seu filho tem um rim normal e outro que não funciona – desde que esse rim normal seja saudável, a criança pode ter uma vida completamente comum.”

Como funciona / Características

Na prática clínica, o rim afetado pela displasia renal multiquística perde completamente a arquitetura normal. Em vez de néfrons (as unidades funcionais que filtram o sangue), o órgão é formado por múltiplos cistos de tamanhos variados, que não se comunicam entre si nem com a pelve renal. Isso significa que a urina não é produzida ali; todo o trabalho de filtração fica por conta do rim contralateral (do outro lado).

Exemplo do cotidiano de uma clínica popular: chega uma mãe com seu bebê de 3 meses porque o ultrassom de rotina mostrou “um rim cheio de cistos”. O bebê está mamando bem, ganhando peso, sem febre. Ao exame, a barriga não tem massas palpáveis. O que fazer? O primeiro passo é confirmar que o outro rim é normal. Uma ultrassonografia renal com Doppler mostra rim direito normal, rim esquerdo substituído por múltiplos cistos anecóicos. A função renal (creatinina) está dentro da faixa para a idade. Nesse cenário, o manejo é conservador: acompanhamento com nefrologista a cada 6–12 meses, controle de pressão arterial anualmente e orientação para evitar traumas na região abdominal (esporte de contato, por exemplo). A maioria dos casos evolui com involução espontânea do rim cístico ao longo dos primeiros anos de vida – ou seja, o rim vai encolhendo e desaparecendo.

Em alguns pacientes, porém, podem surgir complicações: infecção urinária de repetição (se houver refluxo para o rim cístico), hipertensão arterial (por ativação do sistema renina-angiotensina) ou, mais raramente, dor abdominal por torção ou ruptura de cistos. Nesses casos, a nefrectomia (cirurgia para retirar o rim cístico) pode ser indicada. Mas, no SUS, a conduta conservadora é a regra, salvo complicações.

Tipos e Classificações

A displasia renal multiquística é classificada principalmente de acordo com a lateralidade e com a presença de outras anomalias. Não existe uma classificação formal brasileira específica, mas seguimos os critérios internacionais adaptados pela Sociedade Brasileira de Urologia e pelo Ministério da Saúde:

  • Unilateral (mais comum – 90% dos casos): apenas um rim é afetado. O outro rim é normal e hipertrofia (aumenta de tamanho) para compensar. Prognóstico excelente.
  • Bilateral (raro – ~10%): ambos os rins são displásicos. Nessa situação, o feto geralmente apresenta oligoidrâmnio (pouco líquido amniótico) e desenvolve a sequência de Potter (hipoplasia pulmonar, deformidades faciais e dos membros). É incompatível com a vida extrauterina na maioria dos casos.
  • Associada a outras malformações: pode fazer parte de síndromes como a síndrome de VACTERL (anomalias vertebrais, anais, cardíacas, traqueoesofágicas, renais e de membros) ou trissomia do 18. No SUS, todo recém-nascido com displasia renal multiquística deve ser avaliado por um geneticista se houver suspeita de síndrome.
  • Classificação anatômica (Potter tipo II): na classificação de Potter para displasias renais, a forma multiquística é a tipo IIA (cistos grandes e irregulares, sem pelve renal identificável).

Na prática, o que importa para o clínico é saber se o rim normal está íntegro e se há refluxo vesicoureteral ou obstrução. Por isso, no SUS, após o diagnóstico, é solicitada uma cintilografia renal (DMSA) para avaliar a função do rim normal e uma ureterocistografia miccional para descartar refluxo.

Quando procurar um médico

Você deve procurar um médico – preferencialmente um nefrologista ou urologista pediátrico – nos seguintes casos:

  • Diagnóstico pré-natal: assim que o ultrassom obstétrico mostrar a alteração, agende consulta com um especialista ainda na gestação para planejar o parto e os primeiros cuidados.
  • Massa abdominal palpável no recém-nascido: se o pediatra sentir uma “bolinha” na barriga do bebê, solicite ultrassom.
  • Infecção urinária de repetição na infância: febre sem causa aparente, dor ao urinar, urina com cheiro forte. Pode ser sinal de refluxo para o rim cístico.
  • Hipertensão arterial em crianças: medida de pressão consistentemente acima do percentil 95 para idade, altura e sexo.
  • Dor abdominal persistente ou aumento súbito do volume abdominal: pode indicar torção de cisto ou hemorragia.
  • Urina com sangue (hematúria) sem trauma.

Na clínica popular, muitos pais chegam com o laudo do ultrassom e a pergunta: “Doutor, precisa operar?”. Minha resposta é sempre: “Primeiro, vamos acompanhar. A maioria não precisa de cirurgia.” Mas o acompanhamento regular com exames de ultrassom e pressão arterial é fundamental. Se você mora em região com acesso restrito a especialistas, o médico da UBS pode solicitar esses exames e encaminhar ao serviço de referência do SUS.

Termos Relacionados

  • Cisto renal simples – bolsa de líquido única e benigna dentro do rim, comum em adultos. Diferente da displasia multiquística, que é congênita e multicística.
  • Agenesia renal – ausência total de um rim. O rim que falta nunca se formou. Na displasia, o rim está presente, mas não funciona.
  • Hidronefrose – dilatação da pelve renal por obstrução da urina. Pode ser confundida com cistos em ultrassom, mas tem formato de “bexiga” e comunicação com o ureter.
  • Doença renal crônica (DRC) – perda progressiva e irreversível da função renal. Na displasia unilateral, o rim normal costuma preservar a função, evitando DRC.
  • Refluxo vesicoureteral – volta da urina da bexiga para o ureter e rim. Pode ocorrer no rim normal ou no cístico, aumentando risco de infecção.
  • Nefrectomia – cirurgia para remoção do rim. Indicada na displasia apenas se houver complicações (infecção, hipertensão, dor, suspeita de tumor).
  • Sequência de Potter – conjunto de malformações causadas por oligoidrâmnio devido à ausência de produção de urina fetal (rins displásicos bilaterais).
  • Ultrassom renal – exame de imagem de primeira linha para diagnosticar displasia renal multiquística, mostrando cistos múltiplos não comunicantes.

Perguntas Frequentes sobre O que é Displasia renal multiquística

1. Displasia renal multiquística é câncer?

Não. A displasia renal multiquística é uma malformação congênita benigna. Os cistos não são cancerosos. No entanto, existe um risco muito pequeno (< 1%) de desenvolvimento de tumor de Wilms (um tipo de câncer renal infantil) no rim displásico, mas esse risco é tão baixo que a maioria dos protocolos não indica a retirada preventiva. O acompanhamento com ultrassom periódico já é suficiente para detectar qualquer alteração suspeita.

2. Meu filho vai precisar de cirurgia?

Na maioria dos casos, não. O tratamento padrão é a observação. O rim cístico tende a involuir (encolher) com o tempo, muitas vezes desaparecendo por completo até os 5 anos de idade. A cirurgia (nefrectomia) só é indicada se houver complicações como infecção de repetição, hipertensão de difícil controle, dor crônica ou aumento suspeito de cistos. Converse com o nefrologista pediátrico do SUS para definir o melhor plano.

3. Ter displasia renal multiquística afeta a expectativa de vida?

Se a displasia for unilateral e o rim normal for saudável, a expectativa de vida é exatamente a mesma de qualquer outra pessoa. O rim normal hipertrofia e assume toda a função de filtração. É como ter um único rim superfuncionante. Apenas é recomendado evitar esportes de contato (como futebol americano, boxe) para proteger o rim único. A vida é absolutamente normal.

4. Essa condição tem cura?

Não há como “curar” ou fazer o rim cístico voltar a funcionar. Mas isso não é necessário. A cura, na prática, é a adaptação do organismo ao rim único, com acompanhamento preventivo. Quando o rim cístico involui espontaneamente, a criança fica com um rim normal e um “caroço” que some. O objetivo do tratamento é evitar complicações e garantir a saúde do rim remanescente.

5. Preciso me preocupar com a pressão arterial do meu filho?

Sim. Crianças com displasia renal multiquística têm um risco ligeiramente aumentado de hipertensão arterial, principalmente se houver algum grau de hiperfiltração no rim normal ou refluxo. Por isso, a pressão deve ser medida em todas as consultas pediátricas, pelo menos uma vez por ano. Se houver suspeita, o nef


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