O que é Dissecção arterial?
A dissecção arterial é uma condição grave e potencialmente fatal, na qual ocorre uma ruptura na camada mais interna da parede de uma artéria (a íntima). Essa ruptura permite que o sangue, sob alta pressão, penetre entre as camadas da parede arterial, criando um espaço anormal chamado de “falso lúmen”. Esse falso canal pode se propagar ao longo do vaso, comprimir o canal verdadeiro por onde o sangue deveria fluir, e até mesmo se romper completamente, causando hemorragia interna massiva.
A dissecção mais conhecida e temida é a dissecção de aorta, a principal artéria do corpo. No entanto, qualquer artéria pode ser afetada, como as carótidas (no pescoço), as vertebrais (que vão para o cérebro), as coronárias (no coração) e as artérias renais ou mesentéricas. É uma emergência médica absoluta, exigindo diagnóstico e intervenção imediatos, geralmente em um hospital de alta complexidade com cirurgia cardiovascular disponível.
No contexto do SUS e das clínicas populares brasileiras, a dissecção arterial é um diagnóstico que precisa ser suspeitado rapidamente na atenção primária. Embora seja relativamente rara — estima-se que a incidência de dissecção de aorta seja de cerca de 3 a 6 casos por 100.000 pessoas por ano —, é uma causa importante de morte súbita e de infarto agudo do miocárdio em jovens, muitas vezes confundida com outras doenças. No Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que a hipertensão arterial não controlada é o principal fator de risco, e a falta de acesso a exames de imagem (como angiotomografia) em tempo hábil ainda é um gargalo, especialmente em regiões mais afastadas dos grandes centros.
Como funciona / Características
Para entender a dissecção arterial, imagine a parede de uma artéria como um cano de três camadas: a íntima (interna, lisa), a média (musculosa) e a adventícia (externa, de sustentação). Na dissecção, uma pequena laceração na íntima permite que o sangue se infiltre para dentro da camada média. A pressão sanguínea vai “descascando” a parede, criando um espaço falso que pode se estender para frente (propagação anterógrada) ou para trás (retrógrada).
Esse processo leva a dois problemas principais: 1) o falso lúmen pode comprimir o verdadeiro, reduzindo o fluxo de oxigênio para órgãos vitais como cérebro, rins, intestino ou medula espinhal; 2) a parede arterial enfraquecida pode se romper completamente, provocando uma hemorragia interna catastrófica. A dor típica é descrita como “dor em rasgadura” ou “em facada”, de início súbito, migratória (acompanha a propagação da dissecção) e que não melhora com repouso ou medicação comum.
No dia a dia de uma clínica popular ou de um pronto-atendimento do SUS, frequentemente vemos pacientes que chegam com dor torácica intensa e são inicialmente tratados como suspeita de infarto. A diferença crucial é que, na dissecção, a dor é lancinante e pode se irradiar para o dorso, abdome ou pescoço, muitas vezes associada a diferença de pressão arterial entre os braços (≥20 mmHg) ou a sinais de isquemia de membros (pulso fraco, palidez, dor). A presença de sopro cardíaco novo ou de derrame pleural também são pistas importantes.
Tipos e Classificações
Existem várias classificações para a dissecção arterial, sendo as mais usadas no Brasil as que se aplicam à aorta:
- Classificação de Stanford: é a mais prática e usada em emergências.
- Tipo A: envolve a aorta ascendente (a parte que sai do coração). É a mais grave, pois pode comprometer as artérias coronárias, a válvula aórtica ou causar tamponamento cardíaco (sangue no pericárdio) e ruptura. Exige cirurgia de urgência.
- Tipo B: não envolve a aorta ascendente; limita-se à aorta descendente (depois da saída das artérias para a cabeça e braços). O tratamento inicial é clínico (controle rigoroso de pressão e frequência), reservando a cirurgia para complicações.
- Classificação de DeBakey: divide em três tipos:
- Tipo I: dissecção que começa na aorta ascendente e se estende por toda a aorta.
- Tipo II: limitada à aorta ascendente.
- Tipo III: começa na aorta descendente (após a artéria subclávia esquerda).
- Dissecção de carótida e vertebrais: são classificadas como extracranianas ou intracranianas, frequentemente associadas a traumas de pescoço, manipulação quiroprática ou doenças do tecido conjuntivo (como síndrome de Ehlers-Danlos). No Brasil, o aumento de casos relacionados a acidentes de trânsito e a prática de atividades como mergulho ou ioga tem sido relatado.
É importante destacar que, independentemente do tipo, qualquer suspeita de dissecção arterial requer avaliação por especialista (cardiologista, cirurgião vascular ou intensivista) e exames como ecocardiograma transesofágico, angiotomografia ou ressonância magnética – procedimentos que, no SUS, são regulados e podem ter filas, mas que em casos de urgência são priorizados.
Quando procurar um médico
A dissecção arterial é uma emergência. Procure imediatamente um serviço de urgência (UPA, pronto-socorro ou SAMU 192) se você ou alguém apresentar:
- Dor súbita, intensa e lancinante no peito, nas costas (entre as escápulas) ou no abdome, que parece “rasgar” ou “queimar”.
- Dor que se desloca para o pescoço, mandíbula, braços ou pernas.
- Diferença de pressão arterial entre os braços (mais de 20 mmHg).
- Desmaio (síncope) sem causa clara.
- Sinais de acidente vascular cerebral (AVC): fraqueza de um lado do corpo, dificuldade para falar, perda de visão.
- Pulso fraco ou ausente em um dos braços ou pernas.
- Dificuldade para respirar ou suor frio intenso.
Na clínica popular, muitas vezes o paciente chega com queixa de “dor nas costas” depois de esforço físico, achando que é muscular. É fundamental que o médico não descarte a possibilidade de dissecção arterial, especialmente em pacientes hipertensos, tabagistas, com histórico de aneurisma ou com doenças hereditárias (síndrome de Marfan, Ehlers-Danlos). A realização de um ecodoppler cardíaco ou de uma angiotomografia de urgência pode salvar vidas.
Termos Relacionados
- Aneurisma de aorta: dilatação localizada da parede arterial, que pode ser um precursor ou complicação da dissecção. Diferente da dissecção, no aneurisma não há ruptura da íntima, mas sim um enfraquecimento difuso.
- Hematoma intramural: sangramento dentro da parede arterial, sem uma laceração clara na íntima. É considerado um precursor da dissecção clássica.
- Úlcera penetrante: lesão na placa de ateroma que penetra na parede arterial, podendo evoluir para dissecção ou ruptura.
- Pseudoaneurisma: formação de um falso saco de sangue fora do vaso, geralmente após trauma ou punção arterial (ex: cateterismo). Não é uma dissecção verdadeira, mas pode causar complicações semelhantes.
- Hipertensão arterial sistêmica: principal fator de risco modificável. O controle adequado da pressão reduz drasticamente a chance de dissecção.
- Síndrome de Marfan: doença genética que afeta o tecido conjuntivo, tornando as artérias mais frágeis. Pacientes com Marfan têm risco aumentado de dissecção de aorta em idade jovem.
- Dissecção coronária espontânea: ocorre nas artérias do coração, mais comum em mulheres jovens, especialmente durante ou após a gravidez. É uma causa rara de infarto.
- Síncope: perda súbita e transitória da consciência. Na dissecção, pode ocorrer por queda da pressão ou por envolvimento das artérias cerebrais.
Perguntas Frequentes sobre O que é Dissecção arterial
O que exatamente acontece no corpo durante uma dissecção arterial?
Imagine que a parede da artéria é como um tubo de três camadas. Quando uma das camadas internas se rasga, o sangue entra nesse espaço e “descasca” a parede, criando um canal falso. Esse canal pode crescer, comprimir o canal verdadeiro e dificultar a passagem do sangue para os órgãos. Se a parede externa se romper, ocorre uma hemorragia interna grave. Por isso, é tão perigoso.
Quais são os sintomas mais comuns?
O sintoma clássico é uma dor súbita, intensa e em “rasgadura” no peito, nas costas ou no abdome. A dor pode se mover conforme a dissecção se propaga. Outros sinais incluem diferença de pressão nos braços, desmaio, falta de ar, fraqueza em um lado do corpo, pulso fraco e suor frio. Muitas vezes, os pacientes acham que estão tendo um infarto, mas a dor na dissecção costuma ser ainda mais intensa e migratória.
Qual a diferença entre dissecção de aorta tipo A e tipo B?
A classificação de Stanford é simples: tipo A envolve a aorta ascendente (perto do coração) e tipo B não. O tipo A é muito mais grave, pois pode afetar as artérias que irrigam o coração e o cérebro, além de causar sangramento no saco que envolve o coração (tamponamento). O tratamento do tipo A é cirúrgico de urgência. Já o tipo B, na maioria das vezes, é tratado clinicamente com controle da pressão e monitoramento, a menos que haja complicações.
Existe cura para a dissecção arterial?
Sim, com tratamento rápido e adequado, muitas pessoas sobrevivem e têm boa qualidade de vida. A “cura” depende da extensão da dissecção e da rapidez do atendimento. O tratamento pode ser cirúrgico (substituição do trecho danificado por um enxerto) ou endovascular (colocação de uma endoprótese por cateter, sem cirurgia aberta). Após o tratamento, o paciente precisa de acompanhamento vitalício, controle rigoroso da pressão arterial e exames periódicos.
Como é feito o diagnóstico de dissecção arterial?
O diagnóstico começa pela suspeita clínica (dor típica + fatores de risco). O exame mais sensível para confirmar é a angiotomografia computadorizada (com contraste), que mostra claramente a presença de dois canais (verdadeiro e falso) na artéria. Outros exames incluem ecocardiograma transesofágico (útil na sala de emergência) e ressonância magnética. No SUS, esses exames estão disponíveis em hospitais de referência, mas a demora no encaminhamento pode ser um problema.
Como prevenir uma dissecção arterial?
A prevenção é baseada no controle dos fatores de risco, principalmente a hipertensão arterial. Manter a pressão abaixo de 130/80 mmHg, não fumar, controlar o colesterol, evitar o uso de drogas ilícitas (como cocaína, que eleva a pressão abruptamente) e fazer acompanhamento médico regular. Para pessoas com doenças hereditárias (Marfan, Ehlers-Danlos), o rastreamento com exames de imagem é recomendado. O portal da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular oferece orientações para pacientes.
Conteúdo revisado por equipe médica. Este verbete é educativo e não substitui consulta médica.


