O que é O que é Disrafismo?
O disrafismo (ou disrafismo espinhal) é um grupo de malformações congênitas que acontecem quando o tubo neural – estrutura que origina o cérebro e a medula espinhal – não fecha por completo durante as primeiras semanas de gestação. No Brasil, essa condição afeta aproximadamente 1 a 2 bebês a cada 1.000 nascidos vivos, segundo dados do Ministério da Saúde, sendo uma das principais causas de deficiência motora e neurológica na infância. Na prática do SUS e nas clínicas populares, o termo aparece com frequência nos encaminhamentos para neuropediatria e nos pedidos de ultrassom obstétrico com avaliação da coluna fetal.
Na rotina de um clínico geral com 15 anos de atendimento, vejo que muitos pais chegam ao consultório assustados depois de um diagnóstico pré-natal de “espinha bífida” ou “mielomeningocele”. É meu papel explicar que disrafismo é o nome técnico para esse espectro de alterações, que vai desde formas muito leves (como a espinha bífida oculta, que muitas vezes não causa sintomas) até quadros graves que exigem cirurgia logo após o nascimento. O SUS oferece acompanhamento multidisciplinar, incluindo fisioterapia, neurocirurgia e reabilitação, o que faz diferença no prognóstico.
Dados do DATASUS mostram que a região Nordeste concentra maior prevalência de disrafismo, o que reforça a importância da suplementação de ácido fólico no planejamento familiar – medida preventiva barata e altamente eficaz. O Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Ministério da Saúde recomendam que toda gestante tome ácido fólico pelo menos três meses antes da concepção e durante o primeiro trimestre. Infelizmente, muitas mulheres só procuram o pré-natal após o período crítico. Por isso, nas consultas de clínica geral, eu sempre pergunto sobre o uso de ácido fólico e oriento sobre a prevenção do disrafismo.
Como funciona / Características
Disrafismo significa literalmente “falha na rafe” (linha de fechamento) do tubo neural. O problema ocorre entre o 17º e o 30º dia de gestação, quando a futura medula e a coluna ainda estão se formando. Se o fechamento não acontece direito, parte da medula ou das meninges pode ficar exposta ou presa a tecidos vizinhos. Na prática clínica, a apresentação depende do tipo e da localização.
Exemplos do cotidiano: Recebo frequentemente recém-nascidos encaminhados da maternidade por causa de uma “fosseta” (pequeno buraco) no cóccix ou um “tufo de cabelo” na região lombar. Muitas vezes a mãe nota que a pele ali é diferente – mais fina, avermelhada ou com um furinho. Esses são sinais clássicos de disrafismo oculto. Em outros casos, a criança já nasce com uma bolsa visível na coluna (mielomeningocele), que pode vazar líquido. Nesse cenário, a neurocirurgia é urgente e o bebê precisa de cuidados intensivos no SUS.
Além dos achados físicos, o disrafismo pode causar perda de força nas pernas, dificuldade para controlar xixi e cocô, e hidrocefalia (acúmulo de líquido no cérebro). Na clínica popular, muitos adultos chegam com queixas de dor lombar ou fraqueza progressiva sem saber que têm uma forma leve de disrafismo que nunca foi diagnosticada. O exame de imagem padrão-ouro é a ressonância magnética, disponível pelo SUS para casos suspeitos. A avaliação inclui também ultrassom da coluna em bebês (antes do fechamento das fontanelas) e radiografia simples em casos de oculto.
Tipos e Classificações
No Brasil, a classificação mais usada pelos neurocirurgiões divide o disrafismo em dois grandes grupos, conforme a presença ou não de conteúdo exposto ou aderido:
- Disrafismo aberto (espinha bífida aberta): O tecido neural fica exposto ao meio externo. O principal exemplo é a mielomeningocele, em que a medula e as meninges formam uma bolsa visível nas costas. Exige cirurgia nas primeiras 24-48 horas de vida para evitar infecções e danos neurológicos. Acomete cerca de 40% dos pacientes com disrafismo no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria.
- Disrafismo fechado (espinha bífida oculta): A pele recobre a lesão, mas há alterações internas. Inclui subtipos como lipomeningocele (gordura aderida à medula), diastematomielia (uma “rabicho” ósseo dividindo a medula), e o seio dérmico (caminho anormal entre a pele e o canal vertebral). Muitos casos são assintomáticos e descobertos por acaso em exames de imagem.
Outra classificação útil no dia a dia é a anatômica: cervical, torácica, lombar ou sacral. A localização define o tipo de sintoma – lesões mais altas (cervicais) afetam os quatro membros; lesões lombares comprometem pernas e bexiga. O Ministério da Saúde, por meio do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para mielomeningocele, padroniza o atendimento no SUS, incluindo cirurgia intraútero em centros de referência.
Quando procurar um médico
Muitos casos de disrafismo são identificados ainda no pré-natal, durante a ultrassonografia morfológica (entre 18 e 24 semanas). Sinais de alerta como “banana” ou “limão” no crânio do feto podem indicar espinha bífida. Se você ou sua médica suspeitarem, o encaminhamento para um serviço de medicina fetal do SUS é o caminho certo.
No bebê, procure atendimento imediato na UBS ou UPAS se notar:
- qualquer bolsa ou “caroço” na coluna do recém-nascido
- um furinho ou tufo de pelo na região lombar que não cicatriza
- dificuldade para movimentar as pernas
- perda de urina ou fezes sem controle
- cabeça crescendo muito rápido ou moleira tensa (hidrocefalia)
Em adultos, fique atento a dor lombar que não melhora, formigamento nas pernas, fraqueza progressiva ou incontinência urinária de início recente. Embora menos comum, o disrafismo oculto pode se manifestar após esforço físico, crescimento ou trauma. O clínico geral pode solicitar a ressonância e encaminhar para a neurologia pelo SUS. Não deixe para depois: quanto mais cedo o diagnóstico, melhores as chances de tratamento.
Termos Relacionados
- Espinha bífida: termo mais popular para disrafismo espinhal, usado tanto para formas abertas quanto ocultas.
- Mielomeningocele: tipo mais grave de disrafismo aberto, com exposição da medula. Requer cirurgia neonatal.
- Hidrocefalia: acúmulo de líquido no cérebro, comum em bebês com mielomeningocele. Tratada com derivação ventrículo-peritoneal (cateter) no SUS.
- Ácido fólico: vitamina do complexo B que, quando tomada antes e no início da gestação, reduz em até 70% o risco de disrafismo. Distribuído gratuitamente nas UBS.
- Bexiga neurogênica: perda do controle da bexiga por lesão neurológica causada pelo disrafismo. Manuseada com cateterismo intermitente limpo, orientado pela enfermagem do SUS.
- Seio dérmico: pequeno trajeto anômalo entre a pele e o canal vertebral, que pode infeccionar e causar meningite. Tratamento cirúrgico.
- Diastematomielia: divisão da medula espinhal por um espículo ósseo ou fibroso. Pode causar escoliose e dor. Diagnosticada por ressonância.
- Lipomeningocele: massa de gordura aderida à medula, coberta por pele. Tipo de disrafismo fechado comum na região sacral.
Perguntas Frequentes sobre O que é Disrafismo
Disrafismo tem cura?
O disrafismo não tem cura no sentido de “voltar ao normal”, mas o tratamento adequado permite uma vida com qualidade. A cirurgia corrige a exposição e desaperta a medula, evitando que os sintomas piorem. No SUS, a reabilitação com fisioterapia, terapia ocupacional e acompanhamento urológico faz toda a diferença. Muitas crianças com formas leves levam vida normal. Nos casos graves, o objetivo é maximizar a independência e prevenir complicações como infecção urinária e úlceras de pressão.
Todo disrafismo é espinha bífida?
Sim, disrafismo é o termo


