domingo, junho 7, 2026

O que é Displasia septo-óptica

O que é Displasia septo-óptica?

A Displasia septo-óptica (também conhecida como síndrome de De Morsier) é uma condição congênita rara que afeta o desenvolvimento do cérebro, dos olhos e do sistema hormonal. Em termos simples, é uma alteração que ocorre ainda na gestação, nas primeiras semanas de formação do bebê, e que envolve três estruturas principais: o nervo óptico (responsável pela visão), o septo pelúcido (uma fina membrana que separa duas cavidades do cérebro) e a glândula hipófise (ou pituitária), que controla a produção de vários hormônios essenciais para o crescimento, metabolismo e funções sexuais.

Na minha experiência de 15 anos no SUS e em clínicas populares no Brasil, vejo que muitos casos chegam tardiamente ao diagnóstico. Frequentemente, a primeira suspeita surge quando um bebê apresenta nistagmo (movimentos involuntários dos olhos), baixa visão ou alterações hormonais como hipoglicemia neonatal (açúcar baixo no sangue) ou icterícia prolongada (pele amarelada que demora a sumir). A Displasia septo-óptica é considerada uma doença rara, com prevalência estimada de 1 para cada 50.000 a 100.000 nascidos vivos no mundo. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que o número real pode ser subnotificado, principalmente em regiões com menos acesso a exames de imagem e avaliação especializada.

Na prática da clínica popular, é comum que a família procure o médico por causa de “olhinho que treme” ou “dificuldade para enxergar”, e o exame oftalmológico básico já levanta a hipótese de hipoplasia do nervo óptico. O grande desafio é garantir o acompanhamento multidisciplinar – com oftalmologista, endocrinologista pediátrico, neurologista e terapia ocupacional –, o que nem sempre é fácil no SUS, mas que pode ser organizado através dos Centros de Referência em Doenças Raras ou de serviços hospitalares universitários. Por isso, o conhecimento sobre essa síndrome é fundamental para o médico generalista que atua na atenção primária, pois uma suspeita precoce muda completamente o prognóstico da criança.

Como funciona / Características

O desenvolvimento do sistema nervoso central do feto depende de uma complexa cascata de sinais genéticos e ambientais. Na Displasia septo-óptica, ocorre uma falha na formação da placa neural anterior, o que leva a três alterações clássicas: agenesia do septo pelúcido (ausência ou desenvolvimento incompleto dessa membrana), hipoplasia do nervo óptico (nervo óptico subdesenvolvido, geralmente bilateral) e disfunção hipofisária (a hipófise não produz hormônios adequadamente). Nem toda criança apresenta os três componentes; fala-se em formas completas e incompletas, mas a combinação mais comum é a de hipoplasia do nervo óptico com alteração hormonal.

No cotidiano de uma clínica popular, um exemplo típico: um menino de 3 meses chega com história de hipoglicemia neonatal de repetição, icterícia que não melhorou com fototerapia e micropênis (pênis pequeno). A mãe relata que o bebê “não fixa o olhar” e que os olhos tremem. O exame oftalmológico com oftalmoscópio mostra um disco óptico pálido e pequeno – sinal de hipoplasia. A ressonância magnética do crânio confirma a agenesia do septo pelúcido. Exames de sangue revelam deficiência de hormônio do crescimento (GH), TSH (tireoide) e cortisol. Esse quadro é clássico de Displasia septo-óptica.

A característica mais marcante para o médico da ponta é a variabilidade: algumas crianças têm apenas problemas visuais leves e podem levar uma vida relativamente normal, enquanto outras apresentam convulsões, atraso global do desenvolvimento e necessidade de reposição hormonal múltipla. O diagnóstico é confirmado por imagem (ressonância magnética) e por exames hormonais. Infelizmente, muitas crianças passam despercebidas até a idade escolar, quando o déficit visual e o baixo crescimento se tornam evidentes. Por isso, defendo que todo recém-nascido com nistagmo ou hipoglicemia inexplicada seja investigado para Displasia septo-óptica.

Tipos e Classificações

Na literatura médica brasileira, a Displasia septo-óptica não possui uma classificação formal única, mas costuma ser dividida conforme a presença dos três componentes da tríade. A classificação mais utilizada na prática clínica, inclusive nos serviços de referência do SUS, é a seguinte:

  • Forma completa: quando estão presentes a hipoplasia do nervo óptico, a agenesia do septo pelúcido e a disfunção hipofisária (pan-hipopituitarismo ou deficiências isoladas).
  • Forma incompleta (ou variante): quando apenas dois dos componentes estão presentes, ou quando a disfunção hormonal é parcial (por exemplo, apenas deficiência de GH).
  • Forma associada a outras malformações: em alguns casos, a displasia septo-óptica pode vir acompanhada de anomalias como agenesia do corpo caloso (ausência da ponte que conecta os hemisférios cerebrais) ou holoprosencefalia (falha na divisão do prosencéfalo). Nesses casos, o prognóstico neurológico é mais reservado.

O Ministério da Saúde, por meio do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Doenças Hipofisárias, reconhece a Displasia septo-óptica como uma causa de hipopituitarismo congênito. Na prática, a classificação mais importante para o médico da clínica popular é identificar precocemente deficiências hormonais que podem ser tratadas com reposição, especialmente de GH (para crescimento) e de cortisol (para evitar crises de insuficiência adrenal).

Quando procurar um médico

Os pais devem ficar atentos a alguns sinais de alerta já nos primeiros meses de vida. Se o bebê apresentar nistagmo (olhos que tremem como se estivessem “vidrados”), falta de contato visual (não acompanha objetos com o olhar) ou pupilas brancas (reflexo branco no lugar do vermelho no teste do olhinho), é importante procurar um oftalmologista ou um pediatra. Outros sinais importantes são hipoglicemia (baixo nível de açúcar no sangue, causando sonolência excessiva, tremores ou convulsões), icterícia prolongada (pele amarelada que não melhora após as primeiras semanas), micropênis em meninos, atraso no crescimento (baixa estatura) e atraso no desenvolvimento (demora para sentar, engatinhar, falar).

Na consulta de puericultura, o médico generalista deve estar atento a essas queixas. Crianças com deficiência visual de causa não esclarecida, hipotonia (moleza) ou crises de hipoglicemia recorrentes merecem investigação com ressonância magnética e perfil hormonal. No SUS, o encaminhamento pode ser feito para um serviço de endocrinologia pediátrica de um hospital de referência. Quanto mais cedo o diagnóstico, mais cedo se inicia a reposição hormonal e a estimulação visual, o que melhora significativamente a qualidade de vida. Lembre-se: Displasia septo-óptica não tem cura, mas tem tratamento!

Se seu filho já foi diagnosticado, o acompanhamento deve ser contínuo. Recomendo manter contato com um endocrinologista (para ajuste das doses de hormônios), um oftalmologista (para adaptação visual e óculos especiais) e um neurologista (para monitorar convulsões e desenvolvimento). A terapia ocupacional e a estimulação precoce também são fundamentais, e muitas vezes são oferecidas gratuitamente pelos Centros Especializados em Reabilitação (CER) do SUS.

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